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17 de novembro de 2021
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Com informações do Estadão

RIO – Os únicos documentos do período colonial escritos por indígenas em tupi antigo foram, finalmente, traduzidos para o português. A tradução veio mais de um século depois de os textos terem sido descobertos por pesquisadores brasileiros na Real Biblioteca de Haia, na Holanda. São seis cartas trocadas entre potiguaras que lutaram em lados opostos na Insurreição Pernambucana (1645-1654), que trazem informações sobre negociações para uma eventual rendição, além de outros detalhes da disputa entre portugueses católicos e holandeses calvinistas pelo monopólio do comércio de açúcar no Nordeste.

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Carta de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 19 de agosto de 1645 (Real Biblioteca de Haia/ Eduardo Navarro-USP)

A tradução foi feita por Eduardo Navarro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Ele é especialista em tupi antigo e em literatura do Brasil colonial. O pesquisador precisou organizar um dicionário de tupi antigo, que não existia, para decifrar os textos. As cartas faziam parte do arquivo da Companhia das Índias Ocidentais. A organização de mercadores holandeses foi responsável pela invasão de Pernambuco em 1630. São os primeiros e únicos documentos escritos pelos próprios indígenas em tupi até a Independência do Brasil.

“São os primeiros e únicos documentos escritos pelos próprios indígenas em tupi até a Independência do Brasil”, afirmou Navarro. “É muito raro ter algo escrito pelos indígenas que tenha sido preservado. Esse é o verdadeiro valor dessas cartas.”

A história por trás das cartas remonta a 1625. Foi quando mercadores holandeses tentaram invadir Salvador, então capital da colônia portuguesa. Foram rapidamente derrotados. Na volta, um grupo de indígenas potiguaras foi levado pelos holandeses ao País europeu. Entre eles, estavam dois jovens caciques, Pedro Poti e Antonio Paraopeba. Durante os cinco anos que passaram no exterior, os dois foram alfabetizados em holandês e se converteram ao protestantismo.

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Carta de Felipe Camarão a Antônio Paraupaba, de 4 de outubro de 1645 (Real Biblioteca de Haia/Eduardo Navarro-USP)

Àquela altura, 1630, a Companhia das Índias Ocidentais decidiu fazer nova invasão do Nordeste. Dessa vez, os holandeses vieram com mais de sete mil homens e uma esquadra de 67 navios – a maior já vista na colônia. Conseguiram bloquear o litoral e tomar Recife e Olinda. Ali ficariam pelos 24 anos seguintes. Poti e Paraopeba voltaram ao Brasil com os holandeses.

“Os holandeses trouxeram um administrador muito bom, Maurício de Nassau, que modernizou Recife, fez obras importantes, e, sobretudo, manteve um ambiente de tolerância religiosa entre católicos e protestantes e até mesmo entre cristãos e judeus”, contou Navarro. O pesquisador lembrou que, na época, seguidores de qualquer religião que não fosse o catolicismo eram considerados hereges pelos portugueses.

Além disso, segundo Navarro, Nassau conseguia manter em equilíbrio as tensas relações entre a Companhia das Índias Ocidentais e os senhores de engenho local. Em 1644, no entanto, o administrador voltou para a Holanda. Diante da cobrança insistente de dívidas, os produtores de cana de açúcar começaram a conspirar com os portugueses pela expulsão dos holandeses. Uma matança de católicos perpetrada por protestantes dentro de uma igreja foi o estopim que levou à Insurreição Pernambucana.

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Carta de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 4 de outubro de 1645 (Real Biblioteca de Haia/Eduardo Navarro-USP)

O conflito dividiu os potiguaras. Sob a liderança de Filipe Camarão, líder indígena e militar, parte deles ficou do lado dos católicos portugueses. Poti e Paraopeba, por sua vez, arregimentaram indígenas para lutar com os protestantes holandeses. Nas cartas traduzidas por Navarro, Camarão tenta convencer Poti a se render. Apela para o parentesco entre os dois e para as tradições dos índios. As seis cartas são de 1645. A primeira é de agosto, e a última, de outubro.

