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28 de janeiro de 2022
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Ricardo Oliveira – Da Revista Cenarium

MANAUS – Na região do Purus não há gado e pouco se come carne vermelha. Mas tem peixe grande. É lá que reside o maior deles: o piurarucu (Arapaima gigas), também chamado pelos ribeirinhos de “rei dos rios” de água doce. É preciso fazer uma longa viagem pelas curvas do Purus até seus lagos. Para chegar à morada do grande peixe, temos que furar os varadores mata adentro. O gigante se vê brincando de pular e mostra sua cauda colorida em vermelho chamariz e, ao nos avistar, encabulado, se refugia no capinzal.

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“O pirarucu é um peixe muito esperto. Ele sabe que vai ser capturado e se embrenha no capinzal para não ser pego”, diz Abel Aquino, 67 anos. (Ricardo Oliveira/ CENARIUM)

No período de manejo da pesca, de agosto a novembro, a Associação dos Manejadores da Reserva Piagaçu-Purus (Amepp) realiza as viagens pelas áreas de pesca, e os diversos lagos e paranás são explorados pelos manejadores “setoristas” – cada um tem suas comunidades e sua organização para a grande pesca.

Subindo o rio, a ordem dos setores se dá logo na entrada Cauacuianã, Itapuru, Ayapuá Cabeceira, Arumã, Paraná do Macaco, sendo Supiá Redenção o último. O barco de madeira Promessa de Deus, com forma que lembra um charuto, durante dez dias é a casa da diretoria da Amepp. Vai deslizando por diversos paranás e lagos, até o encontro com os outros manejadores que lá se encontram. No percurso, como “pano de fundo”, a fauna com mergulhões, biguatingas, jacarés, macacos e tantos outros.

A região abriga a reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus (RDS), Unidade de Conservação (UC) do Estado do Amazonas, localizada entre os rios Purus-Madeira e Purus-Juruá, inserida em um mosaico de áreas protegidas de aproximadamente 2 milhões de hectares e criada em 2003, por Decreto 23.723.

São vastas áreas de floresta de terra firme contendo castanhais e uma variedade de ambientes alagáveis de diferentes origens. As ricas várzeas do Solimões e Purus abrangem diversos lagos, que ocupam 44% da reserva. A região tem alta diversidade biológica, elevada produtividade e grande importância econômica proveniente de seus recursos naturais.

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Atualmente, a Amepp conta com 300 manejadores vinculados a associação. “Aqui, procuramos nos fortalecer como categoria”, afirma Antônio Souza, vice-presidente. Segundo ele, os jovens das comunidades procuram a associação em busca de trabalho. “O trabalho do manejo começa logo em janeiro e se estende até o final de cada ano. Nós ensinamos o jovem aprendiz com prática e conhecimento dos mais experientes, que orientam como se realiza a contagem dos peixes”, diz.

Final do dia da grande pesca. A RDS Piagaçu-Purus pode ser considerada um exemplo de coletividade para a subsistência. (Ricardo Oliveira/ CENARIUM)

Souza conta que, tanto na mata quanto nos lagos é comum, às vezes, acontecer acidente com cobras, jacarés ou até mesmo com o peixe elétrico poraquê. “O pirarucu se esconde no capinzal e orientamos o uso de botas e nunca fazer a ação solitariamente. Na mata ninguém pode adentrar sozinho”, acrescenta.

Uma das reinvindicações da Amepp é obter ajuda financeira mensal para os manejadores. “Quando o manejo começa em janeiro é porque já temos que localizar os lagos e realizar a contagem para a grande pesca, que se inicia em meados de agosto. O pescador cai em campo logo no início do ano e deixa a família em casa durante. O manejo evitou a escassez não somente do pirarucu, mas do tambaqui e das tartarugas e tracajás”, explica Souza.

Vigilância

É na base flutuante de vigilância que o barco Promessa de Deus atraca quando adentra o paraná na entrada do setor Cauacuianã – área de pesca com mais de 200 lagos, do qual fazem parte as comunidades do Cauã e Cuianã. O vigilante Leandro Silva, 24 anos, dá boas-vindas: “Eu fico aqui na vigilância, porque nosso trabalho é voltado para conter as invasões dentro do nosso setor”.

Leandro Silva segura espingarda para proteger área. (Ricardo Oliveira/ CENARIUM)

Leandro relata o trabalho em parceria para evitar invasões e conflitos. “Aqui, acontece ataque de invasores, estamos para evitar e também orientar. A gente nunca pode ficar só; como é um trabalho de vigilância, a gente trabalha sete dias por semana, no decorrer de 35 dias de uma vigilância para outra, e, com meu parceiro, vamos um ajudando o outro”.

Ele conta que tinha um sonho: queria ser engenheiro naval. “É um sonho que às vezes a gente coloca no nosso coração e, por falta de condições financeiras, a gente não faz desse sonho uma realidade, mas a gente vai vivendo feliz e, com saúde, a gente vai conquistando nossos objetivos aos poucos”.

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O pescador manejador Francisco Freitas da Silva, 40 anos, conta que, nesses anos de manejo, quando “seca o peixe”, ficam no lago tambaquis, pirarucus e tracajás. Segundo ele, é uma facilidade para o infrator, situação que aumenta a cada ano. “Nós aqui chamamos de invasor, porque tiraram as malhadeiras do nosso povo, usam até nome de facção. Nós somos pais de família, não temos armamento e pedimos ajuda, porque eles chegaram com armas e nós tivemos que entregar”.

Para o pescador Francisco da Silva, 54 anos, o manejo do pirarucu é uma libertação do homem ribeirinho. (Ricardo Oliveira/ CENARIUM)

Francisco conta que eram 12 “invasores” contra nove do pessoal dele. “E disseram que tinham mais 14 em outro canto. Isso fora os que estavam em outros lagos. Eles foram na nossa área de proteção e ninguém sabe quantas tartarugas levaram, e fizeram uma farra lá. Então, a gente, neste momento, fica de mão atadas. O setor pede mais segurança. Daqui a pouco, vamos ter autorização e não vamos ter peixe para tirar. Esses invasores metem medo na gente. Não há polícia. Não tem Forças Armadas. Sós estamos”, lamentou.

“Libertação”

O Paraná do macaco é um complexo de 28 lagos dentro da área de manejo, e são os moradores da comunidade de São Sebastião e São Pedro que, logo nas primeiras horas, se engalfinham – homens e mulheres – nos varadores mata adentro até o grande lago Parí.

Bem mais presentes que nos anos anteriores, as mulheres ficam com a missão de limpar o terreno para levantar as lonas e preparar o fogo para o acampamento de apoio e preparação do almoço. Os homens se dividem para a grande pesca com malhadeiras e canoas a postos. “O pirarucu é um peixe muito esperto. Ele sabe que vai ser capturado e se embrenha no capinzal para não ser pego”, completa Abel Aquino.

Para o pescador Francisco da Silva, o manejo do pirarucu é uma libertação do homem ribeirinho. “Antes, era ilegal a pesca, e tinha uma escassez. O manejo evita que nossos filhos vão para a cidade”.

São esses jovens manejadores que, no final do dia, ficam com a missão de levar nas costas o grande peixe já capturado para o flutuante, onde será limpo e congelado para o transporte até a cidade de Manacapuru e, de lá, para Manaus. A RDS Piagaçu-Purus pode ser considerada um exemplo de coletividade para a subsistência.