26 de outubro de 2020

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Náferson Cruz – Da Revista Cenarium

MANAUS – Trinta e nove anos depois do naufrágio do navio Sobral Santos 2, no município de Óbidos, oeste do Pará, a REVISTA CENARIUM traz ao leitor, o relato comovente e impressionante de quem sobreviveu e testemunhou aquele que foi o maior desastre fluvial nos rios da Amazônia, ocorrido na madrugada do dia 19 de setembro de 1981.

Ao menos 340 passageiros perderam suas vidas. A embarcação havia saído de Santarém (PA) com destino a Manaus, conduzindo 530 passageiros e 200 toneladas de carga pelo rio Amazonas, entretanto, nunca se soube com precisão o que se passou naquela dramática madrugada. O que os relatos dizem é que se ouviram gritos e pedidos de socorro, que não puderam ser transmitidos em razão da rapidez do naufrágio.

Pouco tempo passou para que a carga presa na extremidade oposta se desprendesse dos seus compartimentos e rolasse na direção da multidão. (Arquivo pessoal/pessoal)

Em menos de dez minutos, toneladas de estrutura e, principalmente, milhares de sonhos, foram a pique, restando a dor, o silêncio e as lembranças daquela que continua sendo a mais angustiante das noites de que testemunhou e viveu o desastre. Ao menos é assim para um dos sobreviventes do naufrágio, o professor e comerciante Raimundo Nonato de Souza, 71 anos, o “Rai”, que atualmente reside no município de Parintins, a 390 quilômetros de Manaus.

Ele conta que chegou à Santarém na tarde do dia 18 de setembro, vindo da capital paraense em uma aeronave. Assim que deixou o aeroporto local, foi direto à zona portuária, onde estava ancorado o Sobral Santos 2. A embarcação fazia a linha regular semanal entre Manaus e Santarém, no Pará, mas antes tinha várias escalas, entre elas, o município de Óbidos.
Rai queria chegar à cidade de Parintins, onde a mulher o esperava com o casal de filhos, Lucas, de apenas três anos, e Gina Gracie de Souza, de quatro anos.

O professor lembra que chegou à embarcação com apenas uma mala e uma boia de criança, que presentearia o filho Lucas, pela passagem do seu aniversário, dias antes. O que ele não sabia era que aquela boia seria primordial para a sua sobrevivência, horas mais tarde.

Após pagar pela passagem no valor de Cr$ 70 mil cruzeiros (moedas da época) e atar à rede no compartimento inferior do barco, próximo a sala de máquinas, Rai chegou a ser questionado por Taufic Mourão, um dos donos da embarcação. “Ele me perguntou se eu não queria ficar no camarote, porque no local onde tinha atado minha rede seriam postas mais mercadorias. Mas disse a ele que não e que preferia ficar ali. Até porque não tinha mais dinheiro”.

Pouco tempo passou para que a carga presa na extremidade oposta se desprendesse dos seus compartimentos e rolasse na direção da multidão. (Arquivo pessoal/Reprodução)

A teimosia de Rai, em permanecer naquele espaço, também seria fundamental para a salvação dele. Por volta das 19h, o Sobral Santos 2 partiu de Santarém com 530 passageiros e excesso de carga. Além dos 430 passageiros em sua listagem, transportava mais cem pessoas de outros dois barcos de pequeno porte – ‘Miranda Dias’ e o ‘Emerson’ -, em pane no porto de Santarém, além de cem toneladas de carga, a maioria composta por sacos de farinha, cereais e seis engradados de cerveja e refrigerantes vazios.

Após nove horas de viagem, o Sobral Santos 2 atracou no porto de Óbidos. Eram 3h30 e a maioria dos passageiros dormia nos camarotes ou nas redes atadas sobre a carga que se espalhava desde o porão até o convés do barco.

Passageiros temiam o pior

Segundos depoimentos sobreviventes, que preferiram não se expor, a embarcação navegava com excesso de peso e apresentava infiltração desde a partida de Santarém. O comandante do barco, Davi Ferreira, chegou a ser advertido do perigo. Mas de acordo com relatos, ele teria respondido que não tinha nada a ver com passageiros e que o negócio da embarcação era carga, quanto mais, maior seria o lucro.

