1 de outubro de 2020

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Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium

MANAUS – Quando nasceu, o hoje rapper indígena da etnia guarani, Kunimí MC recebeu o nome Werá Jeguaka Mirim [relâmpago, em guarani]. Ao batizá-lo, sua mãe sabia que o caminho do filho seria radiante. O jovem guarani de 19 anos, que vive com a família na aldeia Krukutu, localizada em Parelheiros, Zona Sul da cidade de São Paulo, se prepara para lançar, no dia 2 de setembro, o clipe de seu próximo single “Moradia de Deus”. O clipe é mais uma parceira com a produtora Matéria Rima.

Nesta quinta-feira, 27, o Kunumí MC falou à REVISTA CENARIUM sobre sua história, carreira e seus planos do pós-pandemia.

Kunumí MC mostra força dos povos indígenas nos seus clipes (Divulgação Gabe Maruyama/Revista Cenarium)

Conhecido, internacionalmente, e com mais de dez mil seguidores no Instagram, o rapper indígena coleciona dois discos produzidos, o EP de estreia, “My Blood is Red” [lançado em 2017 em parceria com uma gravadora inglesa, após sua participação no Criança Esperança, da Rede Globo, em 2016] e o álbum “Todo Dia É Dia de Índio” [de 2018, sob o comando da produtora Matéria Rima].

Em 2019, o jovem guarani realizou o sonho de gravar com um de seus ídolos o sigle “Demarcação Já – Terra Ar Mar”, o rapper Criolo, um dos expoentes do estilo no País. A música denuncia o aumento do desmatamento nas invasões às terras indígenas ocorridas no Brasil, em 2019.

A parceria com Criolo surgiu após o Kunumí MC ser convidado para participar do minidocumentário “Meu Sangue É Vermelho, que tem mais de dez mil visualizações, desde o lançamento, em 2017. No documentário, o rapper, compositor e ator brasileiro fala sobre a sinergia entre ele o jovem indígena. “Kunumí vem de uma pureza dos povos originais do Brasil e ele representa o País da descoberta com todas as belezas intocadas ainda. A música consegue trazer o encontro com uma ancestralidade. A letra dele me emocionou muito”, expressa Criolo.

O sucesso mais recente do jovem indígena, lançado em junho passado, é o single “Xondaro Ka’aguy Reguá (Forest Warrior)”, que ganhou clipe, dirigido pela dupla da Angry Films, Bruno Silva e Gabe Maruyama e tem mais de 46 mil visualizações em seu canal Kunumí MC RAP Indígena, no Youtube.

O rapper guarani defende o direito dos povos indígenas em seus singles (Divulgação Gabe Maruyama/Revista Cenarium)

Werá Jeguaka Mirim vem de família de artistas. Filho do escritor, poeta e palestrante indígena Olivio Jekupe, o cantor indígena escolheu o rap como ferramenta de veiculação de ideias em favor da causa indígena. Em suas composições ele aborda temas como respeito aos povos indígenas, importância da natureza e urgência da demarcação de terras e mudanças climáticas em decorrência do desmatamento.

“O que me inspira é a natureza, pois é a moradia de Deus e o índio sempre acreditou nisso. Mesmo ouvindo que o índio é burro ou que não tem capacidade de conhecimento. Nosso povo respeita a natureza. E tudo o que aconteceu no passado é um preconceito contra o índio e eu transcrevo em minhas músicas”, destaca Kumuní MC.

Kunumí durante manifestação no jogo Brasil e Croácia, na Copa do Mundo de 2014 (Divulgação Assessoria/Revista Cenarium)

O jovem guarani viu sua trajetória mudar, em 2014, quando foi convidado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), juntamente com outras duas crianças (uma negra e outra branca) para participar da abertura da Copa do Mundo no Brasil. Na ocasião, eles entraram no gramado do jogo Brasil e Croácia com pombas brancas simbolizando a paz. Após soltar a ave, o então menino de 12 anos — que é fã de futebol — mostrou ao estádio uma faixa com a frase “Demarcação já”, em referência à luta a demarcação de terras indígenas. Segundo o jovem guarani, a imprensa brasileira, na época, ignorou esse ato. Mas, a mídia internacional quis saber o significado daquele protesto. Depois disso, Kunumí conseguiu visibilidade, sendo convidado a falar sobre o tema em palestras e representando a própria aldeia.

