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18 de novembro de 2021
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Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Mulher não precisa falar, só precisa gemer”. Essa frase machista, dita pelo ex-parceiro da especialista em comunicação e desenvolvimento humano, Daniela Cardoso, em 2019, ecoa até hoje em sua memória. Segundo Daniela, a expressão nem um pouco romântica foi dita durante um momento íntimo do casal e gerou um impacto angustiante na sua vida amorosa. No entanto, ela sua dolorosa experiência para alertar outras mulheres ou homens que estão em uma relação abusiva.

Essa é uma das histórias que você vai conhecer ao longo desta reportagem. A REVISTA CENARIUM ouviu depoimentos de pessoas que tiveram relacionamentos abusivos para compor o conteúdo a seguir. 

De acordo com artigo inglês produzido pelo Center for Global Development, publicado em abril de 2020, estima-se que ao redor do mundo, uma em cada três mulheres sofre violência por um parceiro íntimo ou violência sexual e, que aproximadamente um terço dos feminicídios sejam cometido pelo parceiro íntimo. Neste período de isolamento social em decorrência da pandemia do novo Coronavírus alguns casos já vêm sendo relatados, mas acredita-se que os números sejam subnotificados. Ainda assim, alguns especialistas consideram que ainda seja cedo para dizer se houve aumento desta taxa, já impressionante de violência contra a mulher.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), Manaus teve um aumento de 27,7% no número de mulheres vítimas de violência doméstica durante o primeiro semestre de 2020. Em 2019, de janeiro a junho, o número de vítimas foi de 7.662. No mesmo período deste ano, o numero saltou para 9.782.

Conheça a história das vítimas

Daniela Cardoso, cuja história abriu esta reportagem, contou para nossa equipe a história de seu último relacionamento. Ela conheceu o ex-companheiro através de amigos, no ambiente de trabalho. Naquele momento, houve um interesse mútuo e a partir dali, eles começaram a trocar mensagens. Com o passar do tempo, a aproximação foi ficando mais intensa. Até que um dia Daniela identificou um tom dominante e agressivo nas mensagens enviadas pelo ex-parceiro e resolveu pedir conselhos as amigas sobre o assunto. Elas por outro lado, disseram que Daniela estava sendo exigente demais e que deveria continuar o relacionamento. No entanto, segundo Daniela, uma intuição ‘divina’ dizia para não seguir adiante.

Após dois meses de relacionamento, quando Daniela achava que havia encontrado o “príncipe encantado”, os dois saíram e quando estavam em um momento íntimo de amor, o encanto acabou e o príncipe terminou virando “sapo”.   

“Estávamos em um momento íntimo de casal e, achei estranho o comportamento dele, porque ao invés de usufruirmos do lugar para namorarmos, a pessoa resolve assistir jornal e filmes. Eu tentava estimulá-lo para aproveitarmos aquele momento juntos. Até que ele, se vira para mim e diz: ‘mulher não precisa falar, só precisa gemer’. Essa frase muito me impactou. Depois que deixamos o local falei para ele que eu era acostumada a lidar muito bem com a minha companhia e aquela frase infeliz dita por ele não era saudável para mim. Quando cheguei em casa, entrei no meu quarto e desabei no choro. Foi um choro doído, sentido e culpado. Sim, porque eu me culpava por ter me permitido passar por aquela situação”, relembra Daniela.

Após a agressão psicológica sofrida, Daniela resolveu postar um vídeo em suas redes sociais sobre o que havia acontecido como forma de alertar outras mulheres sobre o tipo de violência sofrida em uma relação não saudável. No entanto, a especialista em comunicação não esperava a repercussão que o vídeo causaria. Segundo ela, foram mais de duzentos compartilhamentos e uma enxurrada de mensagens de apoio, inclusive, do público masculino.      

No Amazonas, 73 farmácias e drogarias aderiram a campanha ‘Sinal Vermelho contra a Violência Doméstica’, para alertar vítimas a denunciar (Reprodução/Internet)

A veterinária Flávia Albuquerque, 26 anos, de Belém, no Pará, viveu uma relação abusiva por quase quatro anos. Flávia conheceu a namorada por meio de um aplicativo de relacionamento, em 2017. Segundo ela, no início do namoro, a ex-companheira já demonstrava sinais de ser ciumenta, porém, por estar apaixonada, a veterinária foi tolerando as atitudes da parceira.

