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22 de outubro de 2021
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Sempre achei difícil a definição de amor. O poeta português Luís de Camões disse que o “amor é fogo que arde sem se ver (…) é querer estar preso por vontade”. O apóstolo Paulo na carta aos Coríntios, capitulo 13, traduz o sentimento do amor como algo que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (…)”. O filósofo Platão pregava que o amor é desejo, pois só amamos o que desejamos e só desejamos aquilo que nos falta, deixamos de amar quando conquistamos o desejado.

Não, não tenho e jamais terei o talento dos poetas renascentistas, dos sábios bíblicos e nem dos filósofos gregos para traduzir ou definir o amor. Mas tinha algo em mim que deixava o meu coração mais barulhento, a minha mente inquieta, a vida angustiada e uma felicidade sem fim, ainda mais quando pensava naquela mulher, que mexia com as minhas fantasias bobas e me incitava aos melhores desejos da vida.

Sempre quando eu a via abria as janelas e deixava a lua entrar; sonhava com sua imagem e dava vontade de tocar as estrelas; acompanhava a luta dela por vidas e esquecia o sofrer do mundo; quando estava perto daquela mulher, curtia o cheiro de jabuticaba e queria dar-lhe o melhor na vida; quando ficava longe demais, era só escuridão, mundo sem segredo, lua distante.

Então, como um trovador medieval que desejava o impossível, resolvi lhe escrever uma carta de amor. Bem boba e ridícula, como toda carta de amor, segundo os escritos do poeta português Fernando Pessoa. Nela, em tom emotivo, narrei meus sentimentos humanos, nem sempre confessáveis ao público: sonhos de mudar o mundo e decepções com a vida; conquistas e frustrações; angústias e alívios; qualidades profissionais e adjetivos pessoais; pouco caprichei nos defeitos, mas utilizei palavras escolhidas, objetivando impressionar a amada.

Finalizei decifrando a beleza do corpo e da alma dela e, pedindo uma chance, uma aproximação bem intensa, além de desejar educadamente um bom final de semana. Emocionado, dediquei-lhe frases bobas, que eu acreditava poéticas, entre as quais: vontade de amar-te, vontade de deitar nas curvas do seu colo, vontade de não fazer nada e também fazer tudo, vontade de falar bobagens e também assuntos importantes, vontade de expressar medos e alegrias, vontade de subir ruas e descer ladeiras segurando tua mão, vontade de revelar-te ao mundo e também esconder-te nos meus segredos.

Depois, com selos enfeitados de corações, fiz a postagem com a esperança de um pacifista e a inocência de uma criança. Porém, nunca tive a resposta, nenhum gesto dela deu sinal da carta enviada, das palavras ditas, das juras de amor confidenciadas. A dúvida, a tristeza, sensação do fracasso e da desilusão invadiu-me. Sentia o desamor. Naquele momento, a sensação parecia-me com a negação da vida.

Pois bem, há um ano, organizando as minhas gavetas do escritório de casa, encontrei a carta, com um aviso anexo da empresa dos correios informando que eu tinha esquecido o nome e endereço da destinatária. Agora, depois de 14 anos, lendo essa carta, constato que o significado do amor muda com a idade, com as experiências na vida e com a harmonia espiritual, mas o amor é sempre uma dádiva que encontramos nos escritos poéticos e nas decisões humanas.

Isso tudo me faz lembrar, novamente, o poeta Fernando Pessoa, quando afirma que são ridículas as cartas de amor, assim como, as criaturas humanas que nunca escreveram cartas de amor.

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