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18 de janeiro de 2022
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Gabriel Abreu – Da Revista Cenarium

MANAUS – Um resgate da história dos povos indígenas que viviam na capital do Amazonas antes da chegada dos imigrantes portugueses na região. Essa é a proposta do Conselho Municipal de Política Cultural (Concultura) ao anunciar a construção do “Memorial Necrópole Manaus”, na praça Dom Pedro II, no Centro Histórico da cidade.

A definição dos membros da comissão que vão fazer parte do Projeto de Lei (PL), que reconhece a praça como local sagrado para os indígenas, ocorreu nessa terça-feira, 23, em reunião realizada na sede do Concultura, no Centro. O PL será enviado à Câmara Municipal de Manaus (CMM) até sexta-feira, 26, e a expectativa é de que ele seja aprovado por unanimidade.

Cemitério indígena

Quem passa pela praça Dom Pedro II, situada bem no meio do Centro Histórico de Manaus, não imagina que há milhares de anos os povos indígenas enterravam os seus entes nesse local. Pesquisas realizadas na década de 1960/70 pelo arqueólogo alemão Peter Paul Hilbert e o amazonólogo Mário Ypiranga Monteiro, encontraram vestígios de grupos indígenas que datam entre 100 e 800 anos d.C. No subsolo da praça foram resgatadas urnas funerárias e material cultural histórico e foram encaminhados ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O local é reconhecido pelo Iphan como sítio arqueológico e faz parte do Patrimônio Cultural protegido pela Constituição Brasileira e pela Lei nº 3.924/61. A destruição ou retirada de qualquer material ou remoção de terra deste local constitui crime sujeito à multa e detenção.

Proposta

A ideia de transformar a praça em um memorial foi do professor doutor João Paulo Barreto, da etnia Tukano. Ele explicou que a proposta é uma antiga reivindicação dos povos indígenas para que o local se tornasse sagrado. Segundo ele, na praça Dom Pedro II estão os restos mortais de seus antepassados que habitavam a área. Local que outrora foi palco de grandes celebrações e rituais indígenas.

“Aqui estão os nossos avós, nossa história! Imagine vocês, daqui há alguns tempos ter aqui grandes malocas, muita gente compartilhando, fazendo história e nossa formação de especialistas que de repente estão sendo apagadas. Portanto, esse momento é para olharmos além desse cimento, para olharmos além desses prédios, mas uma celebração de que nossos [antepassados] estão aqui, não para dividir, mas saber que aqui é uma terra construída pelos povos indígenas, pelos corpos indígenas da terra preta que estão aqui”, explicou o doutor em Antropologia Cultural.

A praça Dom Pedro II fica em frente ao Paço da Liberdade, que hoje abriga o Museu da Cidade de Manaus (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Projeto

A reunião promovida pelo presidente do Concultura, Tenório Telles, contou com a participação do doutor em Antropologia Cultural, João Paulo Barreto, e Ivan Tukano, da Associação Indígena Yepemahafa dos Povos Indígenas do Alto Rio Negro.

“Uma sociedade que não valoriza sua memória é uma sociedade que cai no esquecimento e na ignorância. Daí ser um dos fundamentos do Conselho de Cultura em parceria com a Manauscult trabalhar para resgatar e preservar a memória ancestral da cidade de Manaus e do Estado do Amazonas”, disse Tenório.

E continua destacando “esse trabalho de reconhecimento deste lugar como território sagrado Necrópole de Manaus e a criação do Memorial faz parte desse respeito e desse reconhecimento, as populações indígenas do Amazonas merecem essa celebração, essa referência de todos nós, porque é aqui neste lugar que estão enterrados os nossos ancestrais, aqueles que habitaram este lugar e dentro de uma linha de tradição e missão histórica. Nós todos somos herdeiros dessa memória, desses saberes e desses conhecimentos”, destacou o escritor Tenório Telles.

Local onde será colocado a placa do “Memorial Necrópole Manaus” (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Inauguração

Tenório Telles revelou que a ideia inicial é inaugurar o “Memorial Necrópole de Manaus” no dia 19 de abril deste ano. Ressaltando que pretende trabalhar em parceria com os vereadores de Manaus para a mais rápida aprovação do Projeto de Lei.

“Vamos fazer uma grande campanha de conscientização para que, quando as pessoas passarem aqui por esta praça, elas possam olhar, reverenciar e se reconhecer também nesse lugar. Aqui está a memória da cidade Manaus, esse lugar precisa ser reconhecido, reverenciado e respeitado por todos os manauenses esse é o nosso objetivo e só foi possível pela iniciativa do João Paulo, do Ivan, que aqui vieram para pedir que esse lugar fosse resgatado para a cidade e para eles também”, afirmou Tenório.

Se aprovada, a inauguração contará com uma grande celebração indígena com a presença de diversas etnias para que no dia os povos das florestas celebrem a memória e a riqueza dos seus povos.

O prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), reconhece que a população precisa conhecer a história do Centro em um local que possui um sítio arqueológico no coração da cidade, no marco zero, isso é muito importante.

“Impressionado positivamente e quero fazer com que a cidade de Manaus possa ter conhecimento e possa fazer as visitações para saber das suas origens, para saber da sua história e poder também defender tudo aquilo que nós vivemos na nossa cidade”, destacou David.

História

A praça Dom Pedro II fica em frente ao Paço da Liberdade, que hoje abriga o Museu da Cidade de Manaus e que já foi o Palácio do Governo, residência do presidente da Província (1874-1889) e de governadores do Estado (1889-1917). O prédio, que durante décadas foi sede da Prefeitura Municipal, une beleza arquitetônica com as origens da cidade.

Ao lado da praça e do Paço da Liberdade, há outro importante prédio histórico, o Palácio Rio Branco, antiga sede da Assembleia Legislativa do Amazonas. Atualmente, o prédio, ainda imponente, abriga administrações de alguns órgãos públicos municipais. No hall de entrada, há uma pequena exposição sobre o Poder Legislativo aberta ao público.