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16 de novembro de 2021
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Com informações do Infoglobo

SÃO PAULO — O neurocientista carioca Stevens Rehen, professor titular do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto D’Or, é a maior autoridade no País nos estudos sobre os efeitos de psicodélicos e canabinoides no cérebro humano. Suas descobertas, que usam tecnologia de ponta, estão ajudando a desmistificar essas substâncias ao mostrar o impacto positivo no tratamento de doenças psiquiátricas. Em entrevista ao GLOBO, Rehen detalha as descobertas mais fascinantes de seus trabalhos e afirma que em breve teremos o uso de psicodélicos aprovados na psiquiatria mundial.

Como agem os psicodélicos no cérebro? 

Na prática, essas substâncias se ligam aos receptores cerebrais de serotonina [composto associado ao prazer], que estão muito presentes no córtex frontal, que é a área da frente da cabeça e do cérebro. A partir do momento que isso acontece, é como se você estivesse abrindo uma porta e mudando a maneira como os neurônios respondem a determinados estímulos. É por isso que existe a percepção de que quem está sob efeito de psicodélico tem uma leitura diferente do mundo. É como se a pessoa estivesse vendo coisas que não veria normalmente, porque as portas da percepção estão abertas.

De que forma essas substâncias podem ajudar no tratamento de doenças psiquiátricas? 

O cérebro é plástico. Ou seja, ele tem a capacidade de se readaptar e se reconectar e o psicodélico tem a capacidade de induzir essa neuroplasticidade. A hipótese atual para o efeito terapêutico dos psicodélicos está em cima de um afrouxamento de conexões cerebrais rígidas que são formadas em experiências traumáticas, como situações violentas, e a força dessas conexões faz com que essa lembrança seja recorrente na memória. O psicodélico faz como se você voltasse dentro do que chamamos de um período crítico de formação do cérebro. Quando isso está aliado à psicoterapia, é possível refazer algumas conexões. Isso ajuda a reduzir a parte do cérebro ou as conexões que sempre te levam a um pensamento recorrente ligado à depressão, ao trauma, e que travam a sua vida. Isso permite efeitos terapêuticos e melhoras muito marcantes.

Quais são exatamente as substâncias que o senhor está estudando neste momento?

Estamos explorando os efeitos da ayahuasca, do LSD e da psilocibina [substância psicoativa dos cogumelos]. Utilizamos sistemas celulares para identificar quais genes e proteínas são alterados por essas substâncias. Também estudo os canabinoides [compostos da Cannabis]. Com eles vamos começar um estudo sobre o efeito na Síndrome de Dravet, uma epilepsia infantil grave. Sabemos que os canabinoides são capazes de reduzir as crises nessas crianças. O que queremos saber agora é quais são os canabinoides que de fato têm um efeito de redução na crise epiléptica e, dessa forma, tentar chegar em uma medicina extremamente personalizada para cada paciente.

O que já foi descoberto?

Acabamos de publicar um trabalho mostrando o efeito anti-inflamatório de canabinoides sintéticos em tecido cardíaco infectado com SARS-CoV-2. Nos estudos com a ayahuasca, mostramos um psicodélico presente nela, altera cerca de mil proteínas no cérebro. Todas elas convergiram para alterações ligadas à neuroplasticidade e à redução da inflamação. É um negócio sensacional. Em outro trabalho, avaliamos o efeito da harmina, um outro componente muito presente na ayahuasca. Descobrimos que a harmina tem efeito direto sobre o cérebro. Ela bloqueia uma enzima chamada DYRK1A, que é um marcador de Alzheimer. Essa enzima também está muito ativa em pessoas com Síndrome de Down. Também vimos que a harmina aumenta o número de neurônios.

Como os estudos podem ajudar na prática clínica? 

Estamos trabalhando na base de como psicodélicos agem. Desde a década de 1950 há evidências científicas de seus efeitos sobre a neuroplasticidade, auxiliando num tratamento psicoterapeuta em que a pessoa consegue se livrar de um trauma, de uma depressão etc. Mas como exatamente isso funciona? Por que os psicodélicos e os antidepressivos aparentemente têm mecanismos de ação diferentes? Nossos estudos ajudam a responder essas perguntas e isso tem uma importância imensa porque daí podem sair psicodélicos mais customizados, por exemplo, que tenham efeitos mais rápidos ou mais curtos. Outro exemplo é a possibilidade de testar o efeito da combinação de canabinoides e psicodélicos no envelhecimento e em doenças neurodegenerativas.

