Tem coisas que são ruins por natureza. E tem coisas que são piores ainda pela origem

Marcelo Amil

Numa reunião do Conselho Superior da Defensoria Pública da União, órgão que dentre outras coisas normatiza os procedimentos administrativos da DPU, o defensor Jovino Bento Júnior protagonizou esta que em minha humilde visão é das maiores feridas feitas naquele conselho. Abro aspas para o defensor.


“Nem Hitler fez com Jesse Owens, na Alemanha, o que o governo da Austrália está tentando fazer com Djokovic. E é exatamente isso. Jesse Owens foi aquele negro que ganhou quatro medalhas olímpicas nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, né, tudo sendo assistindo por Hitler. E Hitler não o impediu de competir, de entrar no país, como começa a se ver hoje nos países”.


A reunião onde o defensor disse essa imbecilidade tinha como pauta discutir a adoção de passaporte vacinal nas dependências físicas da DPU. Citar Djokovic, por si, já seria – como dizemos lá na raiz onde cresci – “escroto”. Mas comparar uma doença à cor de um atleta e elogiar a postura de Hitler é abominável, abjeto, inadmissível. A fala sozinha já seria asquerosa o suficiente, mas ela se reveste de uma dor extra tendo sida proferida por um defensor público.


Longe de mim generalizar. A defensoria não merece isso. Conheço defensores públicos. Conheço e respeito a atuação da defensoria pública, admiro e sei o quanto ela é imprescindível. Por isso a dor. A Defensoria é quem atende os pobres. É quem atende quem está se vendo sob a espada do Estado ou sob a nuvem negra da injustiça. Não: Jovino não fala pelo que é a maioria dos defensores, pelo espírito que eu sei que ali vigora. Mas que entre estes profissionais há, no topo da carreira, alguém que acha que uma doença altamente transmissível e com grande poder de letalidade é mais ou menos a mesma coisa que ser um preto, deixa triste. A mensagem é abjeta. Ter sido dita onde foi a torna bem pior.


Felizmente ele, que defendeu a não exigência de passaporte vacinal, foi derrotado. A defensoria, mais uma vez, fez a coisa certa. Felizmente ele foi duramente confrontado pelos demais conselheiros. Felizmente esse sujeito é minoria. Infelizmente, vemos que gente assim tem em todo lugar.

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