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16 de novembro de 2021
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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – O Dia Mundial do Hip-Hop é celebrado nesta sexta-feira, 12. O movimento cultural que surgiu na década de 1970 no Bronx, um famoso gueto de Nova Iorque, se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil em meados dos anos 1980, fomentando a organização de vários grupos influenciados por uma gama de estilos musicais como o Blues, Funk e Reggae, que serviram de ferramenta para dar voz às minorias.

A cidade de São Paulo foi um dos principais centros receptores do estilo. Com o passar do tempo, o movimento foi ganhando espaço em outros Estados do País. Em Manaus, é possível encontrar pessoas engajadas e conhecidas na cena do Hip-Hop local, como é o caso da amazonense Cida Raper. Com quase 20 anos de carreira, a rapper, que incentiva a participação feminina na expressão cultural, afirma que a celebração da data tem um significado a mais para ela.

“Cada vez que o Hip-Hop completa mais um ano de vida, eu faço essa reflexão, pois estou inserida nessa cultura e renasço junto. Estou prestes a completar 20 anos de carreira dentro do movimento, sendo uma das pioneiras a levantar a bandeira dos direitos das mulheres dentro do Hip-Hop, mais precisamente no Rap”, comemora Cida.

Viver o Hip-Hop

No olhar de Cida Raper, viver o Hip-Hop é viver, na prática, o respeito. Filha única de uma relação inter-racial de pai branco amazonense com descendência portuguesa e mãe amazonense com raízes indígenas do Povo Kokama, Cida compara os quatro elementos do Hip-Hop (Rap, Breaking, Dj e Graffiti) com os quatro elementos da natureza (terra, fogo, água e ar).

“Viver o Hip-Hop é ter família dentro de casa e na rua, com parceria nos trabalhos, ajudando a comunidade e, principalmente, com responsabilidade social, que a expressão vem ensinando a sociedade a ter. Tudo isso na sutileza dos eventos, das músicas, da dança, das batidas e dos coloridos, despertando para uma consciência política, porque o Hip-Hop é revolução, é reconhecer e lutar pelos direitos de todos”, explica Cida.

Despertar

Cida Raper é uma das mulheres pioneiras no movimento, no Amazonas. (Reprodução/Arquivo Pessoal)

A raper, que integrou o Fórum Permanente das Mulheres de Manaus representando a cultura Hip-Hop, conta que, ao compreender as mensagens repassadas pelo estilo musical, despertou um novo olhar sobre si, o qual considera um “divisor de águas” na própria vida.

” A partir daí, comecei a entender quem eu era na sociedade quanto mulher periférica e entender que várias vezes fui silenciada e sofri preconceito por ser mulher, mas também passei a entender que somos a maior parte da população. Entender meus direitos, ocupar espaços, a luta e apoiar as causas feministas, foi o Hip-Hop que me possibilitou isso”, ressalta.

Apoio local

Em Manaus, para celebrar a data, acontece, nesta sexta-feira, a segunda edição do Festival Cultura Urbana, uma iniciativa do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC). Até as 21h, ocorrerão, na Pista de Skate do Parque São José, no bairro São José, Zona Leste, atividades como batalhas de break dance, all style, além da presença do grupo Holograma e Kurt Sutil, do coletivo Aposse92.

Em entrevista à CENARIUM, o secretário de Estado de Cultura do Amazonas, Marcos Apolo Muniz, afirmou que o festival faz parte do programa +Cultura, um pacote de ações voltadas à Cultura e à Economia Criativa. Ainda sobre o apoio às manifestações culturais urbanas, Apolo ressalta que a agenda é fruto de conversa entre secretariado e integrantes do movimento.

“É um case de sucesso. Temos o Festival de Cultura Urbana, que já é muito bem aceito, e também temos os editais para incentivar os trabalhos dessa turma. Além disso, eu, particularmente, visito algumas ações, justamente buscando esse diálogo com a galera, para encontrarmos outros meios que possam ser implementados para valorizar essa expressão cultural”, comenta o secretário.

No Brasil

Ao contrário do Hip-Hop americano que, na maioria das vezes, foca em produções voltadas para luxúria e mulheres, o movimento brasileiro virou porta-voz de críticas às barreiras sociais, raciais, políticas, econômicas, entre outras.

No âmbito internacional, um dos nomes mais importantes é o do DJ jamaicano Kool Herc, mas, com o passar do anos, nomes como Laurin Hill, Queen Latifah, The Fugges e Bone também se tornaram reconhecidos no meio. No Brasil, a partir da década de 1990, artistas do meio foram ocupando espaço e alcançando visibilidade, dentre eles nomes como Racionais MC´s, MV Bill, Sabotage e Facção Central. Artistas como Nacionais Dina di, Luna Rabeti, Sharylaine e Rúbia RPW, Clanordestino e RZO também integram a lista do movimento.

Integrantes do Grupo Sabotage, em 1997. (Reprodução/ Internet)

Expressão cultural

Além de servir como ponto de acolhida, especialmente para a juventude negra se expressar, o Hip-Hop abriu as portas para danças, como a Dança de Rua ou Break Dance. Durante muito tempo vista como uma cultura periférica e violenta, por meio do som, letra e dança, os adeptos do Hip-Hop conseguiram, ao longo do tempo, expor suas reflexões.

“O nosso e, principalmente, o meu máximo respeito ao Hip-Hop, que me ensinou e me levou a vários lugares e desafios que eu superei e que me tornaram essa mulher, professora, rapper, feminista, ativista, radialista, escritora, pesquisadora e, sobretudo, humana”, finaliza Cida Raper.