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20 de novembro de 2021
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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Eu vou sempre me envolver em causa LGBTQIA+, a violência não vai me parar”, afirmou a transexual Juma Manauara, em relato exclusivo à REVISTA CENARIUM nesta terça feira, 2, que foi violentamente agredida na semana passada nas ruas de Campinas, interior de São Paulo.

De acordo com a manauara que mora em São Paulo há pouco mais de um ano, o episódio transfóbico aconteceu após ela e um amigo saírem do expediente de trabalho, para aproveitar um happy hour.

“Paramos em um bar para tomarmos uma cerveja como de costume e quando estávamos voltando para o terminal de Campinas, quatro homens começaram a fazer piadas e nos chamar de viadinhos e gayzinhos. Nos expulsaram e impediram que entrássemos no terminal”, explicou Juma.

Dados da violência

O Brasil é o país que mais mata trans no mundo de acordo com uma pesquisa realizada em pela Associação Nacional de Travesti e Transexuais (Antra) em 2019, apenas no primeiro semestre de 2020, 89 transgêneros foram assassinados no Brasil, o que significou um aumento de 39% se comparado ao mesmo período de 2019.

O ano de 2020 teve o  total de 175 travestis e mulheres transexuais assassinadas resultando em um  índice de 41% a mais que o ano de 2019, fazendo do ano passado, um ano marcado pelo sangue de vítimas da comunidade trans.

Juma foi vítima de transfobia enquanto ia para casa após um dia trabalho (Reprodução/Instagram)

A violência sofrida por Juma, tão próximo ao mês mês de março, que dentre tantas datas importantes, é marcado pelo Dia Nacional do Orgulho Gay e o Dia Internacional da Visibilidade Trans, mostra que apesar de tantas lutas e buscas pela igualdade, acolhimento e respeito, os  casos graves de transfobia e homofobia se perpetuam em um país estruturalmente machista e conservador.

Descaso e transfobia

Após ser espancada com uma barra de ferro e ficar desacordada, a trans foi socorrida com fortes sangramentos e conta que, mesmo sendo vítima de agressores homofóbicos, sentiu na pele o descaso de quem presenciou a cena de ataque.

“O mais triste é meu amigo André contar que após o meu desmaio ele ficou em desespero tentando emprestar ao menos um celular de alguém, para chamar a ambulância, pois o meu aparelho foi quebrado com as agressões, e ninguém, absolutamente ninguém se dispôs a ajudar”, lamentou Juma.

“Nem mesmo o Corpo de Bombeiros que ficava próximo ao fato não se prestou a ajudar e muito tempo depois uma moça se compadeceu da situação nos ajudou”, detalhou Manauara.

Trajetória e causas sociais

Juma Manauara é artista e desde pequena já demonstrava talentos para várias vertentes das artes. Nascida em Manaus, partiu em 2019 para Campinas, para viver em busca de acolhimento e dos próprios sonhos.

“Sou artista, sou compositora e cantora, participei de vários concursos e ganhei alguns. Sai de casa em busca dos meus objetivos, em busca de espaço e por não aceitar mais a homofobia que eu sofria  por pessoas próximas e pelos meus familiares”, revela Juma.

Ela explica que o nome social, Juma Manauara, foi escolhido por conta de ancestralidade e do contato com a tribo Juma quando criança. Ela afirma que o nome Manauara simboliza o orgulho de sua origem amazônida.

Segundo a vítima, as agressões foram feitas com uma barra de ferro (Reprodução/Instagram)

Atualmente Juma trabalha em uma Rede de Apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade social, onde cuida especificamente de idosos que tiveram uma história de vida marcada pela violência, ou que passaram pelo manicômio e receberam tratamento de choque.

Envolvimento

O objetivo é reintegrar essas pessoas à sociedade ou ao menos garantir que elas tenham uma passagem de vida digna. Além da arte, ela sempre procura se envolver em causas sociais e temáticas LGBTQIA+ onde alega ser o momento que se descobre enquanto pessoa e enquanto trans em constante desconstrução e reconstrução.

Após registrar boletim de ocorrência e abalada com a violência sofrida, Juma postou nas redes sociais um desabafo comovente, em que afirma que as mortes de pessoas trans viram piadas em um país como o Brasil e questiona.

“Provavelmente não serei a última, estou sozinha? Vou conseguir viver? Seguir em frente? São questionamentos que tenho feito desde que acordei do espancamento”, escreveu Juma.

Desabafo de Juma nas redes sociais (Reprodução/Instagram)