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25 de julho de 2021
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Daniel Viegas* – Da Revista Cenarium

MANAUS – Nos últimos meses, a cena literária brasileira se deleitou com o livro “Torto Arado”, do autor Itamar Vieira Junior, em um romance que nasceu de uma mutilação que seccionou o corpo, mas uniu os espíritos das irmãs Belonisia e Bibiana, que romperam com o destino de serem “preparadas desde cedo para gerar novos trabalhadores para os senhores”.

Com toda a espiritualidade do Jarê, o livro mostra que a formação de um Quilombo é um processo histórico e dinâmico que não se encerrou com a abolição da escravatura em 1888. Ao contrário disso, com uma escravidão finda por uma lei de um único artigo, o povo negro se manteve escravo e excluído, sem terras pelo País, se organizando e estruturando suas comunidades das mais variadas formas e nos mais distintos contextos.

São povos marcados, ainda hoje, pelo esforço de sobrevivência, do qual surgiram laços de solidariedade, espiritualidade e de pertencimento coletivo que fez, na Chapada baiana do livro e em todo o Brasil, aflorar a etnicidade do povo quilombola, em uma construção tão afetuosamente descrita pelo autor.

Mas, essa obra ficcional revela um processo que é real e está na pesquisa “Os cadeados não se abriram de primeira”, que trata dos processos de construção identitária e a configuração do território de comunidades quilombolas do Andirá, da pesquisadora Maria Magela Mafra de Andrade Ranciaro. A tese será em breve publicada pela Valer Editora, sob o título: “Quilombos do Andirá: das travas à abertura dos cadeados”.

O leitor poderá compreender a formação das comunidades quilombolas de Santa Tereza do Matupiri, Boa Fé, Ituquara, São Pedro e Trindade, localizadas no Rio Andirá, município de Barreirinha, no Baixo Amazonas.

Sua pesquisa revela os caminhos da liderança quilombola Maria Amélia dos Santos Castro, que, assim como as irmãs Belonisia e Bibiana, teimou ao destino imposto. Maria Amélia ergueu-se para presidir, por quase quatro anos, a Federação das Organizações Quilombolas do Município de Barreirinha (FOQMB) e foi a protagonista do que ela própria chama de “libertação do meu povo”. Qualquer conversa com Maria Amélia nos contagia pela naturalidade com que narra a força mobilizadora de seus irmãos na luta rumo à conquista de direitos territoriais.

A Cenarium+Ciência traz para o seu leitor uma pesquisa que mostra comunidades quilombolas que guardam semelhança com a Água Negra de Torto Arado, principalmente quando o escritor descreve a experiência da usurpação do território e das variadas violências, repetidas com a anuência dos poderes públicos e replicadas ainda hoje.

Com suas águas, o Rio Andirá é o refúgio de descendentes de ex-escravos que transformaram a região em lar (Foto: acervo pessoal)

O leitor poderá observar que as comunidades de quilombolas se constituíram a partir de uma grande diversidade de processos, que incluem as fugas com ocupação de terras livres e geralmente isoladas, mas também as heranças, doações, recebimento de terras como pagamento de serviços prestados ao Estado.

A simples permanência nas terras que ocupavam e cultivavam no interior das grandes propriedades, bem como a compra de terras, tanto durante a vigência do sistema escravocrata quanto após a sua extinção também formaram essas comunidades quilombolas, como bem retrata o romance e como demonstra a pesquisa científica feita com rigorosos padrões metodológicos e que garantiram à autora o título de doutora em Antropologia Social, pela Universidade Federal do Amazonas.

*Daniel Viegas é pesquisador no projeto Nova Cartografia da Amazônia, advogado, procurador do Estado do Amazonas e doutor em Direito

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