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6 de maio de 2021

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Com informações do Estadão

MANAUS – O Youtube atualizou as políticas de remoção de vídeos com informações médicas incorretas relacionadas à Covid-19 nesta semana, o que inclui publicações que defendem tratamentos com ivermectina, hidroxicloroquina e outros medicamentos comprovadamente ineficazes contra o novo coronavírus. Segundo a plataforma, mais de 850 mil vídeos foram retirados do ar por violação às políticas de conteúdo sobre a pandemia.

“A menos que haja contexto educacional, documental, científico ou artístico suficiente, a plataforma passará a remover vídeos que recomendam o uso de ivermectina ou hidroxicloroquina para o tratamento ou prevenção da Covid-19, fora dos ensaios clínicos, ou que afirmam que essas substâncias são eficazes e seguras no tratamento ou prevenção da doença”, apontou em nota.

Na página sobre as regras de postagem, o Youtube informa não permitir a veiculação de conteúdo sobre a pandemia que possibilite “sérios riscos de danos significativos” ou dissemine “informações médicas incorretas” que contrariem as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) ou de autoridades locais de saúde. “As políticas do YouTube sobre a Covid-19 estão sujeitas a alterações em resposta a mudanças nas orientações das autoridades de saúde globais ou locais quanto ao vírus”, destaca

Isso é voltado especialmente a vídeos sobre tratamentos, prevenção, diagnóstico, transmissão, diretrizes de distanciamento e isolamento social e, ainda, a própria existência da Covid-19. “Também podemos abrir algumas exceções caso o objetivo do vídeo seja condenar ou combater as informações equivocadas que violam nossas políticas. Esse contexto precisa ficar evidente nas imagens ou no áudio do próprio vídeo”, ressalta.

A página de orientações da plataforma aponta, ainda, que o usuário não deve publicar vídeos com conteúdo sobre Covid-19 que: incentive o uso de medicamentos caseiros, orações ou rituais em vez do tratamento adequado; afirme haver uma cura garantida; recomende o uso de ivermectina ou hidroxicloroquina para o tratamento ou aponte que são eficazes contra a doença; desencoraje a busca por orientação médica; dentre outras formas de desinformação.

Monitoramento identificou 44 vídeos com dados falsos nos maiores canais de políticas do País em janeiro

Em março, o Monitor do Debate Político no Meio Digital, projeto de pesquisa do Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPoPAI) baseado na USP Leste, publicou uma nota técnica apontou que o Youtube não aplica as políticas de moderação de conteúdo “com rigor”, permitindo até mesmo a remuneração desse conteúdo por meio da ferramenta de monetização

“Se o Youtube tivesse aplicado as punições segundo sua própria política, conforme o sistema de strikes anunciado em janeiro, esses canais teriam sido suspensos ou permanentemente excluídos”, diz a nota. Entre os vídeos citados no documento, está uma publicação que permaneceu no ar por cerca de oito meses

O grupo identificou, em parceria com a Novelo Data, 44 vídeos com conteúdo considerado negacionista sobre a pandemia postados no mês de janeiro em oito dos maiores canais de política do País Em apenas um canal, as publicações desse tipo chegaram a mais de 6 milhões de visualizações.

Dentre as informações falsas, estão recomendações do uso de ivermectina, cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, a promoção da vitamina D como forma de prevenção à doença e o desestímulo ao distanciamento social e ao uso de máscaras.

Professor de Gestão de Políticas Públicas da USP e integrante do GPoPAI, Pablo Ortellado elogia a mudança e aponta que o Youtube tem políticas de uso com regras mais claras sobre a difusão de conteúdos falsos na pandemia em comparação a outras, porém ainda não consegue garantir o cumprimento em todos os canais que hospeda. “Vamos ver se vai implementá-la com o tempo”, destaca.

Segundo ele, o grupo de pesquisa chegou a discutir o tema com o Youtube, que explicou que um dos motivos de tantos vídeos sobre o tratamento ineficazes estarem disponíveis era por envolver uma desinformação pouco comum fora do País. Ortellado lembra que as declarações de organizações internacionais contrárias ao uso de ivermectina, cloroquina e afins para o tratamento do coronavírus ganharam maior destaque apenas nos últimos meses.

“O Youtube tinha uma política global, e esse ‘tratamento precoce’ é uma coisa muito brasileira. Acho que isso mudou, que o Youtube reconheceu que o Brasil é o epicentro da pandemia, e que a recomendação do chamado ‘tratamento precoce’ está sendo estimulada por forças políticas organizadas. E que, justamente por esses fatores, houve, nas últimas semanas e meses, com a condenação explícita de entidades internacionais e de países europeus condenando”, argumenta.

O professor aponta, ainda, que alguns dos principais canais que veiculam esse tipo de conteúdo tem a prática de remover por conta própria os vídeos após algumas semanas. “Eles trabalham muito na fronteira do que é permitido ou não permitido. Então, publicam, colhem os louros em 1 ou 2 semanas, colhem toda a audiência e deletam para não deixar evidência.”

Para ele, o número de 850 mil vídeos delatados é “ridiculamente pequeno” diante da quantidade de conteúdo negacionista e com desinformação veiculado mundialmente durante a pandemia. “Os mecanismos de verificação são limitados, um pedaço é por automotivação e não tem números de pessoas para verem todos os vídeos.”