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21 de novembro de 2021
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Maria do Céu de Mello Mestrinho – especial para Revista Cenarium

Irmã de Thiago de Mello, Maria do Céu celebra a longeva e produtiva vida do poeta

Lembro de um momento feliz de uma noite encantada que mostrou ao poeta Thiago de Mello as marcas indeléveis que sua poesia deixa no leitor. Só posso dizer: foi tão lindo quanto emocionante! Que privilégio estar ali na Biblioteca Mário de Andrade, na cidade de São Paulo quando, naquela noite memorável, centenas de pessoas aplaudiam o homenageado que, na ocasião, recebeu o título de cidadão paulista. Era a celebração dos 90 anos do mano.

  Louvo a Deus pelo dom da palavra que deu ao meu irmão! Como um arquiteto que sonha ver o seu desenho transformado em construção, Thiago de Mello traça, no papel, usando as palavras que lhe saem do coração e de sua mente prodigiosa: casarões, caminhos, rios, pontes, flores, rosa, margaridas, campos, criança, estrelas, árvore, madeira, fogo, justiça, amor, nuvem, mormaço, vento, menino, paz, bandeira, céu, homem, floresta, estrela, pão, água e muito mais – tudo pintado com a forte cor da esperança, o gosto bom da alegria e a força da amizade, ao cantar a liberdade vislumbrando um mundo melhor onde reine o amor.  Estavam naquele momento e na casa consagrada ao autor de Macunaíma: amigos, escritores, autoridades, adolescentes, jovens, adultos, idosos – todos com o mesmo propósito: homenagear o poeta amazonense que, levado pela força de sua poesia, ultrapassou as fronteiras e invadiu países com Os estatutos do homem.

Cruza a casa dos 90 anos vida, graça por Deus concedida, com destemor, sob o encanto da poesia e de sua capacidade de suportar as provações desta vida. E, neste mês de março, meu irmão Thiago alcança 95 anos e recebe essa justa homenagem da cidade que, em menino, o acolheu e de sua gente, com o beneplácito da Prefeitura de Manaus. Cumpriu-se a palavra do apóstolo Paulo: “Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Romanos 13:7).

Impressionante que tenha atravessado os anos mantendo sua capacidade laborativa para criar e transfigurar as palavras no seu ofício de escritor, desenvolvendo, com primor, a arte de criar poemas que cantam e encantam.

Usando, apenas, 12 títulos de seus muitos livros publicados, escrevo assim sobre o meu irmão poeta:

Impulsionando o mundo com a força da palavra, caminha o menino que enriqueceu as pessoas ensinando-as, com sabedoria, a “arte de empinar papagaio”. E, como cidadão do mundo, cantou sua linda poesia sob o quente “mormaço da floresta”, até mesmo quando a hora não lhe foi propícia. Mas, para não causar surpresa àqueles que precisam ouvir o seu cantar, avisa com a ternura que lhe é peculiar: “faz escuro mas eu canto”. Afinal, Thiago sabia que, quando as noites são mais densas e difíceis, é preciso acalentar a luz e tecer a claridade, seja com as mãos ou com o canto:

Madrugada da esperança,

já é quase tempo de amor.

Colho um sol que arde no chão,

lavro a luz dentro da cana,

minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.

Faz escuro (já nem tanto),

vale a pena trabalhar.

Faz escuro mas eu canto

por que a manhã vai chegar.

Nas suas andanças descobriu, com alegria, que a grande Amazônia – a menina dos olhos do mundo fazia parte de sua vida e, portanto, lá fez a sua casa; lá seria o seu lugar. Fez da pequena cidade de Barreirinha, que o viu nascer, o seu chão e, do caboclo, seu irmão, a quem fraternalmente estendeu a mão e o coração.

E é de lá que afirma com muita convicção: o povo sabe o que diz. Vivendo na floresta, aprendeu a conversar com os pássaros, com as estrelas, com o vento e, também, com a água a quem um dia perguntou: – Tens pátria? (ao que a água respondeu de forma lacônica): – Sim! Amazonas, pátria da água. Talvez, por viver de poesia, compartilhando-a no dia a dia, assumiu com o povo o compromisso ao afirmar: farei sempre na minha lida: poesia comprometida com a minha e a tua vida. Ao longo do tempo fez do amor um tripé – arma, munição e armadura – para sustentar o peso da vida. Assim, andando e compartilhando, ensinou o povo a cantar bem afinado sob a sua batuta a canção do amor armado.

Embora tenha predileção pela flor rosa e acredite que “a lenda da rosa” é verdadeira,nas suas idas e vindas passou algum tempo num campo de margaridas. Na sua maturidade poética que há muito encontrou, soube usar silêncio e palavra, no momento oportuno de dar. De forma magnífica ofereceu ao leitor a oportunidade de ver a vida iluminada pelo intenso brilho que vem na luz de Borges, como se fora o luar. 

Com apenas 12 anos, ao mostrar à sua Mãe uma frase que escrevera, ouviu dela o prenúncio do que ele era e do que veio a ser sua existência de cantador da esperança e do ser humano: – “Meu filho, és poeta!” Mas, o melhor de tudo é saber que o menino Amadeu Thiago de Mello, criado num lar cristão e que guardou, no fundo do coração, o profundo amor que lhe deu a sua Mãe e os ensinamentos de valores morais dados, com rigidez, pelo seu Pai, conserva um amigo muito especial que fez morada na sua vida – Jesus – com quem caminha de mãos unidas, cantando a canção que escreveu:

Jesus é bom!

É mais que amigo, é mais que irmão.  

Quando eu me perco,

Ele me chama:

Vem cá, menino, me dá tua mão;

Jesus é bom, tão bom que mora no meu coração.  

E, se eu me perco na escuridão,

Ele derrama auroras pelo chão.

 Ao Mano, com amor.