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26 de janeiro de 2022
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Iury Lima – Da Cenarium

VILHENA (RO) – A médica ginecologista, mastologista e obstetra, Hilka Espírito Santo, da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (Fcecon), falou, em entrevista à CENARIUM, nessa terça-feira, 5, sobre a necessidade da prevenção e combate aos cânceres de mama e de colo de útero, mobilização que se torna mais expressiva neste mês, por meio da campanha ‘Outubro Rosa’. 

Drª Hilka também lamentou a dificuldade de acesso ao tratamento enfrentada na região Norte, além de expor a necessidade de oferecer novas políticas públicas para democratizar exames preventivos e diagnósticos precoces. “O tratamento oncológico precisa ser prioritário no sistema de saúde”, afirmou a especialista. 

A médica ginecologista, mastologista e obstetra indicada ao prêmio Inspiradoras 2021 por inovações no cenário de combate ao câncer de mama. (Reprodução/Acervo pessoal)

No ano passado, entre os homens, a maior incidência foi de câncer de próstata, com 65.840 novos casos em todo o País. Um aumento de 29,2% em relação ao ano anterior. Já entre as mulheres, o câncer mais comum continuou sendo o de mama, com 66.280 novos casos, representando alta de 29,7%. Logo abaixo, ficou o câncer de cólon e reto, sendo 20.470 novos diagnósticos e, o câncer de colo de útero, com 16.710 registros. Os dados são do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

O câncer no Norte brasileiro

Dados do Inca também apontam que, em 2020, a região Norte do País acumulou novos 11.710 diagnósticos de câncer, sendo que um dos maiores destaques foi para os novos registros de câncer de mama: 1.970 casos, ou seja, 21,34 mulheres atingidas a cada 100 mil. Mesmo com cálculo baseado em pacientes mulheres, a doença também pode atingir os homens, que geralmente representam 1% dos diagnósticos, segundo Hilka Espírito Santo.

Já o câncer de colo de útero fez 2.060 pacientes, numa média de 22,47 casos a cada 100 mil brasileiras habitantes do norte brasileiro. Por outro lado, o maior índice na região foi relativo aos casos de câncer de próstata, que se manifestaram em 2.270 homens, com quase 30 diagnósticos a cada 100 mil habitantes do sexo masculino.

“O Amazonas, em especial, mas todos os outros Estados da região Norte têm muita dificuldade. Muitas das nossas estradas não são estradas, não são rodovias, são rios. E as distâncias entre as grandes capitais e entre os polos de atendimento são muito longas e muito difíceis para essas pacientes. Tem pouco médico na região Norte e, certamente, isso reflete no diagnóstico delas”, lamentou a mastologista.

Drª Hilka também contou que as dificuldades impostas aos pacientes, principalmente às mulheres com câncer de mama, foram mais acentuadas no Estado durante o colapso da saúde, época em que se priorizou os atendimentos de Covid-19. “Foram suspensas cirurgias eletivas, cirurgias oncológicas, ou seja, o Estado do Amazonas, em especial, sofreu muito mais do que os outros Estados com Covid-19”, ressaltou. 

Cenário amazônico

Entre todos os Estados da Amazônia Legal, Mato Grosso liderou com o maior índice de incidência de câncer de mama: 36,75 casos a cada 100 mil habitantes. Já em relação aos casos de câncer de colo de útero, o maior indicador é do Amazonas, com 40,18 registros a cada 100 mil mulheres.

Veja a incidência de casos na Amazônia Legal

EstadoCâncer de mama (a cada  mil habitantes)Câncer de colo de útero (a cada  mil habitantes)
Acre31,3926,24
Amapá 22,6229,45
Amazonas32,1340,12
Maranhão27,1828,49
Mato Grosso36,7529,45
Pará 22,5622,00
Rondônia29,3017,22
Roraima32,1329,45
Tocantins35,7724,32
Fonte: Inca

“É importante que todas as mulheres tenham acesso fácil e facilitado à mamografia; que sejam orientadas, que em caso de dúvidas e de alterações nas mamas, tenham acesso rápido ao sistema de saúde; que elas sejam examinadas por profissionais qualificados e que elas tenham acesso à biópsia dessas alterações (…)”, disse a médica sobre a necessidade de aumentar a capacidade de atendimento oncológico pela rede pública.

“Porque só dessa dessa maneira, caminhando contra o tempo, a gente vai poder mudar – não a incidência do câncer de mama -, mas certamente, o curso dessa doença, no sentido de que a gente vai fazer o diagnóstico numa fase mais inicial, onde ela [a paciente] não precisará, talvez, retirar a mama, além da possibilidade de ter um tratamento mais leve, menos invasivo e com uma ótima qualidade de vida”, pontuou Drª Hilka.

