Quilombos do Amapá, Pará, Pernambuco e Goiás já têm mortes por coronavírus

Leonardo Fuhrmann e Bruno Stankevicius Bassi / De Olho nos Ruralistas

A previsão de Manuel dos Santos se confirmou: as comunidades quilombolas registraram ao menos seis mortes pelo novo coronavírus. Os casos foram registrados em Amapá, Pará, Pernambuco e Goiás. Ao todo, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) registrou outros sete casos confirmados de Covid-19 e outros 29 que estão sendo monitorados por suspeita de contaminação.

Todas as mortes registradas são em comunidades diferentes. Uma das vítimas não foi identificada a pedido da família. Das outras cinco vítimas, apenas uma tinha mais de 60 anos. A vítima fatal mais jovem entre os quilombolas é Simone Paixão Moraes, de 29 anos, do Quilombo Espírito Santo, em Cacoal, no Pará.

A Conaq alertou para um alto grau de letalidade e subnotificação nas comunidades rurais negras. “Situações de dificuldades no acesso a exames e denegação de exames a pessoas com sintomas têm sido relatadas pelas pessoas das comunidades”, afirma, em nota.

A coordenação demonstra preocupação com a dificuldade de acesso ao sistema de saúde na maioria das comunidades, o que pode elevar a letalidade, e ao acesso à água, o que dificulta os cuidados preventivos para evitar o alastramento da pandemia.

Comunidades sem renda básica

Segundo a Conaq, integrantes de diferentes comunidades relataram a dificuldade de acesso à renda básica emergencial, especialmente no que toca à acessibilidade dos procedimentos de cadastramento via aplicativo e falta de ações dos governos estaduais e municipais no sentido de atender demandas emergenciais dos quilombos.

Dados do próprio Ministério da Saúde, divulgados este mês, mostram um maior índice de letalidade provocada pelo Covid-19 entre os negros. Os dados, por enquanto, mostram uma situação mais ligada aos centros urbanos, onde a doença se espalha com mais velocidade. Desigualdade social e doenças relacionadas são apontadas como os principais motivos para o maior índice de mortes.

Em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, o coordenador nacional da Conaq, Denildo Rodrigues de Moraes, o Biko, teme que as autoridades se preocupem mais com as cidades e deixem as comunidades rurais ainda mais esquecidas.

“As comunidades já estão sentindo efeito na questão da comida”, diz. “Muitos territórios que não produziam agora necessitam da ajuda emergencial do alimento e do material de higiene que ainda não chegou a esse território”.

Ele conta que muitas comunidades estão reforçando o isolamento, principalmente as de maior interesse turístico, como em Paraty (RJ), Jalapão (TO), Vale do Ribeira (SP) e no Território Kalunga, que tiveram suas entradas cercadas. Além da pandemia, o temor é de aumento dos conflitos agrários, como tem acontecido com os indígenas.

“Os conflitos tendem a aumentar, a exemplo de Alcântara, onde o Estado diz para as pessoas não saírem de casa e ao mesmo tempo pede para as pessoas saírem de suas terras”, finalizou.

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