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26 de janeiro de 2022
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Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Esperei mais de cinco horas no domingo [21] passado e hoje, também, vou ficar aqui até ele sair”, diz a autônoma Célia Cristina, de 48 anos, que pretende aguardar o filho Gabriel Victor, de 18 anos, concluir o segundo dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), cujas provas são realizadas neste domingo, 28, em todo o Brasil. Junto com o jovem, diagnosticado com grau leve do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a mulher chegou ao local de prova, no Centro de Manaus, no Amazonas, cerca de uma hora antes do portão fechar, para não correr o risco do rapaz perder a aplicação do Exame.

Para que pudesse esperar o filho durante as 5h30 de realização da prova do Enem, Célia Cristina conta que não levou o telefone celular, com medo de ser assaltada. A autônoma relata que o Centro da capital amazonense é perigoso e que só levou dinheiro para comer e retornar para casa, quando Gabriel Victor sair da unidade educacional.

Por conta da condição, o jovem realiza a prova em uma sala separada, conforme prevê a Política de Acessibilidade e Inclusão do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão que organiza o Enem e garante o direito de atendimento especializado às pessoas com deficiência. Segundo a mãe, Célia Cristina, esta é a primeira vez que Gabriel participa do Exame. O garoto sonha entrar em uma faculdade de tecnologia e criação de jogos, como Informática ou Engenharia de Software.

Juntas, as mães aguardam os filhos no portão de unidade educacional onde o Enem é aplicado, em Manaus. (Bruno Pacheco/Revista Cenarium)

“Ele estudou bastante, apesar da Covid-19. Eu creio que Deus está no controle de tudo e ele vai conseguir. Como mãe, eu me sinto muito feliz, emocionada, de ver ele fazendo a prova. É um sonho realizado, pois foi muita luta para que ele continuasse estudando. Gabriel tem um grau leve de autismo e, querendo ou não, isso traz um pouco de dificuldade para ele”, contou Célia, emocionada.

Ao contrário do último nível do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), o nível 3, no qual o paciente necessita de mais suporte e apoio, no nível 1, a criança necessita de pouco suporte, podendo ter dificuldade para se comunicar, mas sem limitações para interagir com outras pessoas.

O autismo é um transtorno manifestado em três níveis, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ª edição ou DSM-5, classificados em leve (grau 1), moderado (grau 2) e severo (grau 3), caracterizado por afetar o comportamento, as habilidades sociais, a fala e a comunicação verbal e não verbal, ainda conforme o manual.

De acordo com Célia Cristina, mesmo diagnosticado com o grau leve de autismo, o filho ainda enfrentou adversidades durante a preparação para o Enem. “Ele estava ansioso. Eu precisei solicitar a sala separada com uma pessoa [fiscalizando], por conta do barulho, a ansiedade, mas deu tudo certo. Na primeira prova que ele fez, mesmo nervoso, ele fez a redação. Era até um tema bastante difícil”, destacou a autônoma à CENARIUM, ao lembrar do tema da redação do Enem 2021, “Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil”.

Mãe vendedora autônoma também faz vigília pela filha

Natural de Mato Grosso, Ana Rosa de Oliveira, de 54 anos, é autônoma e trabalha com venda de salgados, em Manaus. É por meio da atividade que ela ajuda nas despesas da família e na educação da filha, Amanda de Oliveira, de 20 anos, que sonha em cursar a faculdade de Direito.

“Creio que já deu tudo certo, porque ela se preparou bastante. Sempre, na escola, Amanda tirou as melhores notas. Não é porque sou mãe que falo isso, mas ela sempre procurou fazer o melhor para ela mesma, pensando no futuro. Ela já tinha consciência que as notas que ela obtivesse no primeiro, segundo e terceiro ano, seriam fundamentais para o Enem e que fariam a diferença”, contou Ana Rosa.

Pelo segundo ano seguido, a prova do Enem é realizada em meio à pandemia da Covid-19. Mesmo diante do novo coronavírus, Ana Rosa de Oliveira destaca que não teve medo de que o Exame fosse aplicado, pois ela aprovou as medidas de segurança adotadas para que o vestibular fosse feito. Além disso, lembra a autônoma, Amanda já foi vacinada contra o vírus.

Ao lado de Célia Cristina, Ana Rosa de Oliveira também pretende aguardar a filha concluir a realização do Enem. “Vamos aguardar nossos filhos saírem. Eu vim com a Amanda e pretendo retornar com ela”, declarou a vendedora de salgados.