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20 de outubro de 2021
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Folhapress

Entre cenouras, leite, lentilha, produtos de higiene e outros itens de cesta básica, uma surpresa: livros. Para enfrentar o isolamento social durante a pandemia do novo coronavírus, a prefeitura de Montevidéu distribuiu 5.000 obras literárias a pessoas em situação social vulnerável.

O Uruguai tem 424 casos da Covid-19, segundo o governo, e uma população estimada em 3,5 milhões de habitantes.

Entre os autores das obras distribuídas, há clássicos como Hermann Hesse, Aldous Huxley, Alberto Camus, Júlio Verne e George Orwell. A literatura uruguaia também foi contemplada com escritores canônicos, como Horácio Quiroga e Juan José Morosoli, e contemporâneos como Fabian Severo. Livros infantis e juvenis também foram entregues.

“A ideia é que a cesta básica, mais do que algo para superar a emergência, seja um carinho para o coração das pessoas”, disse à reportagem Juan Canessa, secretário-geral da prefeitura e idealizador da iniciativa.

“Não se trata apenas de minimizar a crise em termos econômicos, mas de fortalecer o espírito. A literatura e a arte colaboram com isso. A distribuição permite que, em alguns casos, obras cheguem a pessoas que habitualmente não compram livros”, explica Canessa.

Administrada pelo coalizão de esquerda Frente Ampla, Montevidéu já não distribuía cestas básicas aos moradores carentes, que contavam com programas federais de distribuição de renda. O secretário explica, porém, que a pandemia exigiu uma reação municipal.

Em uma tarde ensolarada, uma dupla usando máscara e luvas chegou ao endereço da cantora Agness Zacura, 40. Brasileira e mulher trans, ela recebeu uma das “canastas”, como se chamam as cestas básicas no Uruguai.

“Nos cumprimentamos com o cotovelo, sem poder dar um abraço, sem ver os sorrisos porque estavam de máscaras, mas a gente via nos olhos, aqueles sorrisinhos de olhos”, relembra.

Zacura fez um “namastê” aos servidores públicos e iniciou a retirar os itens para higienizá-los. “Quando chegou no fundo da caixa, para minha surpresa, tinha uma edição em espanhol do ‘Pequeno Príncipe’, um livro que eu amo muito, que já li muitas vezes. Juro a que pensei que era um equívoco, de tão surpresa que estava”, conta.

Ela ficou ainda mais surpresa por ter recebido “El Principito” (do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry). “O livro fala sobre as coisas que realmente importam, trabalha o tema de chegar ao essencial. É uma perspectiva que parece infantil, mas é profunda, ainda me emociono com ele”, conta.

A entrega para as pessoas transgêneros é parte do entendimento da prefeitura de que esse público fica ainda mais vulnerável com o isolamento social. “Ter um enfoque em direitos humanos é entender que as pessoas não tem apenas que alimentar o corpo, mas sua cultura, seu saber”, diz Andrés Scagliola, coordenador da Secretaria de Diversidade.

Para Scagliola, “não há pão sem canto”, uma frase da diretora de teatro Nelly Goitiño (1927-2005).

“Ler ajuda passar mais rápido essa época de pandemia que vivendo. Foi uma surpresa porque veio embaixo e todos alimentos. Recebi ‘O Estrangeiro’, de [Albert] Camus”, diz a mulher trans Sofia Saunier, 45, diretora audiovisual. Multiartista, ela mantém um canal no YouTube e já teve trabalhos apresentados em mostras e exposições.

Saunier diz que a quarentena afeta especialmente as mulheres trans que têm na prostituição a única fonte de renda. “Elas não podem sair trabalhar, os clientes também não vão”, opina.

Trabalhando em um carrinho que vende os “panchos” e “chorizos” típicos do Uruguai, a mulher trans Fiorella Clarissa Moretti, 55, também recebeu a cesta com um livro. Apesar de ser um título juvenil, alegrou-se.

Ela está preocupada com o pagamento do aluguel quando parar de receber o seguro que compensa a falta de trabalho em razão da pandemia.

Moretti tem se dedicado a ajudar em uma cozinha comunitária. “Assim me sinto útil”, conta. “Quero voltar a respirar tranquila.”