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6 de maio de 2021

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Com informações do O Globo

MOSCOU — O presidente Vladimir Putin alertou o Ocidente nesta quarta-feira, 21, a não cruzar as “linhas vermelhas” da Rússia, afirmando que Moscou responderá de modo “assimétrico, rápido e duro” a quaisquer provações. A fala do líder do Kremlin vem em um momento de escalada com o Ocidente, com troca de sanções, expulsões diplomáticas e aumento de atividades militares.

Em paralelo ao discurso anual de Putin sobre o Estado da União, ao menos 102 pessoas foram presas durante manifestações em apoio ao líder opositor Alexei Navalny convocadas para esta quarta. Os atos foram organizados diante da piora do quadro clínico do crítico do Kremlin, que foi transferido para o hospital na segunda após três semanas em greve de fome na prisão.

“Os responsáveis por quaisquer provocações contra nossos interesses de segurança vão se arrepender como há muito não se arrependem”, disse o presidente em sua fala de 83 minutos ao Congresso, em que buscou projetar uma mensagem de força e resistência aos seus desafetos internacionais.

Segundo Putin, a Rússia não quer destruir pontes e prefere o diálogo, mas não terá medo de responder caso perceba ataques e que Moscou determinará caso a caso quais são as linhas que não devem ser cruzadas.

Ele não citou nenhum país, mas se trata de uma resposta velada à intensificação dos enfrentamentos retóricos entre Moscou e o Ocidente em meio ao aumento da presença militar russa perto da fronteira com a Ucrânia e na península da Crimeia, no Mar Negro, anexada pelo Kremlin em 2014, após um governo pró-Ocidente chegar ao poder em Kiev.

“Se alguém confundir nossas boas intenções com indiferença ou fraqueza, e tenha por pretensão destruir ou até explodir essas pontes, eles devem saber que a resposta russa será assimétrica, rápida e dura”, afirmou, comparando o país a um tigre cercado por hienas em um livro do escritor Ruyard Kipling.

O discurso foi bem-vista pelo mercado, com o rublo se valorizando ao fim do discurso, que especialistas temiam que pudesse incluir novas estratégicas mais combativas de política externa. Com eleições parlamentares em cinco meses, Putin dedicou a maior parte de sua fala a assuntos domésticos, como a vacinação contra a Covid-19 e os impactos econômicos da pandemia, prometendo expandir benefícios sociais e maiores investimentos em infraestrutura para melhorar a qualidade de vida.

Tensões internacionais

Putin e seu par americano, Joe Biden, discutem a realização de uma cúpula para aliviar as tensões, mesmo após Washington impor na semana passada uma série de sanções a Moscou. Segundo os americanos, que também expulsaram 10 diplomatas russos, as medidas são uma retaliação ao ataque hacker contra nove agências americanas e mais de 100 presas, às acusações de interferência no pleito que elegeu Biden e ao envenenamento quase fatal de Navalny, entre outras “transgressões”.

Moscou, por sua vez, expulsou 10 diplomatas americanos em Moscou e aplicou sanções — na prática, um veto à entrada no país — a diversos funcionários e ex-funcionários da Casa Branca. O Kremlin também expulsou recentemente 20 diplomatas tchecos, após Praga ordenar a saída imediata de 18 diplomatas russos em resposta ao que afirma ter sido uma participação russa na explosão de um depósito de munições militares em 2014.

Segundo Putin, a pressão sobre o Kremlin se tornou uma “nova forma de esporte”. Ele criticou o que afirma ter sido uma tentativa de golpe na Bielorrússia, onde maciços protestos tomaram as ruas no ano passado contra Alexander Lukashenko, há 26 anos no poder, mesmo diante da duríssima repressão. De acordo com a Rússia, o movimento de oposição agiu em conluio com Washington, o que os americanos negam.

“A prática de organizar golpes, assassinatos políticos, incluindo de figuras da alta cúpula do governo, está indo muito longe”, disse Putin, evocando também o “golpe de Estado” contra o presidente ucraniano Viktor Ianukovich, seu aliado, derrubado por uma mobilização popular que culminou na ascensão do governo pró-Ocidente.

Protestos pró-Navalny

O presidente, no entanto, manteve-se em silêncio sobre Navalny, mesmo com os protestos pela libertação do líder opositor organizados para coincidir com a sua fala. A deterioração do quadro clínico do crítico do Kremlin é um novo ponto de discórdia entre Moscou e o Ocidente, com Washington afirmando que a Rússia “sofrerá consequências”, caso ele morra na prisão.

No fim de semana, os médicos pessoais de Navalny afirmaram que seu quadro clínico é crítico e que ele poderia morrer em pouco tempo, demandando acesso ao paciente. O Kremlin o transferiu a um hospital na segunda, mas não permite o acesso ao líder opositor, e insiste que seu quadro é “satisfatório”.

Mais de 465 mil pessoas confirmaram anonimamente presença para as manifestações convocadas para a noite (tarde, no horário do Brasil) desta quarta, que o Kremlin já havia alertado que não iria tolerar. Até o momento, há relatos de ao menos 100 prisões.

Na antecipação dos protestos, as autoridades já haviam detido Lyubov Sobol, chefe do Fundo Anticorrupção, criado por Navalny, grupo famoso por descobrir e publicar escândalo de corrupção das elites políticas e empresariais russas. Neste mês, a Promotoria de Moscou pediu que o grupo seja declarado uma organização extremista. A porta-voz do líder opositor, Kyra Yarmish, também foi presa.

Navalny sobreviveu a um envenenamento quase fatal no ano passado, que ele e governos ocidentais põe na conta do Kremlin. As acusações são negadas por Moscou, que o mantém preso desde seu retorno à Rússia, em janeiro, após cinco meses se tratando na Alemanha. Ele foi condenado a dois anos e meio de prisão em fevereiro por violar a liberdade condicional em uma sentença antiga por fraude, um processo que denuncia ser politicamente motivado.

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