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21 de novembro de 2021
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Carolina Givoni, Náferson Cruz, Mencius Melo e Márcia Guimarães – Da Revista Cenarium

MANAUS – Políticos e figuras públicas fazem balanço sobre os quatro anos do impeachment de Dilma Rousseff (PT), a primeira mulher a ocupar a cadeira do executivo federal da história da política brasileira. Na perspectiva de apoiadores, o afastamento da presidente, em 31 de agosto de 2016, por crime de responsabilidade, ganhou notoriedade pelo cunho machista e misógino adotado indiretamente ao processo.

A própria ex-presidente Dilma Rousseff participou de uma live intitulada “Homenagem a Dilma – 4 anos do golpe” para relembrar o apoio recebido pelos companheiros durante todo o julgamento. “Quero agradecer a então senadora à época, Gleisi Hoffmann, que lutou tenazmente contra esse golpe. E também mandar um abraço a então senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB). Elas, assim como outras mulheres, estavam à frente, lutando por esta bandeira”, relembrou.

Machismo explícito

A escritora Marilene Felinto denunciou a contínua perseguição à ex-presidente Dilma Rousseff, mesmo após a saída da Presidência da República. “Quantas ondas feministas serão necessárias? Na décima onda, a marcha será por Dilma Rousseff, cujo nome seguem achincalhando, equiparando-o ao de seus opressores, seus algozes torturadores”, escreveu Marilene Felinto, em alusão ao editorial da Folha de São Paulo, “Jair Rousseff”.

Para o sociólogo e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luiz Antônio, a história do impeachment da presidente Dilma Rousseff é um pouco mais complexa em razão da avaria que o País sofreu após a sua saída.

“Estamos vivenciando bons momentos, ao mesmo tempo em que o ‘conjunto da obra’ de Dilma despertava a ira dos conservadores e neoliberais, que colocava o pobre no orçamento. Umas das ações que corresponde a isso foi a destinação dos royalties do petróleo colocados na educação, além das suas investidas para a queda dos juros, que, por sua vez, os bancos não deram o devido acompanhamento da taxa central da Selic. Combinado com isso, Dilma abriu a nacionalização industrial, uma vez que, desde os anos 30, o País não tinha ações importantes no campo industrial”, comentou.

Violada em sua dignidade, a ex-presidente Dilma Rousseff sofreu ataques de misoginia explícita como a campanha sobre o preço dos combustíveis (Reprodução/Internet)

Luiz Antônio concluiu a entrevista à REVISTA CENARIUM ressaltando que Dilma vinha num processo muito duro em razão do seu combate à corrupção e por ser a primeira mulher presidente.

“Reuniu-se um conjunto de forças para derrubá-la pela sua coragem em apoio ao combate aos corruptos, mas, sem sombra de dúvida, o machismo foi um grande atributo, lembro, à época, que eram colocados em carros imagens de insinuações explícitas de Dilma, porém ninguém fez isso com presidente homem. Isso foi machismo explícito. O mais espantoso nesse processo de cassação foi a leniência do Senado, o Judiciário nunca foi cobrado. Hoje todos reconhecem que a cassação não foi correta. No futuro, a casa (Senado) haverá de pedir desculpa, não sei quando vai ser, mas, em algum momento na história deste País, todos vão ter que pedir desculpas para Dilma”, finalizou.

Outras declarações

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva também se manifestou sobre a data memorável, citando a frase célebre de Dilma em 2016.

“O golpe não foi cometido apenas contra mim e contra o meu partido. Isto foi apenas o começo. O golpe vai atingir indistintamente qualquer organização política progressista e democrática. O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência” – Dilma Rousseff, há exatos quatro anos, em seu discurso ao deixar a Presidência.

Na foto, a presidente eleita democraticamente por duas vezes pelo povo brasileiro recebe a faixa do então presidente Lula. (Reprodução/Facebook)

Entrevistada pela REVISTA CENARIUM, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), uma das vozes mais combativas ao governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, declarou que a violação da Constituição Federal (CF) trouxe consequências gravíssimas para o País.

Considerada uma das mais atuantes vozes de oposição ao governo, Jandira Feghali (PCdoB) não economiza: “golpe”. (Reprodução/Internet)

“Interrompemos o mandato da primeira mulher eleita na República brasileira e neste episódio desrespeitamos a soberania do voto popular. O povo perdeu direitos fundamentais e o resultado deste processo é um governo fascista que tem pulsão pelo ódio, pela violência, que não respeita a vida, que nega a ciência, que se sustenta num esquema ilegal e milionário de notícias falsas e que vai levar a nossa gente e o País a sua mais profunda crise social, econômica e instabilidade democrática. Precisamos somar forças para manter a esperança, acreditar na nossa capacidade de luta e superação”, resumiu a deputada.

Já a presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, também se manifestou sobre o caso. “Hoje, completam 4 anos do golpe contra Dilma, dia que a elite política abriu caminho para o desmonte e o descalabro que criou Bolsonaro. Depois da retirada de direitos e políticas públicas, o que se vê é o bizarro”, comentou.

O presidente estadual do PT, Sinésio Campos, afirmou que a “cada dia se confirma que na verdade foi um golpe de estado. As pedaladas foram a única coisa que argumentaram contra ela. Mas pedaladas todos os governos fazem, o Bolsonaro já fez. O País tem que deixar de legislar contra a vontade do povo. A Dilma foi vítima de preconceito, primeiro por ser mulher. A nossa sociedade é preconceituosa, é machista. E foi vítima também porque não compactuou com parte do Congresso com negociatas espúrias. Isso resultou em uma cassação sem fato gerador, com motivo meramente político”, defendeu.

Por meio do Twitter, políticos como o deputado federal José Ricardo (PT) se pronunciaram no microblog. ”O GOLPE não foi só contra a companheira @dilmabr também foi contra o povo brasileiro e nossa frágil democracia. A luta continua e a bancada do @PTnaCamara continua a defender você!”, declarou.

Sobre o impeachment

O “golpe”, como é conhecido o processo de impedimento de Dilma, entre os correligionários, teve início em 2 de dezembro de 2015, pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, a partir de uma denúncia elaborada pelo procurador de Justiça aposentado Hélio Bicudo e pelos advogados Miguel Reale Júnior e Janaina Paschoal.

Personagem central do impeachment, o presidente da Câmara dos Deputados, à época, Eduardo Cunha, foi preso por corrupção meses depois (Reprodução/Internet)

A Câmara Federal (CF) aprovou o prosseguimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no Congresso. Foram 367 votos favoráveis e 137 contrários, além de 7 abstenções e 2 ausências. Após 6 dias de julgamento, o Senado concluiu, em 31 de agosto, o impeachment de Dilma, cassando o mandato da presidente, mas mantendo os seus direitos políticos. Foram 61 votos favoráveis e 20 contrários no julgamento que ficará marcado na história do Congresso Nacional e do Brasil.