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25 de junho de 2021
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Caroline Viegas – Da Revista Cenarium

MANAUS – O “turismo da vacina” já se tornou uma realidade pelo mundo. A expressão se refere a pessoas que viajam até um País que ofereça doses do imunizante a estrangeiros. O destino mais comum é os Estados Unidos (EUA), onde o plano de vacinação está avançado e flexibilizado. No entanto, em nota oficial nessa quarta-feira, 12, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) se posicionou contra a manobra alegando que o ato só contribui para reforçar a desigualdade social. Nas redes sociais o assunto gerou polêmica entre os internautas que se dividiram entre “injustiça social” e “vou parcelar em 12x no cartão”.

Toda a comoção em torno do assunto se intensificou após o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, afirmar nessa terça-feira, 11, em entrevista a jornalistas, que o plano de vacinar turistas em pontos conhecidos da cidade “está pronto para começar”. Além dos EUA, na Rússia, estrangeiros também já encontravam facilidade para se vacinar visto a flexibilidade no cadastro.

Pacotes

Com isso, agências europeias já lucram com pacotes de viagem para a Rússia que incluem, além de passeios em Moscou e São Petersburgo, a vacinação com doses da Sputnik V, ainda não autorizada pela Anvisa no Brasil. A World Vistor, por exemplo, já tem o imunizante em seu “cardápio” de opções.

Home de anúncios da World Visitor (Reprodução/ World Visitor)

Duas viagens curtas de quatro dias a Moscou, com um dia de passeios turísticos e uma vacina Sputnik V, é o que a agência de viagens norueguesa promete em seu anúncio aos turistas que desejam a imunidade. Os preços dos pacotes de vacinação contra o coronavírus custam de 1.400 a 3.500 dólares (de R$ 8 mil a R$ 20 mil). Com a lentidão devido à má gestão do plano de vacinação no Brasil, já tem brasileiro cogitando a possibilidade de ir a outros países, enquanto outros já aproveitaram o passeio em solo americano para se vacinar.

Vacina nos EUA

“Quanto mais pessoas se vacinarem nos EUA, melhor.” A fala é do famoso publicitário Roberto Justus, que tomou a vacina contra a Covid-19 nos EUA na última terça-feira, 11. O empresário alegou que viajou de férias, mas que quando chegou em Miami e descobriu que a imunização estava liberada para turistas, decidiu se vacinar, junto com a mulher, a filha, o genro e a babá das crianças. A família tomou a Janssen, de uma só dose. Após virar notícia, centenas de internautas iniciaram um debate acerca do tema e muitos criticaram a atitude.

O publicitário se posicionou e disse não entender “porque esse big deal [grande problema] que as pessoas fazem do assunto”, referindo-se à discussão sobre desigualdades na pandemia, levantado por causa do turismo da vacina nos EUA. O empresário complementou que quanto mais brasileiros tomarem a vacina nos EUA, melhor, pois dessa forma sobra para quem realmente precisa no Brasil. Então, mais uma vez, os internautas não perdoaram e relembraram quando o apresentador chamou o coronavírus de histeria e disse que o Brasil não podia parar. “Mas não foi você que insinuou que não era nada demais. Por que agora correu para se vacinar em outro País?”, indagou uma internauta.

Justiça social

O debate sobre o tema entre internautas no Twitter tomou força nos últimos dois dias. Enquetes e discussões reforçaram opiniões a favor e contrárias ao “turismo de vacina”. Mas, em sua maioria, a discussão propunha uma reflexão acerca da desigualdade social brasileira. Enquanto empresários ricos podem dar um “pulo” nos EUA para se imunizar, a classe trabalhadora morre à míngua com a má gestão do governo em relação à pandemia. No entanto, entre os tuítes um grande impasse era sempre questionado. “Mas e você, se tivesse a oportunidade, não faria o mesmo?”

(Reproduçao/ Twitter)
(Reproduçao/ Twitter)

De acordo com a Opas, no entanto, viajar para outros países a fim de se vacinar não resolve a crise da Covid-19, apenas comprova a desigualdade no acesso aos imunizantes. “Não temos dados para confirmar quantos latinos estão viajando até os Estados Unidos. Permitam-me dizer que o turismo da vacina não é a solução, e sim um sintoma da desigualdade”, declarou nesta quarta-feira, 12, Carissa Etienne, diretora da Opas, departamento regional da Organização Mundial da Saúde (OMS). A representante acrescenta que a vacina não deveria ser um privilégio dos países ou pessoas ricas, e sim um direito de todos. “Em última instância, o turismo da vacina agrava a desigualdade”, criticou.

(Reprodução/ Twitter)