28 de outubro de 2020

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Bruno Pacheco e Luís Henrique Oliveira – Da Revista Cenarium*

MANAUS – As riquezas da floresta amazônica sempre estiveram sob os olhares dos presidentes das maiores potências mundo afora. E na noite dessa terça-feira, 29, durante o primeiro debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos, a Amazônia e as queimadas no Pantanal entraram nas pautas de Donald Trump e Joe Biden.

Durante o debate, ao criticar a política ambiental do presidente norte-americano, o democrata Joe Biden disse que, se eleito, organizaria doação de 20 bilhões de dólares ao Brasil para proteger as árvores. Após o episódio, ambientalistas e gestores ambientais criticaram a posição dos postulantes ao cargo mais disputado do mundo.

Para o superintendente do Instituto Internacional de Responsabilidade Socioambiental Chico Mendes, José Coutinho, a prática de doações é sempre importante para manter e desenvolver ações que permitam a preservação de qualquer ecossistema, principalmente quando não se tem estrutura de políticas públicas voltadas para essa finalidade, por sua vez, segundo Coutinho, os discursos não estão de acordo com a realidade.

“Não acredito nessa fala do candidato democrata Joe Biden, porém, se acontecer, é meramente por intenção política. As nossas florestas são de interesses do mundo todo, não pelo fato da prestação dos serviços ambientais de carbono entre outros, mas com objetivo de uma política para evitar o crescimento do Brasil com uso dos recursos naturais existentes que podem elevar o País a um patamar diferenciado e influenciar na economia do mundo”, disse Coutinho.

O ambientalista Ricardo Ninuma destacou que toda ajuda financeira para preservação ambiental é bem vinda e que é favorável a qualquer atitude verdadeiramente preservacionista. Para ele, é preciso acabar com a ideia de que aceitar ajuda internacional significa restrições, imposições ou qualquer controle sobre o País. “Não tem nada a ver com soberania. Vivemos todos no mesmo Planeta, convivendo com o ‘efeito borboleta’ diariamente, pontuou.

“A Amazônia é importante para o planeta e sua destruição contribui diretamente na aceleração do acúmulo de gases poluentes na atmosfera, ou seja, aquecimento global. Todos sabemos que o aquecimento global traz sérios danos, alguns irreversíveis ao meio ambiente. A ajuda de US$ 20 bilhões para a região amazônica, se investidos no planejamento para o desenvolvimento da cultura ambiental e preventiva, voltadas à preservação da floresta, terá resultados em curto prazo”, destacou.

Ninuma disse ainda que o Brasil deveria aceitar o valor e compartilhar com todos os países e Estados que compõem a Amazônia Legal. Sobre a declaração do candidato Joe Biden, o ambientalista salientou que é necessário entender que a Amazônia não é somente o Brasil, pois ela compõe outros países como a Bolívia e Guiana Francesa. Segundo ele, a preocupação com a preservação deve ser de todos, a começar pelos brasileiros.

Já o titular da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), Eduardo Taveira, reforçou que seria importante ponderar dois pontos. “O primeiro deles é que, obviamente, um esforço global para apoiar os países na Amazônia – lembrando que a Amazônia não está só no Brasil – para que a gente possa desenvolver atividades econômicas sustentáveis de baixo impacto ambiental, é extremamente importante. Vale lembrar que a maioria desses países, incluindo o Brasil, são países em desenvolvimento econômico, em especial nessas regiões de floresta. É sim necessário esse esforço”.

No entanto, ao entrar no segundo ponto, esse recurso não pode ser pensado de uma maneira imperialista, que ele venha colocar em risco a soberania do País. “Ou seja, eu dou o dinheiro se vocês fizerem da maneira como eu quero. Isso não funciona, não funcionou ao longo do tempo e é um risco que se tem, quando você tem uma intervenção como essa sem entender toda a complexidade que envolve a conservação ambiental e os caminhos que a gente tem para o desenvolvimento sustentável”, explica Taveira.

Segundo Eduardo Taveira, se esse fundo global for para o desenvolvimento de estratégia, matrizes produtivas mais limpas, é muito importante, por outro lado, se for para colocar em risco a soberania da região, ele não vê isso como parte da solução, mas sim, parte do problema. “Vale lembrar que são os países ricos que mais emitem, que são os maiores responsáveis pelas emissões do CO2. Mais do que ajudar a Amazônia, é necessário que esses países também implementem soluções para diminuir as suas próprias soluções”, finaliza.

A ambientalista Aline Gomes, por sua vez, ponderou que a parceria com outros países não significaria que eles passariam a comandar a região e que é preciso que o Brasil admita suas falhas, busque conhecido e passe a agir com maturidade. Aline relembrou que a Amazônia, o Pantanal e todo o ecossistema brasileiro tem sofrido com queimadas, derrubadas, destruição e questionou quando o País deixará de agir de forma infantil e para de “politicagem”.

“Se nos colocarmos no local correto diante de tudo que vem acontecendo, nosso País estaria uma verdadeira potência. O primeiro passo para sermos uma nação forte é admitir suas falhas, buscar conhecimento e agir com parceiros. Ter parceiros não significa que serão donos de nada, apenas usufruirão todos do mesmo ecossistema. Todos nós precisamos de ajuda, ninguém vive sozinho, então, por que nosso País não precisaria de ajuda? Por que viver no negacionismo? Enquanto assim agimos, nós somos os mais prejudicados”, comentou.

Ministro do Meio Ambiente do Brasil reage

Mais cedo, pelas redes sociais, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reagiu nesta quarta-feira, 30, e questionou se o valor seria pago anualmente pelo candidato Joe Biden. Pelo Twitter, Salles se manifestou duas vezes sobre o caso. Inicialmente, compartilhou a reprodução de tela de uma matéria do portal O Antagonista, questionando os valores apresentados pela reportagem.

O ministro afirmou que o valor informado por Biden é 40 vezes maior que o Fundo Amazônia. Em uma segunda publicação, Salles questiona: “a ajuda dos USD 20 Bi do Biden, é por ano?”.

“Brasil é o que mais preserva a Amazônia”

Também pelas redes sociais, no último dia 24, o presidente Jair Bolsonaro disse que se as terras indígenas passassem a ocupar área equivalente a 20% do território nacional, o agronegócio seria “inviabilizado”. Atualmente, 13,8% da extensão do País é reservada a povos indígenas. Ele alegou ainda que a expansão das terras indígenas para 20% do território seria uma vontade de “alguns países do primeiro mundo”.

Após ter rebatido críticas a sua política ambiental no dia 22, em discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU), o presidente voltou a dizer que é acusado de “tocar fogo” na Amazônia e no Pantanal “ou não tomar providências” em relação ao alastramento das queimadas nas duas regiões.

Mesmo com dados alarmantes apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espacieis (Inpe) de que os crimes ambientais estão cada vez mais evidentes no Brasil, Bolsonaro repetiu a fala de que o Brasil seria “o País que mais preserva”.

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