O anúncio da tragédia

Na hora do desembarque, uma das cordas de náilon que prendiam o barco ao deque arrebentou. Foi quando uma pessoa gritou que o barco estava inclinando. O alarde causou um rebuliço, seguido de pânico. Segundo Rai, centenas de pessoa ficaram alarmadas e temerosas, correram em direção à saída, desestabilizando o peso do barco.

Pouco tempo passou para que a carga presa na extremidade oposta se desprendesse dos seus compartimentos e rolasse na direção da multidão.

“Muita gente acordou em pânico e correu para a lateral do barco, o que apressou o inclinamento, indo o Sobral Santos a pique em menos de dez minutos. Havia pessoas correndo, pulando no rio e outros para o porto de Óbidos”, relatou o professor Rai. “Eu não tinha forças para mais nada”

“O silêncio dos passageiros que dormiam numa noite, que até então estava serena, deu lugar a gritos e aflição”. Foi assim que o sobrevivente Raimundo Nonato, começou a descrever os piores momentos do naufrágio. “Foi duro, tive muita força para sobreviver”.

Ele lembra como se fosse hoje que tentou subir para o compartimento superior do barco, mas uma caixa de mantimento caiu sobre a sua perna, deixando-o ainda mais aflito e com dificuldades para se locomover.
“Com o inclinamento, muita carga caiu sobre os passageiros. Muitos deles jogaram-se no rio, enquanto outros procuravam se proteger dentro dos camarotes, sem saber que lá ficariam presos, sem possibilidade de salvamento”, revela.

Raimundo conta que voltou ao local onde havia atado sua rede e pegou a boia que daria de presente ao filho e se apoiou sobre amurada do barco, no momento que acontecia o inclinamento. Ele lembra que testemunhou pessoas sendo ‘tragadas’ pelas águas para a sala de máquinas (porão) da embarcação.

“As luzes se apagaram, esbarramos uns nos outros, desorientados, no meio de profunda escuridão. Enquanto isso, a água invadia o barco. Antes de pular no rio, vi uma luz distante, que parecia ser de um poste, que serviu de referência para que eu pudesse me salvar”, disse.

Segundo ele, tudo aconteceu tão rápido que não deu tempo nem de verificar se havia coletes salva-vidas ou de ajudar quem precisava. “Eu não tinha forças para mais nada. Eu estava ofegante e angustiado. Se alguém tocasse em mim, eu teria me desesperado e poderia morrer de tanto medo. Após nadar, cheguei a um barranco e ao olhar para trás não vi mais ninguém”.

Lucas à esquerda, é filho de Seu Raimundo, o “Rai”, que acaricia o rosto do rapaz (Arquivo pessoal/Reprodução)

Após subir o barranco, Rai avistou a luz do poste, em frente a uma casa, de onde ligou para a mulher, relatando o ocorrido. O pânico foi geral na cidade de Óbidos, a população foi ao cais para receber seus familiares, entretanto, se depararam com a tragédia. No meio da multidão estava Maria Rocha, 59, anos. Ela conta que foi ao trapiche esperar a irmã, que sobreviveu ao se agarrar a um corrimão da estrutura portuária.

“Graça a Deus ela se salvou. Jamais vou esquecer aquele episódio. O primeiro corpo resgatado foi de uma mulher grávida de sete meses. Também vi muitas crianças e idosos. Os regates duraram quase uma semana”, revela Maria.

Dos 530 passageiros, apenas 178 foram relacionados por um oficial da Marinha com sobreviventes, dos quais 53 ainda ficaram hospitalizados na Santa Casa de Misericórdia de Óbidos.

O ‘velho gaiola’ como era popularmente conhecido o Sobral Santos 2 pertencia a empresa Onze de Maio Navegação (Onzenave), de Manaus, dos irmãos Calil e Taufic Miguel Mourão, que estava na embarcação naquele dia, também sobreviveu. Na época, ele culpou os passageiros pelo naufrágio, dizendo que após a corda ter arrebentado, todos correram sem necessidade para um lado do navio.

Segundo ele, não havia excesso de passageiros e de carga. Registro da Capitania dos Portos do Amazonas da época, mostra que a licença do Sobral Santos 2 era para 500 passageiros e 200 toneladas de carga.

Após içado, barco voltou à ativa como ‘Cisne Branco’, após três meses submerso nas águas do rio Amazonas, o Sobral Santos 2 foi içado e, dois anos depois, voltou a navegar pelos rios com o nome de Cisne Branco.

Em memória das vidas perdidas no naufrágio do Sobral Santos 2

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