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29 de janeiro de 2022
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Priscilla Peixoto- Da Cenarium

MANAUS – “Os Lgbts têm o meu coração. Você pode pedir o que for que eles lhe atendem, espero que os grandes empresários abram as portas pra eles também”. A frase é da empreendedora manauara Zulma Diniz, de 25 anos, que repercutiu na internet. O vídeo postado na rede social da floricultura fala da importância do acolhimento e oportunidade do mercado de trabalho para pessoas LGBTQIA+.

Sem esperar repercussão, Zulma compartilha a vontade de futuramente ser referência de empresa que só trabalha com pessoas LGBTQIA+. “Tenho cinco colaboradores que trabalham com muito amor e dedicação, não tempo ruim pra eles. São pessoas amáveis e trabalhamos e nos divertimos ao mesmo tempo”, conta Zulma.

Diniz conta que a sensibilidade sobre a importância do acolhimento e a oportunidade para pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho despertou-se por conta da convivência com os amigos da comunidade. Ela testemunhou situações de preconceito e classificou como “árdua missão” a tarefa de conseguir trabalho digno para garantir o sustento. “Comecei a ter muitos amigos e ver tudo que eles passavam. É muito preconceito, injustiça e me dói demais ver pessoas praticando homofobia”, relata Zulma.

Zulma Diniz defende a contratação de pessoas LGBTQIA+ nas empresas locais (Reprodução/ Instagram)

Dados e falta de oportunidade

Diversas são as lutas enfrentadas pela comunidade LGBTQIA+. Apesar das mídias e grandes corporações pautarem com mais frequência nos últimos anos a importância e as vantagens de um mercado trabalhista mais inclusivo e diverso, ainda é um desafio para aqueles que integram a “comunidade arco-íris” conseguirem se estabelecer no mercado de trabalho.

Um estudo anual sobre diversidade da empresa global em serviços profissionais Accenture apontou, em setembro de 2020, que 55% dos profissionais ouvidos no Brasil e atuantes no mercado LGBTQIA+ acreditavam que deixar claro a sua identidade de gênero ou orientação sexual no trabalho poderia prejudicar a carreira.

Quando se trata de pessoas trans a situação ainda é mais delicada, segundo um levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2020, as formas de preconceitos são sentidas pelas pessoas LGBTQIA+ de forma diferente, as mulheres transgêneros, por exemplo, estão em grande parte na prostituição, cerca de 90% contra apenas 4% que integram uma lista daquelas que possuem emprego formal, seguida de 6% que possuem um emprego informal.

“É difícil, o mercado trabalhista em si é preconceituoso. Já vi vários empresários encararem gays como pessoas falsas, como pessoas fofoqueiras e que trazem discórdia. Eu já penso diferente, eu acho eles tão dispostos, animados e com vontade de vencer”, avalia Zulma.

Repercussão e expansão

Após a postagem do vídeo na rede social Instagram, a empresária disse surpresa com o repercussão das declarações. Em função do vídeo, Zulma conta que recebeu várias críticas em torno da temática abordada de forma tão aberta ao público. “Fui pega de surpresa com a replicação disso, decidi falar porque nunca tinha falado tão abertamente até porque tenho vergonha da exposição”, completa a empresária.

“Fiquei desesperada com tanto preconceito, fui chamada de heterofóbica, que estava só querendo não pagar licença maternidade. Perguntaram se eu pergunto nas entrevistas se meus funcionários são gays, enfim, muita barbaridade”, lamenta Zulma.

A empresária conta que além da floricultura, também trabalha em restaurantes e pretende ampliar o quadro de funcionários e dar mais oportunidade para os que aguardam por uma chance. “Espero em breve poder estar com mais pessoas somando conosco. Não digo que foi sorte a gente se encontrar e formar nossa equipe, digo que eles são presentes de Deus e torço para os colegas que empreendem façam o mesmo”, diz.

Apenas 4% das pessoas trans possuem emprego formal no Brasil, segundo a Antra (Reprodução/ Getty Images)

Gratidão

Para Carlos Eduardo, de 18 anos, um dos funcionários de Zulma há um ano, a oportunidade veio na hora certa e em um momento financeiro complicado para o jovem. “Sou o primeiro funcionário da loja Artes Café e Floricultura, quando eu conheci a Zulma estava desempregado, em um momento difícil e precisando muito trabalhar. Ela não pensou duas vezes em me contratar e nossa, fiquei tão feliz porque hoje em dia a busca por emprego aqui no Brasil é muito grande. Sabemos a dificuldade de ser contratado, ainda mais com todo os tabus que rolam no mundo, homofobia, racismo e entres outros preconceito”, compartilha Carlos.

Carlos atenta para a necessidade das grandes e pequenas instituições descartarem esse mito negativo de que gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans são limitadas a atender os requisitos do mercado. E reforça que o preconceito alimenta uma homofobia estrutural contribuindo para que pessoas como ele tenham dificuldade de acesso, permanência e até mesmo alcancem uma posição de destaque no ambiente de trabalho. 

“Somos todos iguais, somos todos feitos de carne e ossos, e temos que entender que a nossa sexualidade não afeta nada em nosso caráter. É muito triste saber que aqui, no Brasil, a cada 23 horas é registrado uma morte de LGBTQIA+ e fico muito triste em saber disso, mas ao mesmo tempo isso tudo me dá forças pra continuar lutando. Minha convivência no ambiente de trabalho com meus colegas é muito divertida, amo todos eles como se fossem meus irmãos, é um ambiente de trabalho excelente, amo meu trabalho como nunca amei outro, me sinto livre pra ser quem eu sou de verdade”, conta o jovem.