“Antes da Copa de 2014, eu sofria muito preconceito e ouvia falar que o indígena não podia fazer rap por uma perda de cultura. Não sabia fazer arte. Isso não é verdade. Aqui na aldeia sempre tivemos contato com a música, literatura, história e arte em geral. Hoje, temos que usar essa arte como protesto para expressar o que estão fazendo com nosso povo, com a floresta e com a cultura indígena. Essa luta pelas causas indígenas é o que me motiva”, assegura o MC.

Críticas à sociedade

Kunumí demostrou durante entrevista a nossa equipe ser um jovem culto, politizado e antenado a assuntos atuais do Brasil e do mundo, mas também da cultura e dos povos indígenas.

Nos palcos Kunumí MC canta e encanta com seus raps que falam sobre a luta dos povos indígenas em relação à demarcação de terras, desmatamento e mudanças climáticas (Divulgação Assessoria/Revista Cenarium)

O jovem guarani faz uma crítica aos jovens desta geração. “É preciso mais respeito e conhecimento dos jovens da cidade, pelos povos indígenas. Não só a literatura dos autores brancos, mas também dos autores indígenas. Além de conhecer uma aldeia indígena para saber a nossa realidade. Para isso, eu indico o livro “Tekoa” – conhecendo uma aldeia indígena”, recomenda, Kanumí.

Segundo ele, todos os dias está lendo e escrevendo alguma coisa. Cada rap escrito por ele, retrata um sentimento sobre sua cultura, o Brasil e o mundo. “Meus raps são uma forma de conscientizar os jovens da cidade, pois muitos não sabem a realidade que nós vivemos, tento levar o nosso sofrimento para que eles vejam que o índio também sofre”, frisa.

Recentemente Kanumí lançou em conjunto com sua família, o livro “Literatura Nativa em Família”, primeiro livro indígena escrito por uma família guarani inteira e é vendido pelo site Amazon.

“O que me motivou a ser escritor foi o que eu aprendi junto com a minha família, a preservar as nossas histórias, nossa cultura, justamente para que o nosso passado não se perca. Acredito que a literatura é uma forma de preservar em um livro, todas as histórias contada por alguém”, conclui.

Trajetória

Kunumí [curumim, em guarani e menino, em português] começou a escrever aos seis anos. A vontade pela escrita floresceu por influência de sua mãe, Maria Kerexu, e pelo pai, Olívio Jekupé — poeta e escritor que já lançou 19 livros de literatura nativa, e que vão desde poesia, contos indígenas, romance a textos críticos. Aliás, Kunumí também já tem dois livros lançados — um em parceria com o irmão, Tupã Mirin, chamado “Contos dos Curumins Guaranis” e outro solo, “Kunumi Guarani”. 

O livro de poesias do seu pai, “500 anos de Angústia”, foi o que mais impulsionou Kunumí a começar a fazer rap. Inspirado pela poesia que leva o título do livro, ele escreveu uma poesia

“Decidi transformar essa poesia numa música e percebi que parecia muito com o rap, porque era uma letra de protesto e tinha muitas rimas. Eu já gostava muito de rap também, então decidi ser um MC e me ‘apelidei’ de Kunumí MC”, conta. E completa: “meu rap é diferente por ser indígena e também pela melodia e o ritmo de cantar, que é próprio meu, além disso canto em guarani”. 

Sobre as influências musicais, Kunumí MC aponta outros artistas indígenas como o grupo Brô MC’s, o rapper Oz Guarani, além do grupo Racionais MC’s e MC Sofia que fala sobre a cultura negra.

A aldeia indígena Krukutu é localizada entre os municípios de São Bernardo do Campo e São Paulo. Atualmente contam com cerca de 47 famílias que vivem no local, totalizando em torno de 300 pessoas, tendo como cacique, Karaí de Oliveira de 30 anos.

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