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29 de janeiro de 2022
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Com informações do jornal O Globo

Ney Matogrosso estava achando a vida muito chata na quarentena. Quando percebeu que a pandemia não ia arrefecer a tempo de festejar seus 80 anos, em 1º de agosto, resolveu que não ficaria sem presente. Decidiu fazer um disco. O primeiro sem pensar no palco, paixão que sempre guiou seus projetos. Conduzido apenas pelo prazer de cantar as músicas que deseja.

É com esse espírito que o artista grava o álbum “Nu com a minha música”, título de composição de Caetano Veloso (“que me traz a memória de um tempo bom, em que a gente caía na estrada e passava um mês fazendo shows pelo interior”). A canção será lançada no dia do aniversário, junto com “Gita” (Raul Seixas), “Unicórnio” (Silvio Rodriguez) e “Se não for amor, eu cegue” (Lenine e Lula Queiroga). “Sua estupidez” (Roberto Carlos), “Faz um carnaval comigo” (Pedro Luís), “Boca” (Felipe Rocha) e “Estranha toada” (Martins) e “Noturno” (Vitor Ramil) são outras das 12 faixas do disco, previsto para novembro.

Em meio ao trabalho, a fama de perfeccionista de Ney se materializa no estúdio. Ele pede para regravar cada trecho em que identifica uma dicção confusa. Implica com a levada funk de um arranjo e muda tudo depois que passar a noite sem dormir com aquilo martelando na cabeça. Na verdade, o artista anda tendo dificuldades para pegar no sono. Tem recorrido a mantras para relaxar.

Além do álbum, vem aí: “Ney Matogrosso – A biografia” (Companhia das Letras). Ney conta que leu o livro, mas que o autor, o jornalista Julio Maria, mudou tudo depois disso. Diz não temer nenhum assunto, mas afirma ter dado um aviso ao autor:

— Disse a ele: “Não posso te proibir, existe uma lei, mas tome cuidado com as informações, não quero mentiras a meu respeito”. Se for verdade, tá limpo. Na primeira biografia que fizeram (“Ney Matogrosso, um cara meio estranho”, de Denise Pires Vaz), pessoas falaram cada absurdo… Loucuras! — lembra Ney.

Na entrevista abaixo, o artista apresenta suas verdades. Em duas horas de conversa em seu apartamento, no Leblon, contou que o desejo permanece à flor da pele aos 79 anos e que o distanciamento social o deixou “subindo pelas paredes”. Também revelou que tinha trauma de seu corpo, curado ao ficar nu diante de recrutas no serviço militar, e lembrou viagens de ácido. Ney ainda afirmou não se arrepender de ter votado voto nulo no 2º turno das últimas eleições e definiu Bolsonaro como “um louco”.

De que maneira o novo disco dialoga com o momento atual? Achei a música “Boca” sexy. Fala de beijo, algo de que a gente ficou bastante privado durante a pandemia…

Na verdade, o princípio dele é romântico. Achei que seria como dar um abraço em alguém. Mas é um disco ousado, tem várias músicas que tocam nesse ponto…

Tem sentido falta do contato com o público, porque você tem essa coisa de ir para a beira do palco e deixar as pessoas pegarem em você…

Sim, de dar mole, de deixar botar a mão em mim. Eu gosto disso.

Como está usando sua energia sexual?  

Não estou usando, né? Quer dizer, está voltada para o trabalho. Porque não sei o que é encostar num corpo humano faz tempo. Tem horas que fico enlouquecido com isso. Fico “sai da minha cabeça, sai da minha cabeça” (risos). Sinto falta de um corpo encostando no meu. Não tem como, né? Não sou louco. Conheço muita gente que não respeita (a quarentena). Eu não tenho coragem.

Então, o desejo permanece forte em você aos 79 anos…

Permanece. Na verdade, acho que esse é o normal. É que as pessoas botaram na cabeça que, com essa idade, não pode. Pode, sim! Tem muita gente com 70 anos com a vida sexual ativa. Eu tive a minha ativa até a entrada dessa pandemia. Agora, fico aqui, subindo pelas paredes.

Tem gente apresentando teste negativo de Covid nos aplicativos de relacionamento…

Ah, não entro nesses lugares, nunca entrei. Um amigo me mostrou o Grindr e falei: “Mas é esse açougue?”. Não quero, não me interessa. Não é caretice, não preciso estar casado, mas preciso de um clima, sabe? Ali não tem nenhum. Já saem perguntando tamanho de pau. Que coisa caída!

Lá nos anos 1970, eu também não tinha nenhum pudor com relação a isso. A primeira pessoa que encostasse perto de mim, que me desse tesão, eu ia. Na praia, na rua… Mas tinha um olho, um pé que encostava, sabe?  Não era “comprar” assim…

É louco pensar em você no serviço militar. Como lidava com aquela dureza corporal?

Servi na Aeronáutica porque foi o pretexto para sair de casa. Eu era muito problemático com o meu corpo na adolescência. Achava meu pé feio, minha mão, minha perna… Não tirava minha camisa na frente de ninguém. Fui para o quartel com 17 anos e caí dentro de um batalhão da polícia com 40 recrutas como eu, onde todo mundo tinha que ficar nu na frente do outro. Pensei: “Se eu não ficar, vão pegar no meu pé”. Fiquei, e eles não viram o monstro que eu via em mim.

Ali, tive o primeiro interesse por um garoto. A gente se beijava, mas nunca tivemos coragem de trepar. O máximo que fazíamos era juntar as beliches para dormir com o braço encostado. Foi meu primeiro amor. Ali, comecei a quebrar essa história que eu trazia, mas não esperava que chegaria a tanto, em termos de sexualidade exposta.

Como vai o Ney internamente perto de completar 80 anos?

Não tenho isso. Só tive quando fiz 60 anos. Fui chegando perto e ficando inquieto. Pensava: “Meu Deus, vou fazer 60 anos, não poderei mais usar minhas calças apertadas”. Aí, fiz e nada mudou. Estou aqui até hoje com as calças apertadas. Uso roupa justa porque sou muito magro e ela me deixa mais esticado. Se botar roupa larga, fico igual a um peãozinho. O primeiro namorado que pintou na parada era maluco, tinha ciúme das calças justas que eu vestia. Isso em 1970…

E você cedeu?

Na primeira vez, tirei. Na segunda, disse: “Pode parar com isso”. Imagina, trocar calça por causa de barbado? (risos).

E como você mantém esse corpo? Quando pesa? É o mesmo peso de sempre?

Faço ginástica todo dia, com peso, alongamento. Peso 61kg e tenho 1,70 de altura. No Secos & Molhados eu pesava 53kg. Tinha musculatura sem fazer ginástica, que eu achava coisa de americano. Dançava, andava muito na praia. Morava na Carlos Góis (no Leblon) e ia até o Posto 9 na areia mole. Comecei a malhar com 50 anos. Mas não para ficar fortão, mas para manter o tônus muscular.

Confira a entrevista completa no O Globo.