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26 de janeiro de 2022
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Com informações do Infoglobo

SÃO PAULO – Em busca de comida no lixo, Gabriel Silva, de 12 anos, encontrou o Natal. Morador de Pinheiro, cidade a 333 quilômetros de São Luís, no Maranhão, o menino garimpou, entre os resíduos descartados no lixão da Piçarreira, na microrregião da Baixada Maranhense, a pequena árvore de plástico típica da festa de fim de ano. A cara de felicidade do garoto em meio ao caos, que foi flagrada pelo fotógrafo João Paulo Guimarães, de Belém, fez mais do que reverberar nas redes sociais. Ela desencadeou uma série de ações, públicas e privadas, que prometem mudar a vida de milhares de catadores do município, que podem passar a ganhar auxílio mensal e cesta básica.

Para crianças como Gabriel, a mudança representa muito. A capital é apenas um cenário visível da pobreza que ainda assola o Maranhão. Relatório das Organizações das Nações Unidas (ONU) aponta que o estado é o que concentra mais gente vivendo na pobreza no país. Os dados, de 2019, mostram que quase 20% da população maranhense viviam com renda mensal abaixo de R$ 145. Com essa quantia, pais de famílias tinham que dar conta de comida, higiene e material escolar.

O flagrante feito no dia 8 de novembro diz muito sobre essas estatísticas. “Gabriel estava catando lixo desde 7h e, no meio da sujeira, encontrou essa árvore de Natal e ficou muito, mas muito feliz. Ele mostrou para a mãe dele, dona Maria, e fez planos de ajeitar para dezembro e colocar na sala de casa. Gabriel guardou dentro de uma caixa a árvore, voltou a procurar comida. Depois, veio buscar a árvore. Ele ficou muito feliz”, contou o fotógrafo, no Instagram.

Miséria recorde

Desde que a foto circulou pela internet, Gabriel já ganhou uma árvore de Natal novinha, quase do seu tamanho, com direito a todos os enfeites tradicionais. “Vi um vídeo que parecia teaser de um filme pós-apocalítico, mas era realidade. As pessoas correndo atrás do caminhão do supermercado para pegar comida. Foi quando decidi ir para lá”, pontua Guimarães.

Um cenário de miséria que só se intensificou nos últimos anos. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), de 2020 para 2021, o número de brasileiros que vivem na pobreza quase triplicou.

Pelos olhos do menino, talvez haja um futuro melhor. Uma audiência pública já foi realizada na cidade para a criação da Associação de Catadores de Pinheiro. O objetivo é uma maior organização do trabalho e a busca por políticas públicas voltadas para famílias que sobrevivem da reciclagem.

No encontro, o prefeito João Luciano Silva Soares, conhecido como Luciano Genésio, se comprometeu a fornecer renda mínima de 100 reais por mês para o catador associado e uma cesta básica por mês para a família de cada catador.

O fotógrafo também criou e divulgou em seu Instagram uma campanha para arrecadar dinheiro para que Gabriel pudesse ganhar um celular de Papai Noel. A vaquinha criada já havia reunido, até a noite de ontem, mais de R$ 17 mil que poderão pagar não só pelo presente, mas também pela reforma da casa de barro da família e pelo reforço de alvenaria.

O Brasil aprovou, em 2011, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, considerada um marco na legislação ambiental brasileira, que previa o fim dos lixões no país em 2014. No entanto, mais da metade dos municípios brasileiros ainda utiliza esses locais e aterros irregulares para o descarte dos resíduos sólidos. A meta da erradicação foi prorrogada para 2024.