Em 2018, as duas foram morar juntas e a partir daí, as brigas, desconfianças e ameaças passaram a ser frequentes. Após idas e vindas, o ponto final no relacionamento ocorreu depois de uma briga com agressões físicas e morais, diante da família de Flávia, entre o casal.

“Já no primeiro encontro ela já dava sinais de que era ciumenta, mas eu tava tão cega de amor que nem percebi. Nos primeiros anos foi tudo bem, mas as brigas por ciúme e desconfiança eram constantes. Quando moramos juntas que a coisa foi ficando ruim, brigávamos todo dia, por qualquer motivo, foi quando começaram as ameaças de suicídio, e as brigas mais físicas com empurrões entre outras”, relembra a veterinária. 

Flávia tentou por diversas vezes terminar a relação, no entanto, a namorada usava subterfúgios emocionais para ainda mantê-la sob controle. “Ela tinha acessos de raiva e depois vinha pedir perdão e desculpas, jurando que nunca mais ia fazer aquilo, mas numa próxima oportunidade fazia tudo de novo. Foi um longo ciclo até tudo acabar, o pior que eu tinha ciência de tudo, de estar num relacionamento ruim, mas várias coisas nos prendiam. Ela ‘fuçava’ meu telefone, tudo era no nome dela como, conta de telefone, internet, as senhas também eram compartilhadas entre nós”, completa.

O ano de 2019, foi um dos piores momentos do relacionamento, assegura a veterinária, que atualmente está solteira e sem planos de entrar em um novo relacionamento tão cedo. “Após o término, a cada segundo, eu recebia mensagens de baixo calão, ofensiva, obscena, agressiva ou imoral. Ela ficava monitorando a minha localização pelo celular, fazia print’s e enviava com tons de ameaça dizendo onde eu estava, que iria me encontrar e acabar com a minha vida. Só não abri boletim de ocorrência por respeito à profissão dela, que é advogada. Mas, o silêncio e a distância são as melhores respostas para uma agressão. Hoje, estou sozinha, curtindo meu trabalho, meus amigos, e sem planos de entrar em outra relação sem ter a certeza de como é o comportamento da pessoa”, finaliza.  

Segundo dados do Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp), os principais registros de violência doméstica, em Manaus, em 2020, foram: Injúria 31,7%, Ameaça 28,5% e lesão corporal 13,1% (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

A modelo e empresária Jéssica Antunes, 30 anos, de Tocantins, morou fora do País, viajou pelo mundo, vem de uma família estruturada e que foi criada com muito amor e carinho, não imaginaria que viveria um relacionamento abusivo. Ela e o ex-namorado se conheceram por meio de amigos em comum.

Depois de seis meses de namoro, ela se viu completamente apaixonada e os dois foram morar juntos. A modelo descreve para nossa equipe que aquele homem que parecia um ‘Deus grego’ foi se tornando um pesadelo na sua vida, deixando sequelas e que o tão sonhado conto de fadas, onde a princesa encontra o príncipe, não passava de balela. 

A seguir, Jéssica relata a sofrida relação amoroso que vivia, entretanto, não a enxergava como abusiva. “No início, ele fazia tudo para me impressionar, era o homem que idealizei a vida toda. Com o passar do tempo, fui me envolvendo e me apaixonando perdidamente. Mas não percebia que estava em uma relação abusiva. Perdi o número de vezes que dormi dentro do carro, porque ele não deixava eu entrar em casa e, ficava com meu celular para que eu não pedisse ajuda”, disse.

Por outro lado, Jessica não queria mostrar para a família e amigos o que estava passando. Segundo ela, era um relacionamento de aparências. “Uma vez, após uma festa de família, ele havia ficado chateado porque fiquei mais tempo com a minha família, do que com ele. Quando chegamos em casa, ele jogou massa de tomate pela casa toda e me fez limpar tudo, como punição pela falta de atenção não dada a ele naquele dia”.

E completou: “Eu me culpava por tudo, porque ele me fazia ter esses sentimentos. Inúmeras vezes dizia que me punia porque eu não fazia nada direito, era mimada e dondoca. Naquela ocasião, já era presa dele. O próximo passo foram as agressões físicas. Eu vivia com medo. Até que um dia, estávamos voltando para casa, às 3h, passei por cima de um buraco. Aos gritos, ele mandou eu parar o carro e descer como forma de castigo porque ele vinha dormindo no banco de passageiros e acordou. Resumindo, só consegui sair dessa depois de dividir com minha família o que estava acontecendo. Eles me colocaram na terapia e minha terapeuta disse que aquela relação era abusiva e que se não agisse rapidamente, poderia ser tarde demais”, conclui a modelo e empresária.

