Participe do nosso grupo no Whatsapp Participe do nosso grupo no Telegram
6 de maio de 2021

Dólar

Euro

Manaus
23oC  29oC
Acompanhe nossas redes sociais

Com informações do O Globo

SÃO PAULO – Foi num ato de desespero que a enfermeira Lidiane Melo, de 37 anos, teve a ideia de um apetrecho simples, improvisado e com enorme potencial de confortar pacientes em estado grave com Covid-19. Em abril do ano passado, quando o vírus ainda era quase um desconhecido e os profissionais de saúde patinavam para tratar os doentes, ela dava plantão na enfermaria do Hospital Municipal Evandro Freire, na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio de Janeiro, cercada de 30 enfermos e poucos funcionários. Uma das pacientes estava bastante agitada e os médicos não conseguiam sedá-la para intubar.

“Era muita gente para atender, não tinha como dar atenção só a ela. Pedia que se acalmasse, mas nada resolvia. Então pedi direção a Deus, que me desse entendimento para eu pensar em algo melhor para fazer. E me veio essa ideia à cabeça”, lembrou Lidiane Melo.

A paciente agitada estava com as mãos tão frias que era difícil identificar sua saturação, medida pelo oxímetro, colocado no dedo indicador. A enfermeira pegou duas luvas cirúrgicas, amarrou uma na outra pelas pontas dos dedos, e as encheu de água morna. Fechou os pulsos e entrelaçou a gambiarra numa das mãos da paciente, uma forma de simular o contato humano. Nem cinco minutos depois, estava mais calma. Foi, assim, possível medir a saturação. Quando acordou, a paciente relatou que parecia ter alguém segurando a mão dela.

Batizada pela enfermeira de técnica “Mão de Deus”, a iniciativa é uma de tantas que vêm surgindo nos hospitais brasileiros na tentativa de humanizar o tratamento de Covid-19, marcado pela solidão dos pacientes.

Na última semana, seu feito foi reconhecido pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus: “sem palavras para expressar minha admiração aos profissionais da saúde na linha de frente nesta pandemia e as formas incríveis com que estão buscando confortar seus pacientes. Vocês têm muito a nos ensinar e há muito que devemos fazer para apoiá-los e protegê-los”, escreveu Adhanom, no Twitter, abaixo de uma foto das luvas cheias d’água.

Lidiane Melo trabalha há 19 anos como técnica de enfermagem. Formou-se enfermeira em 2010. Desde a experiência no Evandro Freire, a técnica da mãozinha se espalhou. A engenhoca tem sido reproduzida em vários estados brasileiros. Sua intenção agora é melhorar o método com um protótipo.

“A técnica é rápida e de fato traz alívio ao paciente. Para mim, é muito satisfatório ver a repercussão que tomou. Fiquei feliz que nossa profissão está sendo reconhecida”, disse.

No Hospital Universitário de Brasília, a reumatologista e artista visual Isadora Jochims, de 35 anos, recorreu a alfinetes, aquarela, fitas de cetim e tachinhas para lidar com o medo de morrer e criar uma relação de empatia entre profissionais de saúde e pacientes.

Em março, exausta de tantas histórias trágicas, decidiu levar um pouco de leveza aos corredores da enfermaria de Covid. No biombo onde técnicos, enfermeiros e médicos se trocam, ela escreveu “Me paramenta de Amor”. Numa parede que dá acesso aos leitos, estampou “Dou conforto na passagem”.

A criação de maior repercussão foi o que ela chamou de prontuário afetivo, uma folha sulfite colada ao lado do leito de cada paciente com uma breve lista do que o deixa feliz.

Durante a passagem do boletim médico na hora da visita, algo sempre técnico e formal, Isadora surpreendeu ao questionar os familiares sobre as preferências dos pacientes.

A pergunta causou certo estranhamento de início, mas logo foi compreendida e elogiada. Um deles gostava de barulho de água e passarinho, Raul Seixas e música sertaneja raiz. Outro era torcedor fanático do Palmeiras. Num dos casos, o simples ato de tocar uma música preferida fez um enfermo reagir com movimentos e aumentar sua frequência cardíaca.

“Nos meus atendimentos, sempre tenho uma troca afetiva com o paciente. Com os graves, isso não era possível e me gerava um incômodo. Os prontuários aumentam a vinculação com o profissional de saúde e, consequentemente, aumenta também o cuidado”, disse Isadora Jochims.

Vídeos com familiares

Enquanto documentava a rotina dos hospitais na pandemia, o fotógrafo paulistano André François, de 54 anos, sensibilizou-se com o isolamento dos pacientes. Os médicos lhe relataram que a crise sanitária trouxe um fenômeno inédito, a morte sem amparo nem afeto. Daí surgiu a ideia de conectar os pacientes, a maioria sem acesso a celulares ou conhecimento tecnológico, aos familiares por meio de videochamadas.

François é fundador da ONG ImageMagica, que promove o desenvolvimento humano pela fotografia, com atuação em 19 países. Já atuou em crises humanitárias no Haiti e no Japão, mas conta nunca ter vivenciado dor tão solitária quanto a dos pacientes de Covid-19 internados em UTIs.

Ao promoverem as videochamadas com celulares do próprio projeto, os 12 educadores da organização oferecem à família não só a oportunidade de ajudar na melhora daquele doente como, em muitos casos, de se despedir dele. Até o momento, o projeto chegou a 2.781 pacientes, 7.523 familiares e 17.888 profissionais de 30 hospitais do Brasil.

“Quando a pessoa tem a chance de ver a família, ela resgata sua imunidade, a única coisa que ela tem para combater o vírus. Vários médicos dizem que o paciente tinha expectativa de ficar muito mais tempo no hospital e acaba saindo mais cedo depois de ver os familiares”, conta François.

Criticado por entidades médicas, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo divulgou parecer, feito após a consulta de um médico paulista, proibindo vídeos e chamadas entre pacientes intubados, sedados ou em coma no estado, afirmando que, nestes casos, o paciente não tem condições de expressar seu consentimento para aderir à chamada e interagir com parentes.

Outra ação do projeto são os “crachás humanizados”, uma forma de conectar o paciente com os profissionais de saúde. Funcionários dos hospitais são fotografados antes da paramentação com os equipamentos de segurança, em geral num clima descontraído. O documento traz rostos sorridentes e o nome do profissional é acompanhado de uma brincadeira ou mensagem positiva. Do leito, o doente consegue saber quem está por trás das roupas que se parecem com as de astronautas.

Na Baixada Santista, o Hospital de Cubatão aderiu a um movimento surgido nos Estados Unidos que pergunta aos doentes “o que importa para você?”. Daqueles pacientes há muito tempo internados, o hospital tenta realizar um de seus desejos.

Desde agosto, foram 42 pedidos atendidos — desde tomar uma vitamina ou um pouco de sol, até receber a visita de um jabuti ou tocar acordeon. Para alguns, trata-se do último desejo, como o caso de uma internada na UTI que chegou a chorar ao comer um bolo de laranja, e logo depois morreu.

“São coisas simples que fazem muita diferença na vida da pessoa. A gente passa o dia tratando dos pacientes. Mas só medicamento e banho não é suficiente. Temos de dar algo a mais”, afirmou Ana Rosa dos Santos, superintendente da Fundação São Francisco Xavier, que administra o hospital.

Depois da unidade de Cubatão, outros três administrados pela fundação encamparam a iniciativa. Em dezembro, a ação recebeu o reconhecimento da Federação Internacional dos Hospitais, que elegeu mais de 100 prestadores de serviços de saúde de 28 países para o programa “Além do Dever para Covid-19”. (Com G1)