Prevenção

A estimativa de novos registros de câncer no Brasil para este ano, segundo o Inca, se aproxima de 66,3 mil diagnósticos. Para detectar um possível câncer de mama, Hilka Espírito Santo recomenda o autoexame, que pode ser feito em casa, em frente a um espelho e de forma tranquila.

O ato de apalpar a mama auxilia a mulher a identificar nódulos e outras alterações irregulares, tornando a prática uma forte aliada para um diagnóstico precoce, elevando a possibilidade de cura e de um tratamento menos agressivo. 

Para o câncer de colo de útero também há prevenção, como explica a doutora. “No câncer de útero, se a mulher, sistematicamente, realizar seus exames de Papanicolau, que é o preventivo, a chance dela ter um câncer de colo invasivo é muito pequena, praticamente zero, porque poderá ser feito o diagnóstico numa fase onde você tem lesões precursoras, ou seja, antes de se transformar verdadeiramente no câncer”, esclareceu.

O Ministério da Saúde (MS) recomenda que o Teste de Papanicolau seja feito por mulheres a partir dos 25 anos e sexualmente ativas.

A especialista ainda alerta que todas as mulheres acima dos 40 anos façam, anualmente, exames clínicos para detectar a possibilidade do câncer de mama. “O exame de detecção precoce considerado o padrão ouro é a mamografia”, detalhou a médica. “E, abaixo dessa faixa etária dos 40 anos, a mulher deve realizar seu autoexame e, sempre que for ao seu ginecologista, solicitar que avalie as mamas ou procurar o mastologista para realizar esse exame corretamente”, explicou.

Autoexame e conhecimento do próprio corpo são essenciais. (Reprodução/Sociedade Brasileira de Mastologia)

Para o autoexame, outra dica é realizá-lo todo mês, sempre uma semana após a menstruação. “Para aquelas mulheres que  estão na menopausa, que não menstruam mais, elas podem escolher um dia específico, por exemplo, todo dia 10 de cada mês”, complementou a ginecologista e também obstetra.

Drª Hilka, uma heroína

A médica ginecologista, mastologista e obstetra é uma das finalistas na categoria “Inovação em Câncer de Mama”, do Prêmio Inspiradoras 2021, do blog Universa em parceria com o Instituto Avon. A médica mobilizou uma força-tarefa para garantir o atendimento de 22 pacientes diagnosticadas com a doença, quando o sistema de saúde do Amazonas colapsou. Do Estado, todas foram levadas ao Rio de Janeiro. 

As finalistas da categoria “Inovação em Câncer de Mama” do Prêmio Inspiradoras 2021. (Universa/Reprodução)

“No momento em que o Amazonas colapsou em todo o seu sistema de saúde, o Hospital de Oncologia – Fundação Cecon ficou de pés e mãos atados, porque nós tínhamos que atender os pacientes com Covid-19, pois, naquele momento, era a prioridade, mas não podíamos esquecer que éramos um hospital oncológico e que nossas pacientes também teriam de ter prioridade”, contou emocionada.

Os esforços para transferir as pacientes que tinham acabado de passar pela quimioterapia (procedimento realizado para diminuir o tamanho do tumor e possibilitar a cirurgia) contou com uma equipe multidisciplinar: envolveu serviço social, psicologia, enfermagem de navegação, diretoria administrativa, gerência de ambulatório e de enfermagem, nutrição, além do apoio da Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas (SES AM), Força Aérea Brasileira (FAB) e do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

“Foram três semanas. A cada semana a gente conseguia mandar um grupo e cada retorno era uma vitória. Tínhamos a certeza de que não estávamos resolvendo o problema do mundo, ou, pelo menos, do Amazonas naquele momento, em termos de oncologia. Mas, certamente, a gente estava podendo resolver o problema de 22 pacientes. E isso representou uma vitória, um acalanto no meio de tanta coisa ruim que o Estado inteiro viveu”, comemorou a médica heroína.

“Nós tivemos muitos pacientes doentes, perdemos muitos pacientes e colegas da área de saúde. A indicação, a lembrança do meu nome, representando a fundação em que eu trabalho há 27 anos, me encheu de alegria, porque eu não represento só a fundação. Eu represento as 22 mulheres e suas famílias que viram, naquele momento, a única oportunidade de tratamento de uma doença que é muito ruim para elas”, declarou a doutora.

“Para mim, enquanto pessoa e como profissional, foi a sensação de tarefa cumprida. O esforço maior foi das pacientes e de suas famílias. As famílias que ficaram aqui, na expectativa do tratamento que elas iriam fazer. Delas, que foram guerreiras, verdadeiramente guerreiras, e que enfrentaram tudo isso em uma cidade que elas não conheciam, com profissionais que elas não conheciam em um hospital que elas não tinham como referência. O prêmio é delas, as grandes vencedoras foram as pacientes”, concluiu a dedicada médica e merecidamente reconhecida, Hilka Espírito Santo.