Passado dois anos do término do relacionamento abusivo, Jéssica relembra a relação como aprendizado. Atualmente, ela dá palestras sobre o tema, na região onde mora e busca conscientizar outras mulheres que estejam em uma relação abusiva, mas têm medo de denunciar. A modelo e empresária assegura que jamais deixará alguém manipulá-la desta forma, novamente.

O dentista William Malaquias, 35 anos, conheceu o ex-companheiro, em uma balada, em Rondônia, onde mora. A relação entre os dois durou três anos e teve um término quase trágico.

“O início foi tudo lindo e maravilhoso, contudo, o ciúme foi estragando a relação. Ele dizia o tempo todo que eu tinha sorte de tê-lo ao meu lado porque ‘ninguém iria me aguentar’. Quando me traiu, disse que a culpa era minha, porque eu não dava a ele o que ele precisava. Quando terminamos, ele fez questão de ‘envenenar’ todos meus amigos contra mim e quase passou com carro por cima de mim. Na época, mudei de cidade para me proteger, pois nunca sabemos, onde o ciúme e a ira podem levar”, pontua o dentista.

O que dizem os especialistas

A antropóloga Fabiane Santos, afirma que a forma de enfrentamento do machismo e da violência são predominantes, além de responsabilizar a mulher por tudo. De acordo com ela, a realidade da violência sofrida pela mulher é muito mais dura, pois muitas mulheres sofrem esse tipo de abuso, não apenas físico, mas moral e psicológico diariamente e a sociedade pressiona a mulher para que ela se sinta culpada pela relação ser abusiva.

“Muitas mulheres não só passam a vida sendo agredidas, como algumas morrem ou ficam mutiladas por esse tipo de comportamento. Elas acham que tudo é culpa delas e não do parceiro. Justamente pelo fato de não terem se esforçado o suficiente para fazer com ele mude ou porque não são bonitas ou não são boas dona de casa o suficiente. A partir daí você transfere toda a responsabilidade para a mulher. Isso é um problema que devemos pontuar. As pessoas são adultas e quando elas estão em um relacionamento, as duas são responsáveis pela relação. Não é justo atribuir a mulher esse papel, principalmente quando ela costuma ser mais frágil, no contexto de violência, que não tem a ver com força física e sim, com toda a tradição do patriarcado da sociedade, que enxerga a mulher com um ser subalterno ou inferior e que não pode falar tão incisivamente quanto o parceiro. É uma série de comportamentos que as mulheres são levadas a aprender desde pequenas e que ressaltam essas características de fragilidade, de submissão”, avalia a antropóloga.

Fabiane ressalta também que quando a mulher costuma ser incisiva, ela é taxada de mandona, de mal amada, de solteirona, por não ter casado. Ou seja, tudo em torno da mulher é construído em cima desse estereótipo de que ela precisa casar e construir uma família para ser feliz ou independente. A violência, já começa deste princípio, porque nem sempre é uma escolha da mulher casar, mas sim, uma imposição da sociedade. 

“Hoje ainda reina a ideia de que a mulher precisa ser submissa. Se ela denunciar a violência sofrida, estará destruindo a família dela. Ou se é dona de casa e não tem uma profissão e quiser denunciar uma agressão, quem que vai ampará-la, aos olhos da sociedade? Por isso, muitas vezes, a mulher tolera uma relação violenta para manter o mantenedor da casa, que é o parceiro agressor. Isso é muito sério e acontece na maioria dos lares, onde tem situações de violência doméstica frequentes. Essa violência não necessariamente precisa ser física, pode ser verbal, psicológica, onde o parceiro agride a parceira com palavras e a faça sentir-se inferior, burra, feia e errada”pontua Fabiane.

A questão da violência doméstica não pode ser tratada com indiferença. Segundo a Antropóloga, o Estado tem obrigação de estabelecer formas de enfrentamento dessa violência.