Nas mensagens  a Poti e Paraopeba, Camarão pede que eles abandonem os holandeses. Alega que os invasores eram “hereges”, que viviam “no fogo do diabo”. Camarão argumenta ainda que os indígenas deveriam se unir, pois eram do mesmo sangue, e não podiam lutar uns contra os outros. Apela ainda para que suas “antigas tradições” fossem restauradas.

As cartas escritas por Poti nunca foram encontradas. Mas há um resumo de sua resposta feita por um pastor holandês. O cacique teria respondido que não poderia lutar ao lado dos portugueses, que escravizaram e mataram indígenas. Os textos trazem informações sobre batalhas, locais de confrontos e os nomes de caciques que morreram na guerra.

“Filipe Camarão pediu a Poti e Paraopeba que deixassem o campo holandês e voltassem para o lado dos portugueses”, conta Navarro. “Ele garante que os indígenas seriam perdoados porque eram considerados irmãos. Mas se resistissem, seriam mortos.” Poti foi morto pelos portugueses. Paraopeba conseguiu sobreviver e foi para a Holanda.

Outro aspecto importante das cartas, segundo Navarro, é que, por terem sido escritas pelos indígenas, é possível constatar como o tupi era efetivamente falado pelos potiguaras. E elas comprovam que a língua foi descrita corretamente pelos jesuítas, que a utilizavam na catequese, e não adaptada a seus interesses como muitos chegaram a suspeitar. “Essas cartas comprovam que os missionários escreveram exatamente aquilo que os indígenas falavam”, constatou Navarro.

Foram os jesuítas que descreveram pela primeira vez a estrutura do tupi. O padre José de Anchieta é considerado o primeiro gramático da língua. Até então, o idioma não tinha representação escrita, era apenas oral. Entre os séculos XVI e XVII o tupi era a língua mais falada no Brasil, tanto pelos europeus quanto pelos africanos escravizados. O português era usado nas relações com a coroa portuguesa. O tupi foi proibido na colônia em 1758 pelo Marquês de Pombal.

As cartas foram descobertas na Holanda em 1885 pelo historiador José Hygino Duarte Pereira. O engenheiro Teodoro Sampaio, especialista em tupi, tentou traduzi-las sem sucesso. Uma nova tentativa infrutífera de tradução só foi feita nos anos 1990. Na ocasião, o professor Aryon Rodrigues, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), começou a estudá-las e as apresentou a Navarro.

“Percebi que ninguém conseguia traduzi-las porque não havia um dicionário de tupi antigo”, explica Navarro. “Tive de elaborar um dicionário para depois traduzir as cartas. Em 2013 foi lançado o Dicionário de Tupi Antigo: a Língua Indígena Clássica do Brasil. Desde 2014, ainda que de forma intermitente, o professor trabalhou na tradução das cartas.

‘Achado muito forte para meu povo’, diz potiguara

Descendente de Pedro Poti e Antonio Paraopeba, Pedro Ka’aguassu Potiguara vive na mesma aldeia, no litoral da Paraíba, de onde partiram os dois indígenas em 1625. Os potiguaras são o único povo originário que permaneceu ininterruptamente na costa brasileira após a chegada dos portugueses. Lá estão até hoje. São 20 mil indivíduos, divididos em 32 aldeias nos atuais municípios de Baía da Traição, Marcação e Rio Preto.

“Essas cartas são um achado muito forte para o meu povo”, conta Ka’aguassu. “Elas mostram que no século XVII o nosso povo potiguara se comunicava na própria língua, embora Camarão tenha sido alfabetizado em português e Poti em holandês. Somos o primeiro povo a escrever em nossa própria língua há 400 anos e isso fortalece a nossa identidade.”

As cartas foram apresentadas a Ka’aguassu pelo professor da USP Eduardo Navarro, que conseguiu traduzi-las. “Quando li as cartas senti que estava revisitando a memória dos meus ancestrais”, afirma o líder potiguara. “Foi como se eu estivesse dialogando com Pedro Poti, Antonio Paraopeba e Filipe Camarão, na tradição da nossa cosmologia indígena de estarmos sempre ligados a nossos ancestrais.”

