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26 de janeiro de 2022
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Rômulo D’Castro – Da Cenarium

MANAUS – Os R$ 19 bilhões, com mais de 70% financiados pelo BNDES com dinheiro público, foram por água abaixo. Belo Monte se afoga em problemas que o próprio projeto criou. Localizada nos leitos do rio Xingu, no sudoeste do Pará, a maior usina hidrelétrica do País seria, também, a maior responsável pelas mazelas que a região enfrenta. Antônia Melo, ativista premiada em 2017, nos Estados Unidos, por se dedicar à luta contra barragens no Xingu, classifica Belo Monte como “erro criminoso”. É uma referência aos impactos que a usina causou. “Essa usina matou o rio Xingu. Ele não corre mais, não tem peixe, é um crime sem dimensões”, acusa a ex-professora que sempre defendeu a região.

Com a promessa de fornecer energia elétrica para 18 milhões de residências, beneficiando 60 milhões de brasileiros, Belo Monte está longe de cumprir o papel que lhe foi incubido. Atualmente, apenas uma das 18 turbinas principais está em operação. Por causa da seca enfrentada em diversos estados brasileiros, o nível dos rios baixou consideravelmente. Responsável por “alimentar” a usina, o Xingu registra estiagem recorde. Sem água suficiente, a gigante produtora de energia elétrica se reduz à insignificância, como aponta a doutora em ecologia e professora da Universidade Federal do Pará, Tatiana Pereira.

“É injustificável para o tamanho da obra. Alguma coisa está errada”. E completa “mas isso [a baixa produção] já era previsto. Estamos em uma região onde durante parte do ano os rios secam, era previsto que a usina teria essa dificuldade”.

Com apenas uma turbina funcionando das 18 principais que compõem o complexo de barragens, Belo Monte tem gerado, desde o início de agosto deste ano, cerca de 300 megawatts, o que representa só 3% dos 11 mil megawatts prometidos. Ou seja, a energia que sai da maior usina hidrelétrica totalmente brasileira não tem conseguido chegar sequer a três milhões de brasileiros. Com isso, o governo federal teve de acionar o sistema de usinas termelétricas, que são mais poluentes e mais caras. Como resultado, a conta aumentou para R$ 14,20 por cada 100 KWH consumidos.

O modelo da usina Belo Monte tem características idênticas ao de Balbina, construído no rio Uatumã, interior do Amazonas. Ambas tiveram barragens erguidas em rios caudalosos considerados importantes reservatórios naturais. O que ocorre atualmente com a usina paraense é verificado há anos por especialistas do ramo em Balbina. Projetada para produzir 25 mil megawatts de energia, as cinco turbinas que ainda hoje compõem a barragem principal, não conseguiram gerar nem 250 megawatts.

Produção mísera para danos de proporções gigantescas. Balbina inundou mais de dois mil e trezentos quilômetros quadrados de terra, além de ter forçado a remoção de povos tradicionais da etnia Waimiri-Atroari de uma área de dois mil e novecentos quilômetros quadrados. Ainda como consequência, milhares de animais foram retirados da floresta e um ‘cemitério’ de árvores que morreram afogadas em áreas alagadas, se formou. Os impactos são, até hoje, tidos como preocupantes. Amazonino Mendes, governador do Amazonas na época em que a usina foi inaugurada, chamou a obra de “erro irreparável”. 

A usina hidrelétrica de Balbina, no Amazonas, matou milhares de árvores. (Reprodução)

Pouco mais de três décadas após a inauguração, a Usina Hidrelétrica de Balbina é o exemplo mais significativo para a região Norte do País. Incontáveis falhas no projeto, o que inclui o fato de engenheiros terem ignorado o comportamento peculiar do rio Uatumã, calmo, de poucas corredeiras, a obra, segundo especialistas, foi responsável por um dos maiores caos ambientais do planeta, além de ter alterado a rotina e os costumes de ribeirinhos e indígenas.

“Esse modelo está ultrapassado, da década de 70”, explica a doutora em ecologia Tatiana Pereira. A professora da Universidade Federal do Pará usa Balbina como sinal para onde pode estar caminhando Belo Monte, no rio Xingu. “O que aconteceu com Balbina pode acontecer com qualquer hidrelétrica construída no Brasil. Precisamos mudar a forma de gerar energia”.

Para a ativista Antônia Melo, além de não ter gerado energia suficiente, Belo Monte não impactou apenas o rio Xingu, mas foi responsável por uma série de problemas, especialmente, nos três municípios atingidos diretamente pela empreendimento: Brasil Novo, Vitória do Xingu e Altamira, este último figurou em 2015 como cidade mais violenta do País. E em recente levantamento, o Atlas da Violência mostrou que Altamira continua entre os municípios brasileiros com mais ocorrências de homicídios. “De belo não tem nada. ‘Belo Monstro’ [como ela chama] violentou nossa cidade, nossa gente”, desabafa a cearense que se mudou para a região na década de 50.

Antônia Melo durante protesto contra Belo Monte, em 2015. (Reprodução)

Explicação da empresa

A Norte Energia, empresa privada, concessionária da UHE Belo Monte, informa que no período úmido (chuvoso) o complexo Belo Monte – composto pelas 18 unidades geradoras da UHE Belo Monte, num total de 11.000 MW, e mais seis unidades geradoras da UHE Pimental, num total de 233 MW – opera com a sua capacidade máxima instalada, de 11.233,1 MW.

Este é o volume de energia gerada com a operação de todas as turbinas a carga máxima, e seguindo sempre a orientação do Operador Nacional do Sistema (ONS), responsável pelo despacho de geração das usinas.

Por ser uma usina com reservatório do tipo fio d’água, ou seja, não possui capacidade de guardar água, no período seco (junho a novembro) a capacidade de geração da usina é reduzida – situação já prevista ainda na concepção do projeto – gerando em média 300 MW com uma turbina em funcionamento, desde 4 de agosto de 2021.

Questionada sobre degradação ambiental causada, a empresa informou que as medidas mitigatórias e compensatórias previstas no licenciamento ambiental do empreendimento vêm sendo rigorosamente cumpridas pela Norte Energia, por meio de planos, programas e projetos socioambientais que representam, até o momento, mais de R$ 6,3 bilhões em investimentos. Recentemente a Norte Energia firmou um Termo de Compromisso com o Ibama no qual um conjunto de ações e medidas mitigatórias, todas objeto das condicionantes ambientais, tiveram seu cronograma readequado para melhor potencializar as ações já previstas