28 de fevereiro de 2021

Michele Portela – Da Revista Cenarium

MANAUS – O número de participantes negros do Big Brother Brasil (BBB21) começou a expor o óbvio. Assim como os demais participantes, os negros divergem entre si e não possuem a mesma história de vida. Cada um com a sua personalidade, brigas entre pretos eram previsíveis. As contendas são uma das atrações do jogo, inclusive. Por isso, desde o primeiro dia da atração, o debate sobre ‘racismo’ e bullying entre negros está dominando as rodas de conversa em todo o país.

Ex-candidata pela bancada coletiva, acumulando uma década como produtora cultural em Manaus, feminista e defensora dos direitos humanos, Michelle Andrews aponta um dos fatores do estresse da edição. “A gente tá vendo o que é fazer um BBB no meio de uma pandemia. Essas pessoas passaram o último ano todo vivenciando a crise sanitária em diferentes níveis e, neste momento, as provocações ganham enormes proporções”, explica.

A ativista Michelle Andrews entende que o momento de pandemia eleva ainda mais os acirramentos dentro do confinamento do BBB21 (Reprodução/Divulgação)

O professor da Universidade Federal do Amazonas e cientista social, Luiz Antonio Nascimento, concorda plenamente. “Em meio a uma pandemia, mais de 2,2 milhões de pessoas mortas no mundo, com o Brasil chegando aos 230 mil mortos, realizar um BBB é perverso, imoral e vergonhoso”, define.

Um jovem ativista

Mas a edição entrou no ar e a coisa avançou colocando Lucas Penteado, um jovem paulistano, ativista e músico, como protagonista da edição, provocando a reação dos demais participantes. Na primeira festa, assediou a participante Kerline e tentou emplacar a narrativa que seria vítima, tentou convencer os participantes negros a votar apenas em brancos até que restassem apenas os negros na edição.

A negritude não gostou e reagiu falando de consciência e respeito, o que trouxe certa exclusão para Lucas, que passou a ser alvo de críticas, isolamento e bullying, especialmente, de outros participantes negros, como Carol Conká. “Começaram o debate sobre a política de cancelamento porque são pessoas que ganharam popularidade nas redes sociais, que é um espaço muito importante para eles”, explica Michelle.

“São pessoas engajadas politicamente, mas é preciso dizer, o BBB não é lugar para militância, embora seja um lugar pra você se apresentar, pra você mostrar a sua verdade”, analisa a ativista. “Sobrevivemos neste planeta em pandemia com situação política aterrorizadora com interesses de grupos políticos nítidos, então, é natural que os gatilhos estejam lá”, diz.

Para o sociólogo Luiz Antônio, cismas entre os negros dentro do BBB21 só fortalece os racistas (Reprodução/Facebook)

Luta identitária

Luiz Antônio traz à tona a questão que toca na expectativa de unidade de Lucas Penteado. “A questão da negritude tem séculos e lutas e há mais de 50 anos tem se lutado por uma construção identitária positiva, inclusiva, eticamente responsável, feminista e anti-homofóbica. Uma luta democrática. O debate de ideias, respeitoso, ainda que duro, é fundamental para a construção de sociedade e coletivos fortes o bastante para enfrentar o racismo e os racistas. Abrir frentes de batalha no interior da negrada só fortalece os racistas”, ponderou.

Cultura nascida nas militâncias digitais, o ‘cancelamento’ ronda os participantes do reality. “Não acredito que os seres humanos serão cancelados, mas certas atitudes”, observa Michelle. “A cultura do cancelamento é o que se tem de mais próximo do fascismo. Cancelar é eliminar o outro pelo que ele é diferente de mim. Cancelar é negar que o outro, sendo diferente de mim, exista. É violento, é asqueroso, é perverso”, alerta Luiz Antônio.

Depoimento

Marice Rocha, jornalista e analista de redes sociais

A analista Marice Rocha avalia que erros acontecem, mas, quando partem de negros, a tolerância é menor (Reprodução/Divulgação)

Essa edição começou com “cancelando o cancelamento”. Isso aconteceu quando só grupos se encontraram e tiveram uma roda de conversa. O cancelamento não veio do nada, a experiência da edição anterior fez com que muitos tivessem o medo do cancelamento por alguma atitude.

Esse é um ponto. O outro ponto é que, nesta edição, temos um maior número de negros. Lucas deve ter visto uma oportunidade de reunir todos para tirar o restante um por um. Dois erros: querer jogar muito cedo sem analisar o cenário e ter sido muito incisivo. Pegou mal, porque as pessoas se sentiram coagidas. A abordagem foi errada e ainda tinha o efeito álcool.

Se alguém tivesse comprado a ideia, talvez não tivesse dado esse reboliço todo. Só que com exclusão do Lucas do convívio coletivo, ele alçou o posto de mártir. E mesmo ele reconhecendo que errou, todo dia lembram ele sobre esse erro. Ao meu ver, o debate racial não tá em querer reunir os negros, mas está no fato que as retaliações são maiores quando o negro erra. Fica parecendo que tudo que ele fez antes ou depois invalida.