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25 de janeiro de 2022
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Com informações do Infoglobo

LONDRES — Falta de previsibilidade e logística: são esses os fatores a complicar ainda mais a desastrosa situação dos países africanos no combate à Covid-19. Não bastasse a quantidade de vacinas — ainda muito aquém das necessidades da região — as entregas são erráticas e feitas sem muito aviso prévio. Tudo isso dificulta o planejamento das campanhas, que também precisam prever de escassez de seringas, a longas distâncias em áreas de pouca infraestrutura (inclusive em zonas de conflito), passando pela conscientização da gravidade da pandemia em comunidades que lidam com doenças ainda mais mortais, como ebola e cólera.

Na lanterna mundial, este continente com 1,2 bilhão de habitantes tem apenas 7,3% de sua população totalmente vacinada. A média cai para menos de 5% quando considerada só a região subsaariana. Nada mais propício ao desenvolvimento de novas cepas, como a Ômicron, identificada pela primeira vez na África do Sul, que deixou o mundo em alerta. Nos países ricos, que garantiram a maior parte dos estoques de vacinas bem antes dos africanos — e em quantidades muito superiores ao número de seus habitantes — enquanto as pessoas são convidadas à terceira dose, as autoridades já discutem um calendário para a quarta. É caso do Reino Unido, que acaba de anunciar a compra de mais 114 milhões de imunizantes, e de Israel.

Na África, só Angola — entre os 54 países do continente — conseguiu aplicar a totalidade das doses recebidas até agora. Nem por isso conseguiu vacinar mais do que 8,4% da população com duas doses. Afinal, as quantidades recebidas estão longe de dar conta de seus 32 milhões de habitantes.

“Alguns países só sabem que os carregamentos de imunizante estão chegando com uma semana de antecedência. Assim é impossível fazer o planejamento”, disse o especialista em desenvolvimento Michael Jennings, da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.

Reduzir o abismo

Segundo Edinam Amavi, responsável pela segurança e qualidade das vacinas no escritório da Organização Mundial da Saúde (OMS) na África, o fornecimento dos antígenos já não é o maior problema. O desafio agora é reduzir o abismo entre os países africanos e o resto do mundo. A meta era vacinar pelo menos 10% da população da região com duas doses até setembro, e 40% até dezembro.

“Na média geral, a região segue abaixo dos 10%. Com a vacina em mãos, agora é preciso distribuir e fazer as pessoas aceitarem os imunizantes”, disse Amavi ao GLOBO.

A executiva destacou que a OMS continua trabalhando junto aos países ricos e plataformas criadas para garantir a igualdade de acesso a vacinas para que acelerem o apoio às nações mais pobres. Hoje, a África tem acesso a vacinas a partir do consórcio Covax, liderado pela OMS, da União Africana e de acordos bilaterais firmados entre os países.

O surgimento da nova variante Ômicron na África do Sul, lembra Amavi, deve a um só tempo estimular as nações desenvolvidas a agirem mais depressa e convencer as comunidades a tomar a vacina.

“É sempre assim. O importante é saber que as variantes vão seguir aparecendo até que a gente consiga parar a pandemia, ou vacine 70% da população global”, afirma Amavi.

Além disso, as campanhas de imunização africanas não deslancharam por várias razões, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO. Sem saber quando terão acesso a vacinas, alguns governos demoraram a convocar as pessoas para a imunização. E aqueles que o fizeram com antecedência, despertaram a desconfiança dos cidadãos, que não viram o antígeno ser aplicado em pessoas próximas.

Teorias conspiratórias

Outro fator é que, historicamente, os africanos se veem alvo de experiências de laboratórios com novos fármacos, cujos efeitos colaterais são desconhecidos. Acredita-se que essas empresas se valeriam da falta de regulação em vários países para testar medicamentos. Por essa razão, muitos têm o pé atrás com as novidades.

“Alguns países só sabem que os carregamentos de imunizante estão chegando com uma semana de antecedência. Assim é impossível fazer o planejamento”, disse o especialista em desenvolvimento Michael Jennings.

A demora para o início das campanhas de vacinação abriu espaço para todos os tipos de medos e teorias conspiratórias disseminadas pela internet contra os imunizantes. Isso aconteceu na República Democrática do Congo, um dos países que menos vacinaram até agora em todo o mundo (0,06%). A população não é totalmente avessa à vacina. Mas, como a Covid-19 não afetou tanto este país de 90 milhões de habitantes, que vive às voltas com malária, ebola, pólio e sarampo, sem falar na pobreza e desnutrição endêmicas, é difícil convencer as pessoas da importância de se imunizar.

Para um diplomata europeu na Tanzânia, há uma situação de atraso na campanha de vacinação. Porém nem tanto desespero na parte de tratamento de saúde, porque, além de a África ter uma população muito jovem, vários problemas passam despercebidos. Segundo ele, “há uma postura geral de fazer pouco da doença, por causa da precariedade do sistema de saúde e da pobreza”, e ressalta que “morre muito mais gente de malária na Tanzânia do que de Covid”.

O surgimento de da nova cepa Ômicron na África assustou as nações ricas, que achavam ter a situação razoavelmente sob controle.

“Alguns países, a Pfizer e a Moderna parecem que só descobriram a África agora”, disse ao GLOBO a chefe do departamento de África da coalizão The People’s Vaccine, Mogha Kamal Yanni.