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27 de outubro de 2021
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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – O isolamento social imposto pela Covid-19 trouxe consequências infelizes para uma parcela mais vulnerável do público infantil no Amazonas. Os casos de violência doméstica contra crianças aumentaram em pelo menos 8%, desde que foi declarada a pandemia em março de 2020. É o que aponta o diretor do Núcleo de Assistência à Criança e Família em Situação de Risco (Nacer), Cleslley Rodrigues, a partir da observação do quantitativo de crianças direcionado ao abrigo no período de um ano.

De acordo com Rodrigues, o caso do menino Henry, de apenas 4 anos, assassinado há pouco mais de um mês no Rio de Janeiro, causando comoção no Brasil e repercutindo em vários lugares do mundo, trouxe à tona uma preocupação, que, segundo ele, o Nacer já vinha tendo desde o início da pandemia.

“Nós já tínhamos a exata noção de que os casos de violência contra crianças, os abusos aumentariam com o lockdown, com o isolamento social, em consequência da pandemia. Há mais ou menos um ano, conversei sobre isso com outros gestores do abrigo, preocupado, pois estava com lotação máxima na época e não possuía estrutura para receber possíveis casos, o que acabou acontecendo um mês depois, com a chegada de uma criança que havia sido queimada pela mãe”, relatou Cleslley.

Sinais de alerta

Para o diretor do Nacer, os pais ou responsáveis ou qualquer adulto que faça parte da rotina de uma criança devem estar atentos aos sinais na mudança de comportamento, especialmente aqueles sintomas de ansiedade, agressividade, tiques, manias e comportamentos mais obsessivos. Entre as mudanças mais observadas estão a sonolência, a letargia, a introspecção ou agitação extrema e a irritabilidade.

“A criança pode mudar o comportamento de um dia para o outro. Por exemplo, se uma criança é superalegre e de repente começa a ficar triste e apática, agressiva, apresentando sinais de alergia e problemas de pele de difícil controle, isso pode ser uma consequência direta do sofrimento psíquico”, diz Rodrigues.

Conforme o gestor, as crianças vítimas de violência tendem a ficar doentes demais sem justificativa, ter problemas de linguagem, gaguejar, apresentar sinais de depressão, baixa autoestima e perder a confiança em todos aqueles que convivem com ela.

Crianças passam em média dois anos em processo de reintegração e tratamento até voltarem a seus lares ou serem adotadas (Divulgação/Nacer)

Propósito é reintegrar

Perto de completar seis anos de funcionamento, no mês de maio, e acolhendo crianças vítimas de violência oriundas de todo o Estado do Amazonas – tanto vítimas de maus-tratos quanto de abuso sexual e abandono – a casa hoje abriga 17 crianças, cuja permanência no local dura em média dois anos.

Segundo o gestor, os casos entre meninos e meninas variam muito, embora, nos últimos três anos, a incidência tenha sido maior entre as meninas vítimas de abuso, com idades entre cinco e dez anos. Com o intuito, sobretudo, de reintegrar as crianças em seu seio familiar, por meio da busca ativa dos responsáveis, do fortalecimento dos vínculos, proporcionando um ambiente seguro para a criança.

O Nacer trabalha em conjunto com as famílias, oferecendo suporte da equipe técnica da instituição, tanto no âmbito psicológico quanto no social. Ocorre, no período necessário para o acompanhamento das crianças, um trabalho de sensibilização, de avaliação dos espaços e dos familiares que possivelmente assumirão a guarda da criança. “Desses aspectos todos, o mais importante é o vínculo com o familiar, pois foi ferido e precisa ser resgatado. O ambiente precisa estar seguro para a criança e, quando isso não ocorre, ela é destituída do poder familiar e encaminhada para adoção”, explica Cleslley.

No caso das crianças que passaram pelo Nacer, o diretor relata que a maioria foi reintegrada à família de origem, “com louvor”. “Das 15 crianças que passaram pela casa nos últimos cinco anos, apenas oito foram desacolhidas por adoção”, completa o diretor, que também explica o que é o desacolhimento, processo de saída da criança do abrigo, no caso das adoções, o prazo obedece ao calendário do Juizado de Menores, porém, esses desacolhimentos acontecem em média de seis a oito meses.

De acordo com Rodrigues, quando a criança é desacolhida e retorna para a família de origem, a equipe do Nacer ainda faz um acompanhamento por seis meses, de modo a mostrar para o Juizado que a criança está bem e segura. O acompanhamento da Justiça demora dois anos.

No caso do processo de adoção, após a emissão de relatório e parecer técnico à Justiça, é agendada a audiência e concedido o desacolhimento. “Mas, antes disso ainda há um período de estágio da convivência e a criança vai e volta à instituição nesse tempo”, explicou o responsável pelo Nacer.

O acompanhamento, nas adoções, é feito de forma mais demorada pelo Juizado, que não concede imediatamente o registro da criança, concedendo um termo de guarda provisório até que o processo seja consolidado. Durante o tempo em que ficam acolhidas no abrigo, as crianças permanecem estudando, em escolas no entorno do Nacer. Quando retornam para as casas originárias, se fica longe, a transferência é automaticamente solicitada por medida judicial.

Saiba como ajudar

Mantendo-se com ajuda de doações, tanto por parcerias governamentais quanto de parceiros privados, o Nacer publica, semanalmente, no Instagram uma lista de necessidades, além de receber apoio por meio do site, plataforma na qual possui o selo Doar de Gestão e Transparência.

Qualquer pessoa pode fazer doações esporádicas ou mesmo se cadastrar para doar de maneira fixa, tornando-se voluntário. As doações podem ser feitas via débito em conta, cartão de crédito, boleto bancário e transferência em valores a partir de R$ 35.