“A Lei Maria da Penha, apesar de ainda precisar de muitas melhorias, é um instrumento válido para proteger essas mulheres vítimas de violência doméstica. A denúncia é uma forma de enfrentamento desse agressor. É preciso que a sociedade pense nisso como algo que tenha a ver com a própria noção de civilização, porque num lugar em que a mulher é tratada como um ser de segunda categoria, não se pode pensar num país democrático e livre, enquanto esses sujeitos não tiverem igualdade de condições. Mulheres e homens têm formas de ver o mundo diferente. Mas que precisam ser equiparados em termos de cidadania e isso tem a ver com o enfrentamento dessa violência”, conclui a antropóloga.

De acordo com Aline Ribeiro, representante da Coletiva Banzeiro Feminista do Amazonas, é importante repensar de que maneira, a sociedade ao redor dessa mulher que está dentro de um relacionamento abusivo cria para que ela possa permanecer com ele ou romper com esse ciclo de violência que é perpetuado por parte da família, pelos amigos, e por vários outros setores da sociedade que condicionam a mulher a ficar do lado de um agressor.

“A gente pensa que é uma atitude muito simples romper com um relacionamento, já que aparentemente todos parecem saudáveis. Só que às vezes essa mulher está inserida num contexto de violência tão profundo que significa negociar com a própria chance dela morrer, quando rompe com esse relacionamento. Isso é um medo real, as estatísticas apontam para um número enorme de feminicídios ocorrendo no Brasil. Esses números são ainda mais assustadores e aterrorizantes quando temos um marcador étnico, racial e de classe ou seja, essa mulher não está só rompendo uma relação, ela está sendo inserida num local que pode acabar com a vida dela”, assegura Aline. 

A representante da entidade enfatiza ainda que é preciso pressionar o poder público e debater cada vez mais este tipo de relação para que a mulher consiga identificar de forma prematura e possa sair de um relacionamento abusivo sem nenhum dano.

“Quando falamos de relacionamento abusivo, é preciso englobar a violência psicológica, que normalmente é onde começa a dar indícios que essa relação será prejudicial, violenta e perigosa. Temos de levar esse debate para a esfera pública e tentar fazer com que isso deixe de ser um tabu, onde políticas públicas e educativas sejam criadas. Para que a mulher possa falar: ‘vivi um relacionamento abusivo e foi assim que eu superei’. Não jogar essa sobrecarga só para as mulheres, que elas saibam identificar desde cedo o que é um relacionamento abusivo, de que forma o parceiro ou parceira está violando a identidade e a liberdade dela”, finaliza Aline. 

Em sua última coluna publicada no portal Uol, este mês, a psicanalista e escritora brasileira, Regina Navarro Lins, descreve essa forma de amar idealizada pelas mulheres como ilusória.

“O amor romântico, pelo qual todos anseiam na nossa cultura desde meados do século 20, é calcado na idealização. Você atribui ao outro características e personalidade que ele não possui. O problema é que na convivência é impossível manter a idealização e surge, então, o desencanto. Nessa quebra de encanto, começamos a perceber que a pessoa amada e as projeções colocadas nela são realidades distintas”, aponta Regina.

Para o psicanalista americano Robert Johnson a convivência torna evidente as diversas características de personalidade da outra pessoa. Seu jeito de ser e de pensar, como também sua generosidade ou seu egoísmo, sua coragem ou suas inseguranças, por exemplo. Alguns aspectos nos causam admiração, outros repúdio, mas de qualquer forma não conseguimos mais perceber o outro tão maravilhoso e idealizado como no início da relação. As nossas projeções sofrem a interferência da realidade. O que uma pessoa projeta na outra são partes de si própria, desconhecidas potencialidades que nunca tocou e nunca conheceu porque sempre tentou vivê-las através do outro.

Campanha auxilia mulheres a denunciar

“Sinal Vermelho para a Violência Doméstica”. As mulheres ganharam, em junho passado, uma forma de denunciar a violência doméstica, sem precisar ir a uma delegacia.

Criada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), com intuito de ajudar mulheres em situação de violência doméstica a solicitarem apoio nas farmácias do país apresentando o símbolo da letra “X” em uma das mãos para que o atendente ou farmacêutico acione uma autoridade policial para lhe prestar o devido auxílio.

No Amazonas, 73 estabelecimentos estão cadastrados na campanha, entre eles: Drogarias Santo Remédio (com 46 unidades na capital), Drogarias Pague Menos (com 19 unidades em Manaus, uma em Manacapuru, uma em Itacoatiara e uma em Parintins), Drogarias Riachão (quatro na capital) e Drogaria Pharmamed (uma em Manaus).