‘Todos os dias, sofro com o fantasma de levar o vírus para minha casa’, diz enfermeira de Manaus

Há 14 anos trabalhando no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Manaus, no Amazonas, a técnica de enfermagem Antônia Costa enfrenta um dos maiores desafios de sua vida: conviver com o risco diário de contaminar familiares com o novo Coronavírus, vírus causador da Covid-19, com cura ainda desconhecida.

A reportagem acompanhou a rotina de Antônia Costa e de outros socorristas da capital amazonense, no atendimento a pacientes suspeitos de Covid-19. A cada dez chamadas por dia ao Samu de Manaus, pelo menos seis são para atender pacientes com suspeita de Covid-19.  

Grande parte dos acionamentos recebidos pelo Samu são para pacientes com suspeita de Covid-19 – Foto: Ricardo Moraes

O novo vírus – que causa pneumonia e não responde a tratamento com antibióticos – registrou a maior curva de ascendência na capital, nas últimas duas semanas. De 1º a 10 de abril, 50 morreram com Covid-19. Hoje, 15, o Amazonas soma 91 mortes e 1.584 pacientes testaram positivo para a doença. O Estado é o terceiro em maior proporção de pacientes infectados. São quase 28 casos para cada 100 mil habitantes.

No Samu de Manaus, pelo menos 30% dos profissionais foram afastados do cargo por contaminação da doença, no mês passado, segundo dados do Serviço Móvel de Urgência. Mas o problema não reside só dentro das bases socorristas. É que a maioria dos profissionais precisa dar plantões nos hospitais para completar a renda, lamenta Antônia.

Amigos em risco

“Toda semana, vejo um colega sendo afastado por testar positivo para doença e a maioria não contraiu aqui, foi nos hospitais onde fazem plantão. Tive um amigo que foi entubado há dois dias, fiquei desesperada por ele, e preocupada por mim. Pensei: meu Deus, poderia ser eu”, disse.

A médica Simone Damasceno afirmou que o procedimento de descontaminação de roupas e equipamentos é complexo, metódico, mas necessário. “Adotamos o procedimento de manter pessoas específicas para a lavagem das ambulâncias a cada atendimento de suspeita de Covid-19. Também, trocamos todos os equipamentos a cada atendimento de chamada”, explicou.

Cuidados e proteção são intensificados – Foto: Ricardo Moraes

Apesar das precauções adotadas no trabalho, a médica disse que precisou se afastar do filho de quatro anos, com medo de um risco de contaminação. “Eu pedi que ele ficasse na casa de familiares, faz cerca de dez dias que não o vejo, não o abraço. A gente sofre com essa distância, mas nunca pensei em abandonar minha profissão.”

Perto do vírus

No atendimento a uma idosa de 60 anos, na zona Oeste de Manaus, os socorristas precisaram descer até palafitas para retirar a senhora de maca do local.

Socorristas realizam atendimento em áreas de difícil acesso – Foto: Ricardo Moraes

Um dos filhos estava desesperado com a condição da mãe, não usava máscara e passava a situação da idosa aos profissionais do Samu a menos de um metro de distância.

“Ela ficou perto de vizinhos que testaram positivo para o Coranavírus e uma semana depois, apareceu febre e falta de ar”, explicou. “A gente fica receoso com essa situação mesmo com toda a nossa proteção, mas recebemos treinamento para isso”, explicou o motorista e socorrista Júlio Rodrigues, que tem 28 anos de profissão.

No local onde a idosa vive, os moradores ignoravam o decreto estadual de isolamento social e restrições comerciais, com venda de bebidas e alimentos nas calçadas. Muitos foram alertados pelos socorristas a ficarem em casa, mas ignoraram.

“Vocês pensam que é brincadeira essa doença. Essa doença existe e está matando muita gente. Se vocês podem e têm condição, fiquem em casa, façam isso por vocês, vocês não sabem da consequência”, advertiu Rodrigues.

Desespero ao volante

No retorno para a base do Samu, Júlio recebeu uma nova chamada. Um homem sofreu um acidente de trânsito, após passar mal por suspeita de Covid-19 e perder a direção do carro. “Isso nunca tinha acontecido por aqui”, disse o motorista.

No local, o homem, com aparência de 30 anos, aparentava palidez e cansaço. Falou que esteve com pessoas contaminadas, passou mal, com febre e falta de ar, e estava a caminho do hospital, quando colidiu o carro em um ônibus. Depois dos primeiros socorros, ele foi levado ao hospital.

Homem sofre acidente de trânsito após passar mal por suspeita de Covid-19 – Foto: Ricardo Moraes

Para os socorristas, o medo não pode ser maior que a missão que abraçaram.A cada atendimento de chamada e chegada a um hospital, o retorno de volta para casa fica sempre a dúvida.

“Será que passei para alguém (o Coronavírus)? Será que sou um hospedeiro. Eu chego em casa e passo direto para o banho. Nunca mais abracei minha mulher e nem meus dois filhos. Vivo isolado, mas não penso em abandonar o trabalho. É a minha missão”, disse Rodrigues.

Hospital de campanha

Com o risco de falta de leitos em Manaus, o novo hospital de campanha montado pela Prefeitura de Manaus no Lago Azul, na Zona Norte, recebeu os primeiros pacientes de Covid-19, ontem, 14.

Eles foram encaminhados para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) 1, que entrou em funcionamento na noite de domingo com 18 leitos instalados, para atender pacientes atendidos pelo Samu.

“Nos próximos dias, o Hospital de Campanha Municipal estará operando na sua totalidade e será muito útil neste momento que vivenciamos o colapso do sistema de saúde por conta da Covid-19”, completou o prefeito Arthur Virgílio Neto.

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