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17 de maio de 2021

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Gabriel Abreu – Da Revista Cenarium

MANAUS – A vivência dos povos indígenas até a chegada à capital amazonense e os diversos desafios que o ancião Manuel Paulino, do povo Karapãna, vivenciou durante a jornada se tornou objeto de estudo. Em entrevista à CENARIUM, Maria Alice, filha do líder indígena relatou as experiências da etnia que presenciou massacres, ditadura militar e a repreensão aos costumes tradicionais, por meio de missões religiosas.

Maria Alice é uma das descendentes de Manuel Paulino e Otília da Silva, do povo Piratapuia, e explica que a saída do pai, do território localizado na região do Alto Rio Negro, não provocou rompimentos de laços. “Eles sempre mantinham contato com a minha avó e tios de São Gabriel da Cachoeira. A maioria dos parentes que vinham de lá até Manaus tinha um ponto de apoio. Meu pai trouxe consigo diversos ensinamentos e costumes, além da culinária e agricultura”.

O casal indígena, antes de morrer, deixou oito filhos, incluindo Alice, que compõem os últimos representantes da ancestralidade em Manaus. “Ele [Manuel] sempre trabalhou para deixar um aprendizado que mantivesse as tradições indígenas. Seja estando na cidade ou em outros rios pelos quais ele passou, e até mesmo em outros territórios indígenas”, defendeu Maria Alice.

Maria Alice, filha de Manuel Paulino, segue o que aprendeu com o pai e articula direitos com o poder público, e ainda compartilha conhecimentos também com a população não indígena (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Ligação presente

Na pesquisa do professor Glademir Santos, doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com a tese intitulada “Territórios pluriétnicos em construção: a proximidade, a poiesis e a práxis dos indígenas em Manaus”, foram utilizadas as narrativas dos indígenas da comunidade para compor detalhes sobre a construção social do espaço.

Sobre o relacionamento com os parentes que vivem na região do Alto Rio Negro, Maria Alice explica que o contato ainda permanece. “Ainda temos uma relação com a minha tia, que é a mais próximo à tia Irene, que é da etnia Piratapuia, elas ainda têm essa ligação muito forte, até presencial também, quando vamos até os nossos parentes”, explicou Alice.

Conquista do território

Há mais de 40 anos, a família de Maria Alice se estabeleceu na área urbana. No entanto, a conquista foi obtida com muito sofrimento, para que o local pudesse exercer a livre prática de liberdade de expressões indígenas. Os relatos, descrevem a interferência negativa de empresários, que gerou confrontos e mortes de famílias tradicionais ribeirinhas e indígenas.

Segundo Alice, as atuações conjuntas da Controladoria-Geral da União (CGU), do Ministério Público Federal (MPF), da
Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Procuradoria-Geral do Estado (PGE-AM) colaboraram com a manutenção dos direitos territoriais da comunidade.

“A única família que lutou e permanece na região do Tarumã-Açu é a nossa. Por conta do estudo sobre uma nova cartografia, trouxe a confiabilidade que nós queríamos para morar nesse território. Não apenas comercializar os nossos produtos, mas para viver de fato, criar nossos filhos. Além de garantir nosso alimento, por meio da agricultura e,
assim, praticar a cultura, a dança e a medicina”, destacou Alice, sobre a importância do território.

“Permanecer com costumes tradicionais não gera problemas com a sociedade. Essa visão precisa ser alterada, pois os povos indígenas estão cuidando e vão fazer realmente o que está previsto, não só porque está em documentos, mas porque vivenciam os costumes por meio da educação, na escola indígena e por conta de toda essa forma da vida indígena, que também traz muito isso para a gente”, defendeu Maria.

Estudo da autocartografia

Sobre a Cartografia de territórios indígenas no contexto urbano, Maria Alice explica que a tese do pesquisador do Laboratório Nova Cartografia Social da Amazônia foi fundamental para entender os valores passados por meio da oralidade, pelos pais aos descendentes e, e o mapeamento permitiu com que fossem apresentados os direitos e deveres da comunidade.

“Ele [Manuel] sempre trabalhou para deixar um aprendizado que mantivesse as tradições indígenas. Seja estando na cidade ou em outros rios pelos quais ele passou, até mesmo em outros territórios indígenas” Maria Alice, liderança Karapãna.

“Agora, podemos sentar com autoridades e manter relações legais, além do aprendizado que garante a preservação da memória do meu pai e o reconhecimento que ele tanto queria. Entendemos o impacto de questões como a ditadura
militar e a repreensão religiosa, e o massacre dos Waimiri Atroari e de outros povos religiosos, fatos que marginalizavam a cultura indígena. Isso sem mencionar os pesquisadores que exploravam nossos costumes e crenças para lucrar”, disse, emocionada, Maria Alice.

Interlocução

Como uma das lideranças mais importantes no território, Maria Alice afirmou que desenvolve um trabalho de articulação junto às populações indígenas com os órgãos estaduais e federal. O ato é uma forma de solidariedade e suporte aos parentes – forma que os nativos cumprimentam outros indígenas que chegam a Manaus por meio da comunidade no Tarumã-Açu.

“Tenho feito essa articulação das partilhas de conhecimentos também com a população não indígena, para trazer esse laço de confiabilidade entre os dois povos e da população indígena e não indígena com os poderes sociais. E nós, do povo Karapãna, temos sido referência aqui na região do Tarumã-Açu, por meio do apoio para as demais etnias, na educação, saúde e territorialidade”, finalizou Alice.