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22 de janeiro de 2022
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Karol Rocha – Revista Cenarium

MANAUS — As cenas de busca por alimentos em lixões têm sido comuns ao redor do Brasil. Esta semana, ao menos duas situações dessa natureza foram registradas no País. Uma delas é de moradores em meio ao lixão municipal de Humaitá, no Sul do Amazonas, que aparecem em um vídeo que viralizou nas redes sociais, recentemente, ‘garimpando’ comida estragada para matarem a fome. O caso ocorreu na última quarta-feira, 12.

Para sociólogos amazonenses, o cenário é um problema estrutural do País. No entanto, a política econômica atual contribui para acentuar a fome no Brasil: “O País é extremamente desigual, resultado do processo histórico onde negros e índios estão submetidos a uma violência contínua. Esse debate esteve na raiz das políticas públicas de transferência de renda, no governo FHC, e se intensificou no governo Lula”, comentou o doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia, o sociólogo Odenei Ribeiro.

Ele acrescenta que nos últimos seis anos houve um desmonte da rede de proteção social: “Somado a isto, temos a política ultraliberal de Guedes (ministro da Economia), que reduziu a renda da população mais pobre, a inflação e os erros da política de combate à pandemia. A política econômica do governo Bolsonaro acentuou as desigualdades, levando ao agravamento da fome entre a população mais vulnerável”.

Ainda segundo o sociólogo, não existe uma solução rápida, ou mesmo a médio prazo, para cenários como a fome. Ele ressalta que governos futuros precisam articular políticas públicas em diversos setores para reduzir o drama da fome.

“Imediatamente, ampliar os programas de transferência de renda direta ao cidadão; fazer uma reforma agrária; ampliar os investimentos na agricultura familiar, pois, esta é que produz alimento para o mercado interno; o agronegócio produz commodities para a exportação; investir em obras públicas para gerar emprego e aquecer o mercado; recuperar o poder de compra do trabalhador reduzindo a inflação”, recomenda.

O sociólogo e cientista social Luiz Antônio Nascimento também relembra a criação de programas de segurança alimentar que foram extintos pela atual gestão federal. “Hoje, o produtor agrícola desestimulado não vai produzir se não tem mercado. Então, a oferta de alimentos caiu, o preço aumentou combinado com a inflação, o desemprego agravou e o corte do Bolsa Família foi drástico. Esse foi o caldo de cultura que fez com que as pessoas fizessem de tudo para sobreviver”.

Retratos de busca por comida no País

Em Humaitá, no Sul do Amazonas, dezenas de famílias se aglomeraram em meio ao lixão municipal para conseguir resgatar pedaços de frango e consumi-los. O alimento impróprio para o consumo foi despejado após apreensão feita pela Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Amazonas (Adaf), na quarta-feira, 12. A carga saiu de Rondônia com destino a Canutama, mas não possuía nota fiscal e não contava com refrigeração adequada para consumo.

Outra situação parecida ocorreu no Ceará, esta semana. Um vídeo, viralizado nas redes sociais, mostra clientes aglomerados disputando peças de carne em lojas da rede de supermercados Extra, em Fortaleza. O episódio ocorreu na quinta-feira, 13, em uma loja do bairro Parangaba, após a franquia colocar diversos itens em promoção, antes do fechamento das unidades físicas no Ceará. Nas imagens, um funcionário do supermercado arremessa produtos em direção ao grupo de clientes, causando tumulto entre eles.

No ano passado, em outubro, dezenas de famílias foram ao Mercado Municipal, no Centro de São Paulo, em busca de alimentos prestes a serem descartados. Verduras e restos de carnes e peixes eram separados pela população para consumo.