Sexo sonâmbulo, respiração estreita e apneia combinada com insônia estão entre as novas doenças do sono

Com informações do Infoglobo

SÃO PAULO – As pesquisas clínicas recentes na área da medicina do sono têm encontrado novos padrões de sintomas que vão muito além de identificar que o paciente ronca ou tem insônia. Em um congresso de neurociência que deu espaço ao tema, um grupo de pesquisadores apresentou, nesta semana, quadros que variam de comportamento erótico noturno, uma nova síndrome de estreitamento das vias aéreas e a ocorrência simultânea de insônia crônica com apneia obstrutiva do sono.

Esses três tipos de quadro médico não são propriamente novos, mas ainda não são diagnósticos oficializados pela Classificação Internacional de Doenças. E apesar de não serem condições novas, têm aparecido, cada vez mais, em estudos e comunicações entre cientistas. Alguns desses novos distúrbios do sono já possuem nome e sigla consolidada.

Novos inimigos do sono

Quatro distúrbios que têm chamado a atenção de médicos e cientistas da área:

Sono VRAS — Foto: Ilustração de Renata Amoedo
Sono SRVAS (Ilustração de Renata Amoedo)

SRVAS (Síndrome da Resistência das Vias Aéreas Superiores)

Sono Comisa — Foto: Ilustração de Renata Amoedo
Sono Comisa (Ilustração de Renata Amoedo)

Comisa (Comorbidade de Insônia e Sono com Apneia)

Transtorno de sono agitado — Foto:  Ilustração de Renata Amoedo
Transtorno do Sono Agitado (Ilustração de Renata Amoedo)

Transtorno do Sono Agitado (Restless Sleep Disorder)

Sexônia — Foto:  Ilustração de Renata Amoedo
Sexônia (Ilustração de Renata Amoedo)

Sexônia

A Síndrome da Resistência das Vias Aéreas Superiores (SRVAS), um diagnóstico que começou a ser adotado para enquadrar aqueles pacientes que têm problema respiratório para dormir, mas não possuem um quadro típico de apneia obstrutiva, a condição que bloqueia totalmente a passagem do ar e desperta a pessoa.

Como em geral, ela não provoca danos tão graves quanto a apneia típica. A comunidade ainda debate sobre se a SRVAS é uma condição real, mas, a epidemiologia da doença sugere que ela é um transtorno com um perfil diferente.

“A Síndrome da Resistência das Vias Aéreas Superiores não é como a apneia, em que a pessoa, basicamente, para de respirar durante a noite, em alguns momentos, mas ela provoca uma limitação de fluxo do ar que também acorda a pessoa”, explica o neurorradiologista Sérgio Brasil Tufik, doutorado pela Unifesp e se especializando em Administração pela Universidade Yale.

O pesquisador apresentou dados de pesquisa sobre a SRVAS no congresso “Brain 2022”, em Gramado (RS), dedicado à neurociência e ao comportamento. Essa síndrome tem frequência relativamente baixa no Brasil (3%), mas possui uma distribuição de casos diferente, sendo mais frequente em jovens e mulheres. Esse padrão de ocorrência é, exatamente, o oposto da apneia, que apesar de ter 30% ou mais de prevalência, é mais comum em homens e idosos.

“A literatura sobre a apneia obstrutiva do sono, cada vez mais, mostra que existe em muitos casos uma neuropatia associada, e isso não é algo que a gente vê no paciente de SRVAS”, explica Tufik. — Existe de fato, porém, uma limitação de fluxo respiratório e, provavelmente, é por um motivo anatômico e morfológico.

É possível enxergar essa condição, ele afirma, como uma doença no “espectro” dos outros tipos de apneia, e o caso pode, inclusive, se agravar e passar para a apneia clássica.

Males paralelos

Um outro tipo de quadro que tem ganhado uma visão diferente, dentro da medicina do sono, é a ocorrência simultânea de apneia obstrutiva e insônia crônica nas mesmas pessoas. Essa combinação é descrita, na área, pelo acrônimo Comisa (Comorbidade de Insônia e Sono com Apneia).

Apesar de, isoladamente, essas duas condições serem bem conhecidas, quando acometem ao mesmo tempo uma única pessoa, o tratamento precisa ser mais cuidadoso, para que a solução para um dos males não agrave o outro. A atenção à Comisa se justifica pela sua prevalência.

“Os estudos mostram que de 39% a 58% daqueles com apneia obstrutiva do sono têm também insônia. Do outro lado, de 29% a 67% dos pacientes com insônia têm algum grau de apneia obstrutiva”, afirma Luciano Drager, professor do Departamento de Clínica Médica da USP.

Segundo o médico, tratar a insônia antes da apneia, em geral, é a melhor estratégia, porque facilita o período de adaptação ao CPAP, aparelho usado para tratar a apneia.

Outros transtornos que têm atraído uma atenção particular, na ciência do sono, estão no campo das “parassonias”, que incluem sonambulismo e terror noturno. Muitas crianças que têm sono perturbado, por exemplo, não se enquadram dentro do quadro típico de “Síndrome das Pernas Agitadas”, porque apresentam movimentação de todo o corpo durante a noite e o transtorno parece ter origem diferente, como deficiência de ferro.

Segundo Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono da Unifesp, o diagnóstico adequado da condição requer uma videopolissonografia (monitoramento com filmagem), e o tratamento é diferente, podendo envolver suplementação de ferro.

Sexônia

Outra parassonia, apesar de mais rara, tem atraído atenção dos pesquisadores da área, porque tem o potencial de deixar os pacientes muito perturbados. A “sexônia”, que consiste em masturbação ou comportamento sexual, durante o sono profundo, frequentemente resulta em ferimentos nos portadores ou em seus parceiros de cama, explica Monica Levy Andersen, professora da Unifesp que palestrou sobre o tema no congresso.

Segundo Drager, da USP, a descrição de novas doenças, na medicina do sono, pode ajudar a direcionar pesquisa e tratamento, mas tem que ser criteriosa.

“É preciso mostrar que esse conhecimento é novo e que ele tem relevância. Não adianta ficar criando doenças se elas não têm impacto”, diz o médico.

“Eu não falo para meus pacientes “você tem Comisa”, jargão nosso científico. A gente precisa mesmo combater essa criação de novas doenças. Mas tem que explicar para o paciente, nesse caso, que ele tem uma associação de doenças, usando termos adequados. A linguagem para o público tem que ser muito clara”, explica.

Se a descrição de mais tipos de distúrbios do sono pode confundir o público e os médicos generalistas, por outro lado, uma descrição mais detalhada do problema que cada paciente enfrenta permite ajustar melhor seu tratamento. Para os médicos, essa movimentação nas pesquisas da área faz parte da promessa geral da “medicina personalizada”, que nem sempre consegue se materializar.

“Se o indivíduo tem o problema, ele tem que saber que é vítima da doença”, diz Levy Andersen.

Segundo a pesquisadora, quando o mal é bem diagnosticado o médico tem condição melhor de tratar o paciente, seja com drogas específicas, que precisam ser administradas com cautela, ou com psicoterapia.

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