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25 de junho de 2021
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Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA –  Almir Naramayoga Suruí, líder indígena do povo Paiter Suruí, de 46 anos, conta em entrevista exclusiva nesta quarta-feira, 5, detalhes das acusações feitas contra ele, em investigação da Polícia Federal (PF), sobre declarações ao trabalho da Fundação Nacional do Índio (Funai) na Terra Indígena Sete de Setembro, localizada na cidade de Cacoal, distante a 480 quilômetros da capital Porto Velho.

Após Almir, que também levanta a bandeira da luta por direitos de toda a população originária das florestas, de forma geral, foi comunicado sobre uma queixa-crime e teve de comparecer à delegacia da Polícia Federal, em Ji-Paraná (RO), nesta semana para pedir esclarecimentos sobre o inquérito.

O líder Suruí confirmou o tom de perseguição da denúncia. “Foi uma surpresa. Justamente quando o processo sai de uma instituição que tem o papel de defender e implementar políticas indígenas no país, que é a Funai. Um ato como esse, mostra que o governo tira a máscara em relação ao que pensa sobre as lideranças indígenas que realmente estão defendendo os seus povos”, desabafa Almir.

As comunidades Suruí se espalham por 27 aldeias (Reprodução/Flávio Júnior)

Outro motivo

Segundo Almir, outro motivo para o tornar alvo do processo, seria a criação de uma campanha virtual para arrecadação de alimentos e outros itens para suprir necessidades básicas das comunidades Suruí, que se espalham por 27 aldeias. Para Almir, a justificativa mais pareceu uma desculpa para mirar em um alvo que já existia.

“Eles não têm outro motivo, por isso estão falando da campanha. Estão falando que a campanha difamou o governo, mas, com certeza, o governo tem o papel de trazer o benefício a quem precisa. E o povo indígena tem a maior necessidade nesse tipo de apoio. E é nossa obrigação, como líder de um povo, buscar alternativas”, pondera Suruí.

“Esse tipo de investigação não tem nenhuma base jurídica. Então, é apenas uma perseguição política para intimidar nossas lideranças. Mas vamos seguir a luta. Estamos buscando a nossa defesa. A Polícia Federal está fazendo o mandado, apenas a pedido do governo e da Funai, mas acho que eles não têm poder para arquivar o pedido, né? O governo é o maior chefe deles”, conta o líder dos Suruí.

Colaboração espontânea

Amir Suruí também diz que procurou a Polícia Federal de forma espontânea. “Não tem nada a esconder e queria saber do que, de fato, se trata o inquérito para responder, conforme os questionamentos”, detalha Almir.

Quando perguntado se acredita em perseguição direta do governo federal, ele afirma ter certeza. “Eu sei que eu estou sendo perseguido pela política, pelo governo. Porque o governo é antindígena e antiambiental. O meu poder, a minha defesa é de saber que não estou fazendo mal a ninguém. Nossa meta sempre foi usar a floresta como um dos mecanismos que podem trazer o equilíbrio econômico, cultural e ambiental para a sociedade”, desabafa.

“Esse tipo de perseguição é autoritarismo. Ele (o presidente) está fazendo uma ditadura militar. Está voltando. Está usando o poder que deveria ser usado para o bem como de todos, para evitar a luta por direitos coletivos dos povos indígenas. É um desastre, um retrocesso para o Brasil. Mas nada vai nos calar!”, finaliza.

A perseguição sistemática às lideranças são denunciadas pelo indígenas (Reprodução/Flávio Júnior)

Habeas Corpus

Na terça-feira, 4, o partido Rede Sustentabilidade, do qual Almir Naramayoga Suruí é filiado, deu entrada no Supremo Tribunal Federal (STF) com um pedido coletivo de habeas corpus, com objetivo de trancar os inquéritos ou ações penais instauradas contra ele, e, também, contra Sônia Guajajara, líder indígena do Maranhão, que foi intimada a prestar depoimento à Polícia Federal, na condição de representante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), por denunciar a gestão presidencial da pandemia em relação às comunidades indígenas, em uma websérie lançada em 2020.

Em uma rede social, o partido se solidarizou com o líder indígena. “O governo federal avança em seu plano de criminalizar e intimidar os movimentos e lideranças indígenas da resistência, usando um instrumento autoritário da Ditadura Militar, a Lei de Segurança Nacional, a Fundação Nacional do Índio – Funai e a Polícia Federal”, diz publicação.