Produção artesanal de chocolate amazônico ajuda manter floresta em pé no Pará

Izete dos Santos Costa é conhecida como "Dona Nena" (Raisa de Araújo/CENARIUM)
Raisa de Araújo – Da Cenarium

BELÉM (PA) – Quando o assunto é chocolate, o Brasil é campeão, mas nem todos os brasileiros conhecem seus craques. Em quantidade, o País é o sexto maior produtor mundial de cacau, de acordo com a International Cocoa Organization (ICCO). Em qualidade, algumas das variedades produzidas no Pará – atualmente o maior produtor nacional do fruto – são reconhecidas internacionalmente pelo Cocoa of Excellence dentre as melhores amêndoas do planeta. 

A empreendedora Izete dos Santos Costa, mais conhecida como “Dona Nena”, é uma representação da grande popularidade do chocolate da Amazônia e de como os novos negócios têm explorado possibilidades de misturar o fruto a outros ingredientes locais, como cupuaçu, açaí e castanha, produzindo chocolates únicos e com enorme potencial de mercado.

Nativa da Ilha do Combu, em Belém do Pará, Dona Nena é a mulher que abriu a porta de casa para receber o Presidente da França, Emmanuel Macron, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em março deste ano. Ela sempre trabalhou com cacau, seguindo uma tradição familiar. 

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Pedaços de chocolate produzido na Ilha do Combu, no Pará (Raisa de Araújo/CENARIUM)

No início, a produção de amêndoas de cacau era vendida para atravessadores, que as repassavam para indústrias de chocolate, mas somente em 2005, quando Dona Nena participou de uma feira de chocolate, ela se viu estimulada a desenvolver o chocolate artesanal. 

Em 2011, eu tive o prazer de conhecer o chefe de cozinha Thiago Castanho, que se apaixonou pelo nosso trabalho. Ele se tornou nosso parceiro, começou a trabalhar com nosso produto no restaurante dele, indicou o nosso produto para vários chefes famosos, e o restaurante dele passou a ser uma vitrine para a gente. As pessoas iam lá, viam, tinham curiosidade, e vinham aqui me conhecer“, explicou Dona Nena à CENARIUM

O sucesso foi imediato e a empreendedora começou a atrair a atenção de chefes de cozinha e profissionais de festivais gastronômicos em todo o Brasil. Com o crescimento, foi preciso, também, melhorar o espaço para receber os turistas, fortalecer a administração do local e se especializar na produção formal de chocolate.

Cacau é plantado na Ilha do Combu (Raisa de Araújo/CENARIUM)

A partir de 2018, Dona Nena passou a contar com a ajuda de Mário Carvalho, que se tornou seu administrador. Eles construíram a primeira loja e uma cozinha de manipulação. No mesmo ano, ela foi para Canela, no Rio Grande do Sul, para aprender a fazer chocolate, e participou de um curso intensivo de chocolataria durante um ano. Em 2019, formou-se na categoria “tree-to-bar“. 

Depois disso, a empreendedora da Ilha do Combu começou a produzir seu próprio chocolate, utilizando apenas cacau e açúcar, dentro do padrão orgânico, atendendo especialmente o público vegano, vegetariano e pessoas com alergias alimentares. Hoje, Dona Nena tem sua própria linha de chocolates, uma loja na cidade e parcerias com restaurantes locais, vendendo seus produtos em todo o Brasil. 

Reconhecimento

Tudo isso culminou em um dos momentos mais marcantes para Dona Nena: a visita dos presidentes Lula e Emmanuel Macron. Ela considera essa visita um grande reconhecimento para seu trabalho e para a Ilha do Combu. Foi a primeira vez que Macron veio ao Brasil e que Lula visitou seu espaço, tornando-se um marco importante. 

Então, pra mim foi, assim, o maior reconhecimento que eu pude ter […] Foi bem legal, eles foram muito atenciosos, levaram nossas cartas de pedidos da comunidade, bateram foto com todo mundo dentro da loja, visitaram nossas áreas de produção“, comentou Dona Nena.

Lula e Macron visitaram o espaço de Dona Nena (Divulgação)
O valor da floresta em pé

Preocupada com o crescimento e a popularidade de seus produtos, Dona Nena iniciou um plano de manejo para a produção de cacau, que envolveu outros produtores de cacau na ilha. Atualmente, 15 famílias são beneficiadas diretamente com a produção do cacau, e o restante da comunidade é beneficiando indiretamente com o aumento do fluxo turístico na ilha. 

“Como a nossa produção não é de uma fazenda de cacau, é tudo na nossa propriedade, e nela tem as árvores nativas da floresta, o nosso cacau se mistura com elas e com isso nós não temos uma grande produção. Mas a partir daí, eu comecei a trabalhar com o cacau da minha família, com o meu, e também comecei a procurar os produtores locais para eu poder estar dando conta da demanda, que cada dia crescia mais”, explica Dona Nena.

Dona Nena exibe, nas mãos, o fruto do cacau (Raisa de Araújo/CENARIUM)

Dona Nena, além da produção de chocolate, desempenha um importante papel em sua comunidade. Ela fortalece o empoderamento das mulheres da ilha, mostrando como a floresta pode gerar renda através da extração de óleo de andiroba, treinamento para manipulação de frutas, produção de licores e geleias, além de cursos de criação de abelhas e hortas. Este esforço mostra o potencial econômico da floresta em pé. “Hoje, a gente se sente feliz em poder fazer e mostrar isso, que trabalhar com a floresta de pé é mais importante para todo mundo”, explicou.

Bioeconomia na Amazônia

Nativo da floresta, o cacau é um dos carros-chefe da bioeconomia amazônica. O Pará é o maior produtor nacional do fruto. O IBGE estima que, em 2024, o Estado produza mais de 152 mil toneladas de cacau, empregando cerca de 30 mil produtores. Boa parte dessa produção vai para grandes multinacionais, já que o cacau é considerado uma commodity agrícola e o mercado de chocolate é dominado por grandes multinacionais, como Kraft, Nestlé, Mars, Hershey, Ferrero etc. 

O diretor-superintendente do Sebrae no Pará, Rubens Magno explica que “ao capacitar os produtores a alcançarem outros mercados dentro e fora do Brasil, bem como atender clientes estrangeiros que virão ao Pará, especialmente no ano que vem, durante a conferência do clima, contribuímos tanto para o fortalecimento do empreendedorismo como do próprio mercado de chocolate, que se torna mais diverso e inclusivo”

Chocolate para prova de consumidor (Raisa de Araújo/CENARIUM)

A capacitação de pequenos produtores autorais fortalece um nicho de mercado cada vez mais valorizado pelo consumidor, dos chocolates de alta qualidade, e favorece a inserção dos empreendedores nesse setor, que atualmente estão se beneficiando de um ciclo de alta na cotação do cacau. Segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO), o cacau é a commodity agrícola que mais se valorizou em 2024, com pico de 191% registrado em abril.

“A Amazônia tem o clima ideal para o cacaueiro e pode conquistar cada vez mais destaque no mercado nacional e internacional se apostarmos em formas sustentáveis e inclusivas de produção”, finaliza Rubens Magno.

Leia mais: Empreendedorismo de mulheres de comunidades do Pará contribui para justiça climática
Editado por Adrisa De Góes
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