21 de outubro de 2020

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O segredo está no “como” e não no “o quê”. Nesse princípio discursivo aparentemente tão complexo, mas de uma simplicidade acaciana, como diria o velho Machado de Assis, está o processo de criatividade naquilo que se pretende escrever para atiçar o sentimento de um leitor.

Não à toa, a escritora Lygia Fagundes Telles, do alto de seus mais de noventa anos de vida e de suas tantas décadas de encontros e desencontros com as palavras, nos lembra que:

“O retrato de uma árvore é o retrato de uma árvore. Contudo, se a gente sentir que há alguém atrás dessa árvore, que detrás dela alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer, se a gente sentir, intuir que na aparente imobilidade está a vida palpitando no chão de insetos, ervas – então esse será um retrato inesquecível”.

Perceberam? A questão não é a árvore, não é o objeto visível em si, mas a perspectiva particular e rica em possibilidades com que se capta esse objeto. Ou seja, não é “o que dizer” com as palavras, mas “o como dizer” com as palavras. Neste sentido, revisitando as páginas de meu livro “100 dias de quarentena – no tempo em que a vida parou”, encontrei a seguinte frase:

“Lá fora o dia se entrega em beleza. E, de longe, invisível como o coronavírus, mas alegre e esperançoso como um novo amanhecer, o canto solitário de um passarinho atravessa a rua e invade o apartamento”.

Se é que essa frase causa algum encantamento em quem a lê, esse encantamento não é provocado pelas palavras, todas simples e cotidianas: “dia, beleza, coronavírus, amanhecer, passarinho, rua…” A raiz desse encantamento, isso sim, está na forma com que essas palavras foram trabalhadas e arquitetadas. Em outros termos, a grande diferença não está nas palavras em si, mas nos arranjos feitos com elas, de tal a modo a transmitir algum encantamento. Voltando ao exemplo de Lygia, o segredo não está em descrever factualmente a árvore, isso seria um relatório no campo da botânica, mas ver muito além dela. Ou, como disse Victor Hugo, “ver nas coisas além das coisas”, nos moldes desses versos de Astrid Cabral:

            “Quem poderia dizer

            por que atravessaste o rio

            quando na margem de cá

            havia frondes e sombras

            flores em todo esplendor”.

Em meio a cinco versos que reúnem palavras simples de todos conhecidas, a sensibilidade de Astrid consegue um arranjo tão extraordinário entre elas, que acaba por projetar no sentimento do leitor uma gama de sentidos metafóricos que certamente o conduzem a um território poético  dramático que se situa muito além e aquém das simples palavras.

Se não compliquei muito o meio de campo, é isso que eu quero dizer quando lembro, neste breve texto, que o segredo está no “como” e não no “o quê”. Para isso, não custa pedir ajuda ao poeta americano Walt Whitman em seu Carpe Diem, texto rememorado no memorável filme “Sociedade dos poetas mortos”: “Valoriza a beleza das coisas simples, pode-se fazer poesia bela sobre as pequenas coisas”.

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