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17 de maio de 2021

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Com informações do O Globo

RIO DE JANEIRO – Amplamente adotado durante a pandemia em países onde o aborto é legalizado, como o Reino Unido e os Estados Unidos, o serviço de interrupção legal da gravidez via telemedicina chegou ao Brasil. A iniciativa é capitaneada pela ginecologista e obstetra Helena Paro, coordenadora do Núcleo de Atenção Integral a Vítimas de Agressão Sexual (Nuavidas) do Hospital das Clínicas de Uberlândia e, desde agosto, já atendeu 15 pacientes na modalidade.

No Brasil, o aborto só é permitido em casos de estupro, risco de vida à gestante e anencefalia fetal. Em tese, o procedimento deveria ser feito em qualquer hospital, mas costuma ficar restrito aos centros especializados, como o Nuavidas, em Minas Gerais.

Em meio a uma crise sanitária sem precedentes que pressionou todo o sistema de saúde brasileiro, a coordenadora do núcleo decidiu criar um protocolo de atendimento via telemedicina para não deixar as mulheres que a procuravam na mão e evitar que o serviço, considerado essencial pela Organização Mundial da Saúde, deixasse de ser oferecido.

A partir da lei que autorizou a telemedicina no país durante a crise sanitária, o protocolo foi desenvolvido pela equipe do Nuavidas em parceria com o setor de Farmácia do hospital e a equipe jurídica do Instituto de Bioética Anis. Proposto em maio, foi autorizado em agosto pelo Conselho de Ética do hospital, quando Paro atendeu a primeira paciente.

“A partir da possibilidade do uso da telemedicina para fazer o atendimento das vítimas de violência sexual, desenhamos esse protocolo para instituir o tratamento a distância do abortamento medicamentoso. A ideia não é inovadora. O aborto por telemedicina é feito na Europa desde 2006. Ao redor do mundo, a pandemia reforçou a segurança e a eficácia desse serviço”, explica a ginecologista.

Por enquanto, o serviço funciona de forma mista e o primeiro atendimento ainda precisa ser feito de forma presencial no Nuavidas. Depois do primeiro encontro, todo o procedimento da interrupção da gestação e o acompanhamento posterior é feito remotamente, via telefonemas, chamadas de vídeo e mensagens de WhatsApp.

“Nos foi permitido avançar aos poucos”, afirma Paro. Ela conta que a ideia da equipe, agora que o protocolo já foi aplicado sem intercorrências ou necessidade de internação para as 15 pacientes, é que o hospital autorize que ele passe a ser feito de forma 100% remota, via telemedicina desde a primeira consulta.

Como funciona

Por enquanto, funciona assim: a paciente que engravidou em decorrência de um estupro busca o Nuavidas e faz o primeiro atendimento presencialmente, onde é acolhida pelas médicas e psicólogas da equipe. Ela conta sua história e recebe todas as orientações sobre o procedimento. Se já tiver realizado uma ultrassonografia, não precisa repetir. Caso contrário, faz o exame no mesmo dia.

Depois da consulta, se mantém o desejo de interromper a gravidez em decorrência da violência sofrida e se estiver no período gestacional permitido para fazer o procedimento via telemedicina (nove semanas), assina os documentos necessários e é encaminhada para casa com a medicação e todas as orientações para o uso.

Ela recebe as instruções verbalmente e depois via Whatsapp, em cards com informações sobre como utilizar o medicamento, o intervalo correto entre as três doses, que sintomas são esperados e quais podem ser preocupantes, a quantidade de sangramento esperada, as formas não farmacológicas de alívio da dor e em que casos ela deve procurar o serviço de saúde.

Em casa, a gestante decide a hora que irá administrar a primeira dose do misoprostol (são três, ao todo) e avisa a equipe médica. Depois de 24h, faz uma consulta por videochamada. Neste intervalo, pode conversar por telefone ou Whatsapp com as médicas a qualquer momento. O acompanhamento continua sendo feito de forma remota e, depois de algumas semanas, ela refaz o teste de gravidez para saber se o procedimento foi concluído com sucesso. Como as pacientes elegíveis para o serviço são vítimas de violência sexual, elas ainda seguem sendo acompanhadas pela equipe do Nuavidas por seis meses.

“Isso tem feito com que haja menos evasão no acompanhamento. Muitas evitavam voltar ao hospital, porque voltar para lá as fazia lembrar da violência que sofreram. Com a telemedicina, elas têm cumprido um acompanhamento mínimo. O retorno que temos é que elas se sentem muito aliviadas, agradecidas. Muitas delas dizem que não fosse a oportunidade de fazer [o procedimento] em casa, não saberiam o que fazer”, disse a médica.

Legal e seguro

Paro explica que o procedimento só pode ser feito via telemedicina até a nona semana da gestação. Isso porque, ainda não há estudos ou evidências científicas suficientes que atestem a  segurança do aborto medicamentoso com misoprostol a distância depois dessa idade gestacional. Em outros países, o aborto medicamentoso é feito com duas drogas: o misoprostol e o mifepristone, este último proibido no Brasil, mesmo para uso hospitalar. “A combinação das duas medicações aumenta a eficácia do procedimento”, explica a ginecologista.

Ela ressalta que, pela limitação temporal, o aborto via telemedicina acaba ficando restrito às vítimas de estupro no Brasil. Os outros casos permitidos por lei — risco à gestante e anencefalia fetal — costumam ser descobertos mais tarde e, por isso, exigem que a interrupção seja feita no hospital.

Como o Nuavidas atende primordialmente as vítimas de violência sexual, Paro conta que, só em 2021, conseguiu evitar 90% das internações de aborto legal porque o procedimento pode ser feito via telemedicina. Assim como no atendimento presencial, a vítima não precisa apresentar um boletim de ocorrência para ter direito de interromper a gravidez decorrente de estupro.

“Algumas das pacientes relataram uma ansiedade para começar o procedimento, tinham medo de tomar o remédio em casa e morrer. É com esse imaginário que a gente trabalha, de que o aborto mata“, conta Paro, ressaltando que o procedimento é seguro. “A medicação é segura. Como não é clandestina, há garantia de que é eficaz e verdadeira. E essa paciente vai para casa com a orientação adequada sobre o uso e tem todo o suporte médico e psicológico de acordo com a sua necessidade”.

Paro agora trabalha na finalização de um projeto de pesquisa para implementar o protocolo de interrupção da gravidez via telemedicina em outros dez serviços de aborto legal espalhados pelo país. A ideia é que o serviço continue sendo oferecido, mesmo após a pandemia.