O uso recreativo dessas drogas traz também os benefícios observados nos estudos? 

Eu acho muito difícil qualquer tipo de comparação nesse contexto porque quando a gente fala de uma substância de uso adulto, que é proibida, a gente está querendo comparar uma substância que é usada dentro do contexto científico, uma substância que sabemos o grau de pureza, com uma substância que é comprada ilegalmente e que certamente ninguém sabe a concentração, muito menos se aquilo que está lá é o que a pessoa acha que comprou. Por exemplo, um levantamento mostrou que na Inglaterra, mais da metade comprimidos de ecstasy não tem MDMA. Então como é que a gente pode discutir sobre uma comparação entre o uso recreativo e o uso medicinal? Não dá para fazer essa comparação.

O senhor acredita que o uso medicinal drogas pode ser aprovado em um prazo curto de tempo? 

Há movimentos nos Estados Unidos na Europa de apoio aos estudos sobre o uso terapêutico desses compostos. Muito provavelmente, a partir do ano que vem, teremos o uso do MDMA como uma substância terapêutica para pessoas com estresse pós-traumático, como veteranos de guerra, pessoas que sofreram violência doméstica e violência sexual. Eles inclusive já estão se organizando para fazer treinamentos de psicoterapeutas associando o uso de psicodélicos. Há um investimento imenso nessa área. A Imperial College tem um grande centro já trabalhando com isso há alguns anos. A Johns Hopkins também. Tem várias áreas que estão avançando nisso. Aqui no Brasil eu tenho o patrocínio da Beckley Foundation, da Amanda Feilding. No ano que vem eu vou para a Usona Institute, nos Estados Unidos, para avançar um pouquinho nessas pesquisas, numa parceria com o instituto. Além disso, tem um boom muito grande de investimento privado. Tem muitas startups e empresas, que inclusive já estão na bolsa de valores, que tem como temática explorar o potencial terapêutico dos psicodélicos clássicos e a criação de outros tantos. Então eu queria enfatizar que há não só um ambiente acadêmico favorável, sendo criado em várias partes do mundo, como um ambiente de empreendedorismo privado que está ajudando também a fazer com que essa área cresça e chegue em um equilíbrio a partir do momento que essas substâncias vão voltar para a área médica e de saúde.

Pode haver resistência da classe médica quando os tratamentos entrarem para a prática?  

Eu acho que isso vai depender da qualidade dos estudos em andamento. Os últimos estudos que saíram sobre psicodélicos foram publicados nas melhores revistas do mundo, na JAMA, na Nature Medicine. Aí entramos em outro desafio, que é a atualização médica.  

Alguns dizem que o uso dessas drogas será um divisor de águas na psiquiatria. O senhor concorda? 

Elas serão em breve uma revolução na psiquiatria. Se não fosse assim, não teríamos tantas instituições centenárias no mundo investindo nisso. Isso acontece pelo próprio hiato que há na psiquiatria sobre novos medicamentos, novos tratamentos. O Prozac, que é um dos mais eficazes até hoje, é de 1987. Outras áreas da medicina, como a oncologia e a cardiologia já tiveram grandes avanços. A psilocibina é muito interessante porque ela parece ter efeito benéfico não só dentro desse contexto da neuroplasticidade e de depressão, mas também em pacientes terminais. O efeito dessas substâncias tem ajudado esses pacientes a lidar com aquele momento e tentar tirar o melhor que eles podem de um momento de vida que tem uma relação com despedida. Mas ao mesmo tempo a gente tem que ter o pé no chão de que muito provavelmente a gente está buscando uma revolução plena e a gente vai chegar em algumas pequenas revoluções. É importante falar que não é uma substância que é para todo mundo. Como a aspirina não é para todo mundo, como o açúcar não é para todo mundo.

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