Por isso, explica, ele pretende liderar um movimento para trazer as cartas para o Brasil.“Faço um apelo para que nos devolvam as cartas, para que elas possam estar aqui perto de nós, que tenhamos acesso a elas”, diz. “Elas nos pertencem, foram escritas por nossos parentes que lutaram com bravura para que hoje pudéssemos ainda estar aqui, falando pelo nosso povo.”

Trechos da Carta de Felipe Camarão a Pedro Poti, escrita no dia 19 de agosto de 1645

Por que faço guerra com gente de nosso sangue, se vocês são os verdadeiros habitantes desta terra? Será que falta compaixão para com nossa gente? Ora, já duas vezes em luta? Os maus índios potiguaras que lutavam conosco morreram todos em Serinhaém. Todos os que ajudavam os homens maus morreram na batalha ontem, lamentavelmente. Os que lutaram com os holandeses para sua própria desonra, todos eles morreram por nossas mãos.

(…)

Ontem prendemos mais quatro chefes e toda a sua família em que confiavam. Capturamos a metade dos quatrocentos subordinados deles. Alguns morreram com eles por nossas mãos. Morreu o capitão André de Souza Biobi, o capitão Mateus Monteiro, o capitão Gaspar Ijibaquajiribã e também todos os seus melhores subordinados.

(…)

Não pensem que se poupa a vida dos potiguaras, da gente nossa, por esses terem sido feitos chefes. Não pensem que os holandeses livram vocês de nós. Somente a vida deles é poupada. E por que, se eles são estrangeiros?

Trechos da carta de Felipe Camarão a Antônio Paraupaba, de 4 de outubro de 1645

Envio-lhe estas minhas palavras, estando como seu verdadeiro pai, na verdade. Será que isto é contra a sua vontade? Por quê? Estando eu como seu verdadeiro pai, não quero sua morte sem sentido, como se você fosse aquele animal que não conhece a Deus.

(…)

Os velhos índios, segundo eles mesmos, acham que matar os potiguaras aliados dos holandeses é uma chacina. 

Esses próprios holandeses é que nos obrigaram a fazer essa lei e, então, nós estamos buscando que você não se desgrace. Vamos, mostre que você não me repudia como esses homens ruins, estando na terra deles!

Eu vou para Paraguaçu, buscando aquela nossa futura morada. Eu não posso fazer desaparecer de nós mesmos as tradições do meu falecido pai. Portanto, retire nossos parentes dos homens maus e venham para diante de mim. Não tenham medo de mim.

Trechos da carta de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 4 de outubro de 1645

Envio-lhe estas minhas palavras novamente, sendo seu verdadeiro parente. Você vai mandar matar novamente, como sempre faz, o que leva esta minha carta até você? Que você mandou matar o outro, isso eu já sei.

(…)

Envio-lhe agora seu irmão mais velho, o Capitão Diogo da Costa, para levar minha carta. Mando para aí também seu irmão mais novo, o Sargento-Mor Dom Diogo Pinheiro, para apoiar vocês.

(…)

Assim, antes de você sair, faça seu irmão ficar bem, deixando-o são e salvo. Portanto, traga seu avô, o velho Araruna, seu pai Jaguarari, todos os outros parentes nossos, fazendo-os sair com você daí. Se você fizer isso para El Rey, será uma ação muito grandiosa da sua parte.

(…)

Eu vou para Paraguaçu, buscando aquela nossa futura morada. Eu não posso fazer desaparecer de nós mesmos as tradições do meu falecido pai. Portanto, retire nossos parentes para longe dos holandeses e venham para diante de mim. Não tenham medo de mim.

(…)

Nossas antigas terras, nossos velhos ritos, nossos parentes paraibanos, os de Cupaguaó, os de Uruburema, os de Jareroí, os de Guiratiamim, todos os antigos filhos dos habitantes da caatinga, tudo e todos estão sob as leis dos insensatos holandeses, assim como seu corpo e sua alma também estão.

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