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18 de maio de 2021

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RIO DE JANEIRO – De um tablado, de cerca de 50 centímetros de altura, um menino de 8 anos deu um salto até atingir em cheio um colega, da mesma idade, que aguardava para comprar o lanche na cantina da escola. A criança atingida foi direto ao chão. Não foi um acidente. Pouco depois, o mesmo garoto ainda daria uns cascudos no “coleguinha”.

Era uma manhã de 1986, no colégio particular Ferreira Alves, frequentado por crianças de famílias com mais recursos de Bangu. A hostilidade diária durou três anos. Passados 35 anos, a vítima predileta do aluno chamado, às escondidas, de “Esquisito”, ainda tem medo de se revelar. Mas contou ao GLOBO que o seu perseguidor acabou sendo suspeito de um assassinato: o médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho.

“Ele cismou comigo do dia para a noite. Eram bandas (chute em que se derruba a pessoa) e muito cascudos durante o tempo que passei na escola”, lembra ele, que se tornou um desafeto sem nunca ter entendido o motivo. “Eu tinha muito medo. Ele me batia com raiva. Em seguida, via no rosto dele uma sensação de prazer”, disse.

Dr. Jairinho, o “Esquisito” na escola e o “Príncipe” na Câmara de Vereadores do Rio pelos ternos e cabelo sempre impecáveis, responde pelo assassinato de Henry Borel, de 4 anos, na madrugada do dia 8 de março. A polícia suspeita que o enteado do político, que sofreu 23 lesões no corpo, tenha sido espancado.

Após um mês de investigação, a polícia concluiu que o vereador agredia o enteado, e que a mãe da criança sabia disso Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Após um mês de investigação, a polícia concluiu que o vereador agredia o enteado, e que a mãe da criança sabia disso Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Bullying na escola

Quando seu tamanho condizia com o apelido que carrega até hoje, Jairinho era visto quase sempre sozinho, olhando para o nada no pátio do colégio. O antigo colega não era da mesma turma, mas da 2ª à 4ª série estudou na sala ao lado. Bem franzino e menor que os outros meninos de sua idade, recorda-se de que a hora do recreio virou uma tortura e, mal começava, Jarinho já ia para a janela da sala observá-lo. Bochechudo e de cabelos cacheados, ele não lhe dava chance de defesa.

“A hora do recreio era uma tortura. Ele não mexia com os meninos maiores. Passei a não descer mais. Ficava na sala e só saía junto com o professor”, diz, explicando que não denunciou nada para os pais e tampouco a escola interferia por acreditar que era “coisa de criança”. “Sofria bullying calado. E, como fazia ginástica olímpica, só vivia com manchas roxas mesmo”.

Jairinho trocou o Ferreira Alves pelo Colégio Pentágono, também tradicional, em Vila Valqueire, na Zona Norte. Repetiu logo no primeiro ano do ensino médio, se recuperou e seguiu adiante. Um ex-aluno do Pentágono, que também foi contemporâneo dele, não presenciou situações violentas, mas, por conviver perto da família, percebeu que ele era muito mimado e ganhava tudo que queria do pai.

Um garoto do subúrbio sempre a bordo dos melhores carros e que exibia os mais potentes aparelhos de som, um objeto de desejo na época. Aos poucos, ele foi notando em Jairinho qualidades que foram se aperfeiçoando com o tempo e lhe garantiram uma carreira meteórica no parlamento. Ao todo, já são cinco mandatos. Persuasivo e articulado, ele tem a política na veia. É filho do ex-deputado Coronel Jairo, oficial reformado da PM. O militar chegou a ter seu nome investigado na CPI das Milícias, mas nada se provou contra ele.

Em 2018, o patriarca de Bangu chegou a ser preso na Operação Furna da Onça, que apurou um esquema de propinas na Alerj. Criado sob disciplina militar, Jairinho encontrou em braços conservadores seus eleitores mais fiéis. E também entre evangélicos. Um detalhe que saltou aos olhos quando foi preso, sem o paletó da rotina legislativa, é que Jairinho escolheu o braço esquerdo, do lado do coração, para “fechar o braço” com imagens que remetem à religiosidade. O tatuador diz que ele não é de falar muito ou dar explicações. “Fez uma cruz vazada com rosas e uma estátua de Cristo”, disse o tatuador.

Mentiras para se valorizar

O mesmo colega que pressentiu o dom do convencimento em Jairinho no ensino médio também o acompanhou na Unigranrio, onde ingressou no curso de Medicina em 1998. Mas nunca exerceu a profissão. Ele chegou a admitir à polícia que não fez massagem cardíaca no enteado porque só fizera a manobra na faculdade. Naquela época, de acordo com o amigo, surgiria um Jairinho mitômano, principalmente no que se referia a contar vantagens sobre conquistas amorosas. Adulto, o “Príncipe” passou a alisar o cabelo e aumentava as conquistas. Quando descoberto, ria, como se tudo fosse brincadeira.

“Como convivi com ele muitos anos, sabia que era mentira. Quando se tocava, dizia: “Viu que eu menti para cacete, né? E ria. Era um mentiroso contumaz. Ele iludia e falava de uma forma que até ele devia acreditar”, conta o colega, que se formou médico e se pergunta se não viu surgirem ali os primeiros sinais de transtorno de personalidade.

Jairinho se formou em 2004. Poucos sabem, mas uma namorada de Jairinho, que sempre manteve relacionamentos paralelos, engravidou do primeiro filho dele antes da formatura. Jairinho tem ainda outros dois do casamento com a dentista Ana Carolina Netto.

Psicólogo aposentado da Polícia Civil, onde atuou 31 anos em homicídios, Gilvan Ferreira, que já interrogou centenas de vítimas e criminosos, vê na trajetória de Jairinho um processo de “coisificação”. “As pessoas mudam de status para coisas e podem ser vistas como obstáculos. São criminosos com um sentimento de angústia do qual se aliviam cometendo crimes”, disse o psicólogo.

A defesa de Jairinho não quis se pronunciar.