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22 de outubro de 2021
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     Aposto que sim. Há tempos eles já deveriam se exibir todos os dias naquele mesmo lugar. Eu é que ainda não os havia notado. Sem nos darmos conta, a vida nos impõe rigorosas rotinas diárias. Assim como se fôssemos animais domesticados para cumprir apenas determinadas tarefas. Vemos o que fomos programados para ver. Ouvimos o que fomos programados para ouvir. Sentimos o que fomos programados para sentir. Com isso, deixamos de ver, ouvir e sentir um monte de outras coisas que habitam o dia a dia em redor de nossa existência. Daí a minha certeza de que já era habitual a presença deles ali em frente à nossa janela. Eu é que não tinha percebido.

     Bem a propósito disso, pesco na memória uma curiosa lembrança. Já faz algum tempo. Tive que me submeter a uma cirurgia corretiva de miopia. Já em casa, o que fazer diante das recomendações do doutor? Descanse seus olhos. Evite claridade. Nada de celular. Nada de televisão. Nem pense em leitura pelos próximos dias. Este último lembrete quase me leva ao desespero. O que pode restar a um ser humano se lhe roubam a possibilidade de ler?

 Baixada a poeira daquele momento, acomodei-me no quarto em penumbra. A cabeça fervilhava de inquietação. Como me ocupar? Depois de conseguir um pouco de serenidade, recolhi o impasse à gaveta mais próxima e comecei a sacudir meu espírito de sobrevivência. Elementar, meu caro Watson! Não podia ver, mas podia ouvir e sentir! E o que é ouvir e sentir, senão extraordinárias formas de leitura? E foi assim que, por linhas tortas, confirmei naqueles dias de penumbra que eu estava programado apenas para ouvir, mas não para escutar. Foi aí que, com o fone colado aos ouvidos, acabei por esquecer que, por algum tempo, eu não podia ver. Mais que isso: descobri maravilhado, no rastro da inspiração de Fernando Pessoa, que escutar e sentir é preciso, ouvir não é preciso. E viajei deslumbrado a escutar e sentir os acordes da Primavera de Vivaldi. Incrível o diálogo entre os diferentes instrumentos da orquestra. Fascinante a harmonia entre os acordes, a demonstrar que, por mais específico que seja o papel de cada instrumento, todos estão solidariamente a serviço de um objetivo comum: a beleza da música.

     Nessas alturas, vocês já devem estar se coçando de ansiedade para saber quem são “eles” a que eu me referi no início desta conversa. Pois bem, eu conto. Foi durante a onda mais forte da pandemia cá em terras de Pessoa. Nos meus 100 dias de quarentena recolhido aos 90 metros aqui do apartamento. Todo santo dia, no final da manhã e no final da tarde, eu ficava absorto na direção da janela que me ligava ao mundo lá fora. Até que num certo dia me caiu a ficha. Notei que havia três passarinhos, desses bem miudinhos, que batiam ponto religiosamente nos dois horários. Pousavam na beirada do telhado da casa em frente ao nosso prédio. Ficavam um ao lado do outro. E não tinham a mínima pressa em deixar o local. Alternavam de lugares entre si. Faziam algazarra. Davam cambalhotas. Abriam e fechavam as asinhas. Simulavam voos de partida por pura molecagem, pois voltavam ao mesmo lugar. Cutucavam-se fazendo cócegas um no outro. Davam saltinhos de pura peraltice. Faziam travessuras na beirada do telhado da casa. Faziam de conta que iam se despencar lá de cima. Pura lorota. Cochichavam um no ouvido do outro. E, tenho quase certeza, riam desbragadamente. Não sei se das próprias presepadas ou da minha cara de bobo diante daquela situação inusitada.

      Pois se deu com o tempo que aqueles nossos encontros, antes esporádicos e descompromissados, se tornaram diários. Religiosamente diários. Antes da chegada dos danadinhos, lá estava eu. Inquieto e ansioso, inventava qualquer pretexto para me desobrigar de outros afazeres. Lá pelas tantas e sem que eu tivesse percebido, quando dei por mim os horários e os nomes dos três já estavam registrados em uma improvisada agenda que mantenho sobre a mesa de trabalho. Isso mesmo! Depois de algum tempo eu achei que seria justo e louvável atribuir nome a cada um deles. Lembrei-me então dos sobrinhos do pato Donald e passei a chamá-los de Huguinho, Zezinho e Luisinho. E a minha impressão foi de que eles gostaram da ideia. Nesse dia, lembro-me bem, estava um final de tarde bonito, com o céu azul marejado de nuvens brancas. Antes de tomarem o rumo de casa, os três peraltinhas deram uma espalhafatosa revoada em frente à minha janela. Entendi como uma forma de gratidão por termos consagrado aquela amizade.

     O tempo passou e o vírus nos impôs a necessidade de esticar a quarentena. Huguinho, Zezinho e Luisinho passaram a ser interlocutores da mais alta confiança naqueles tempos de isolamento, medo e tristeza. Travávamos longas e demoradas conversas. Confidenciava a eles sonhos e histórias de vida vividas antes da pandemia. E as histórias que eles me confidenciavam eram sempre embaladas pelo espírito de liberdade de seus voos. Livres para voar pelo mundo e livres das preocupações que me afligiam, eles me passavam doses diárias de esperança, conforto e resignação, tudo de que eu precisava para vencer aqueles tempos de solidão.

     O certo é que eu acabei apresentando Huguinho, Zezinho e Luisinho à minha mulher e ao meu filho. Eles passaram então a ser tratados como gente da família. De longe, nos acompanhavam atentos sempre que nos reuníamos para o café da manhã. Pelos cochichos e pulinhos no telhado da casa em frente, sabiam, tenho certeza, que eram o assunto predileto naqueles nossos momentos. Cheguei a esticar a história para o meu neto, o Victor. Em uma de suas visitas após o período de quarentena, depois de me dar um abraço daqueles cuja intensidade só avós e netos conhecem, perguntou-me cheio de curiosidade: “Vovô, e aqueles passarinhos que são teus amigos?”

     Andei contando essa história para algumas pessoas amigas. Claro que não acreditaram. Em geral deixavam escapar um risinho de descrédito no canto da boca e diziam que o isolamento por conta da pandemia tinha feito muita gente pirar. Convicto da minha verdade, eu não insistia na história. Ô gente incrédula nas coisas mais simples do mundo. Mal sabe que Huguinho, Zezinho e Luisinho sempre estiveram ali e eu sempre os via. Mas não os enxergava. Nem os entendia.

(*) Odenildo Sena é linguista, com mestrado e doutorado em Linguística Aplicada e tem interesses nas áreas do discurso e da produção escrita.

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