23 de novembro de 2020

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Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium

MANAUS – O que era para ser mais uma aula virtual de yoga acabou gerando desespero e preocupação em uma aluna. Durante a mudança de uma das posturas, o professor sofre um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e deixa milhares de seguidores aflitos. Tudo é transmitido ao vivo pelas redes sociais. No entanto, o vídeo é um alerta e faz parte da campanha da Organização Mundial do AVC, na prevenção da doença, comemorado nesta quinta-feira, 29.

O slogan da campanha é “Movimente-se para que não aconteça com você, já que uma em cada quatro pessoas ao longo da vida terá um AVC”. De acordo com o Ministério da Saúde (MS), anualmente, o AVC mata 100 mil pessoas no Brasil, além de ser a segunda causa de morte em todo o mundo e a primeira em incapacidade, conforme dados da Organização Mundial do AVC.

Apesar de atingir com mais frequência quem está acima dos 60 anos, o AVC pode ocorrer em qualquer idade, e tem crescido entre os menores de 45 anos, o que provavelmente se deve ao atual estilo de vida de cada um. A cada ano, 13,7 milhões de pessoas têm um AVC no mundo e 5,5 milhões morrem. Atualmente, existem 80 milhões de sobreviventes de AVC no mundo.

Segundo a neurologista do Hospital Santa Júlia Drielle Sales, há dois tipos de AVC, o isquêmico e o hemorrágico. A neurologista explica a diferença entre os dois tipos. “No AVC isquêmico, o coágulo bloqueia o fluxo sanguíneo em uma área determinada do cérebro. Já no hemorrágico, o sangramento ocorre dentro ou ao redor do cérebro”.

A especialista ressaltou ainda que a campanha é importante para ajudar as pessoas a identificar os sinais da doença, que assim como nas demais patologias cardíacas, são silenciosos.

“Se em algum momento você identificar em uma pessoa próxima esses três sinais: boca torta, dificuldade de fala, dificuldade de levantar um dos braços, procure ajuda médica imediatamente, pois enquanto mais rápido essa pessoa for atendida em um centro de AVC, menores são as chances de sequelas”.

Drielle ressaltou ainda que o manauara está obeso, pratica pouca atividade física, consome muita farinha, que é um carboidrato, fritura e tudo isso acaba influenciando para doenças como AVC e cardíacas. “O que posso dizer a nível nacional é que menos de 1% dos pacientes recebem tratamento, portanto, essa não é uma realidade só do Amazonas”.

Em Manaus, não há nenhuma unidade hospitalar de emergência do SUS especializada em AVC, assinala a neurologista. A referência na cidade é o Hospital João Lúcio, porém, lá só tem neurocirurgião, especialistas em operar patologias da cabeça como, traumatismo craniano, entre outros, mas eles não são especialistas em tratar AVC.

“Na verdade em Manaus não temos um centro para tratamento de AVC agudo, que são esses pacientes que começaram a ter um déficit neurológico que iniciou de uma hora para outra não temos um local específico para atender esses pacientes”, frisa Drielle.

A neurologista esclarece ainda que o tratamento da fase aguda é decisivo para evolução do paciente. Isso significa que o paciente com quadro de AVC isquêmico pode receber o tratamento com medicamento até quatro horas e meia depois dos primeiros sintomas e, atualmente, temos um tratamento estendido que é a trombectomia mecânica, um procedimento que o paciente com AVC pode receber o tratamento até 24 horas, mas dependendo de cada caso. Esse tipo de tratamento não está disponível no SUS, em Manaus. 

Depoimentos

A professora de língua inglesa Juliana Silva tinha 26 anos quando sofreu um AVC. “Eu estava em uma festa quando senti uma dor na cabeça forte. Consegui pagar a conta e depois não lembro mais de nada”, conta

Por meio de uma tomografia, os médicos verificaram que ela tinha sofrido um AVC isquêmico com a oclusão de três artérias do cérebro. Na noite em que teve o AVC, os médicos desobstruíram uma das artérias e, no dia seguinte, outra.

A mãe da jovem, Samara Cândida, de 50 anos, explica que, se o procedimento não tivesse sido feito rapidamente, Juliana provavelmente não teria sobrevivido ou teria ficado com muitas outras sequelas.

A professora lida com a dificuldade de produzir a linguagem, conhecida como afasia, e problemas motores. Embora consiga caminhar sozinha, não consegue operar a mão direita. Mesmo com as limitações, ela e a mãe, a comerciante Samara Cândida, 50 anos, explicam que todas as funções executadas hoje foram conquistadas com muito esforço.

A jovem, hoje com 28 anos, passa por terapias diárias com fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional e já tentou técnicas como a neuromodulação, uma estimulação transcraniana feita com aplicação não invasiva de uma corrente elétrica, e a contenção induzida, outro tratamento que isola um dos lados do corpo para estimular os movimentos do lado contrário.

“É um trabalho diário, mas seguimos caminhando juntas. A cada dia é uma batalha vencida. Às vezes choro sozinha porque a minha filha estava na flor da idade e tinha uma carreira pela frente. No entanto, o mais importante disso tudo é que ela está viva”, desabafa a mãe de Juliana.

A babá Mariana Soares, de 49 anos, não teve a mesma sorte. A babá sofreu um AVC enquanto dormia e quando seus patrões [Sofia Petraglia e Alfredo Sampaio] acordam, a pequena Júlia, de 4 anos, filha do casal, estava chorando. Os patrões acharam estranho e quando foram ver, Mariana já estava sem vida.

“Foi um transtorno. Mariana era da família. Ela já trabalhava com minha mãe quando eu era pequena. Foi uma perda muito grande, nossa filha sentiu bastante, os familiares dela e os nossos. É uma doença que não manda recado. Não esperávamos que isso fosse acontecer”, comenta Sofia, sobre a babá da sua filha.

(Arte Revista Cenarium)

Entenda a diferença da doença

O AVC isquêmico ocorre quando há obstrução de uma artéria, impedindo a passagem de oxigênio para células cerebrais, que acabam morrendo. Essa obstrução pode acontecer devido a um trombo (trombose) ou a um êmbolo (embolia). O AVC isquêmico é o mais comum e representa 85% de todos os casos.

Já o AVC hemorrágico ocorre quando há rompimento de um vaso cerebral, provocando hemorragia. Esta hemorragia pode acontecer dentro do tecido cerebral ou na superfície entre o cérebro e a meninge. É responsável por 15% de todos os casos de AVC, mas pode causar a morte com mais frequência do que o AVC isquêmico.

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