28 de fevereiro de 2021

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Mencius Melo e Ana Pastana – Da Revista Cenarium

MANAUS – A capital amazonense amarga em janeiro, as consequências da resistência às medidas de isolamento social durantes os últimos meses de 2020. O negacionismo científico, aliado aos costumes de dois milhões de habitantes e a tentativa de manter a economia do sexto PIB do país ativa, se mesclam com a crise ocasionada pela segunda onda de Covid-19.

Com agravante da descoberta da nova variante do vírus, a maior cidade da Amazônia, com perímetro urbano maior que Recife, enfrenta uma crise de desabastecimento de oxigênio, imersa no maior parque industrial do norte do País, onde abriga mais de 600 companhias nacionais e internacionais.

Por essa razão, a REVISTA CENARIUM reuniu fatos e fotos que podem explicar a nova explosão de sepultamentos no Amazonas. São imagens motivadas por discursos negacionistas oficiais e extraoficiais. Por uma falsa sensação de segurança e pela urgência em “fazer a roda da economia” funcionar.

Da praia lotada em um domingo ensolarado em setembro do ano passado à falta de oxigênio nos hospitais neste meado de janeiro de 2021, reveja aqui imagens que fazem de Manaus, um dos símbolos de uma tragédia pandêmica já anunciada.

Verão em pandemia

Praia da Ponta Negra lotada de banhistas mesmo em meio à pandemia de Covid-19 no ano passado (Revista Cenarium/ Ricardo Oliveira)

O domingo ensolarado de setembro, pouco depois do primeiro pico da pandemia da Covid-19 no Brasil. O flagrante da REVISTA CENARIUM mostra uma multidão na praia da Ponta Negra, localizada na Zona Oeste de Manaus.

Conhecida como ‘Pátria D’água’, pelo poeta Thiago de Mello, o Amazonas e o amazonense têm relação umbilical com os rios e praias. Por desconhecer no que norte existe a cultura da praia de rio, internautas chegaram a dizer que a foto se tratava de uma “montagem de Copacabana no Rio de Janeiro”.

A roda da economia

Principal rua do comércio varejista de Manaus, Marechal Deodoro, no Centro de Manaus com algumas pessoas sem uso de máscara ou distanciamento social (Mário Oliveira/ Secom)

A cena lembra os picos de consumo praticados em épocas como o Natal, mas se trata do centro de Manaus meses antes das festas de final de ano. O povo se espalha e aglomera para comprar nos comércios populares da capital do Amazonas.

Entre as palmas para chamar atenção, muitos clientes com a máscara no queixo e outros sem. Assim “girou a roda da economia” que tanto foi clamada por políticos e empresários do Estado. O resultado de tanta exposição ocupa hoje as manchetes de jornais mundo afora.

Protestos

Em protesto, em dezembro passado, comerciantes e lojistas realizam manifestação contra decreto de fechamento de comércio não essencial em Manaus (Revista Cenarium/Gabriel Abreu)

Com a chegada do final de 2020, a falsa sensação de segurança transformou o alerta de uma segunda onda, prevista pelos cientistas Lucas Ferrante e Jessen Orellana em um “mau agouro” propagado para assustar a população. Os cientistas parecem ter “apanhado em praça pública” por negacionistas.

O alerta foi compreendido pelo governo do Estado, que na semana pós-natal decretou o fechamento do comércio. Encurralado por diversos setores da sociedade, o governador Wilson Lima (PSC), chegou a sofrer ameaças de extremistas nas redes sociais. A população liderada por oposicionistas se revoltou e o decreto foi revogado dias depois.

Festas clandestinas

Titular da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), Louismar Bonates, em ação, este mês, contra descumprimento de decreto governamental (Reprodução/ SSP-AM)
Participantes de festa ilegal são colocados contra a parede em abordagem policial contra aglomerações na pandemia (Reprodução/ SSP-AM)

Mesmo com a revogação do decreto, foram mantidas proibições de eventos festivos para evitar a aglomeração. A partir daí o novo coronavírus contou com a “rebeldia” de produtores que promoveram as famosas “festas clandestinas”.

As redes sociais viraram ponto de encontro para “futuros intubados” que marcavam hora e local para se encontrar e espalhar ainda mais a doença. Coube ao aparato policial tentar evitar ao máximo os eventos.

Prestação de contas’

Familiares acompanham enterros de vítimas de Covid-19 no Cemitério Tarumã, Zona Oeste de Manaus (Reprodução/Edmar Barros)

Tanta exposição e falta de cuidados levaram Manaus e o Amazonas a um colapso nas redes pública e privada de saúde. Com a chegada de janeiro, a cidade vive um pesadelo que chamou a atenção do mundo. Centenas de amazonenses tombaram sob o efeito nocivo de uma variante do vírus.

A notícia se espalhou pelo mundo e a ‘mãe dos deuses’, que é a tradução do nome Manaus em tupi-guarani, chorou seus mortos em rede nacional. A média de enterros bateu quase 200 em um único dia. A “fatura chegou” e o preço foi alto.

Colapso hospitalar e falta de oxigênio

Paciente carrega cilindro de oxigênio no maior hospital do Amazonas, 28 de Agosto (Reprodução/ Jornal El País)
Carregamento de oxigênio chega à unidade de saúde da capital do Amazonas (Revista Cenarium/ Arlesson Sicsu)

Com centenas de doentes batendo às portas no primeiro mês de 2021, a rede de saúde do Amazonas colapsou e um problema até então ignorado se tornou um pesadelo ainda maior para pacientes, equipes médicas e parentes das vítimas: a falta de oxigênio.

Com sobrecarga na rede hospitalar, o consumo de oxigênio saltou para números estratosféricos e o desespero tomou conta de uma cidade. Manaus virou motivo de comoção nacional e personalidades do país inteiro se uniram em campanha para arrecadar oxigênio.

Um adeus a distância

Pelas grades, ao lado de fora, familiares acompanham enterro no Cemitério São João Batista (Revista Cenarium/ Mencius Melo)

Nesta sexta-feira, 15, a reportagem da REVISTA CENARIUM flagrou uma cena triste que se tornou comum em tempos de pandemia. Parentes e amigos se despedem de um ente querido ao lado de fora do Cemitério São João Batista, Zona Centro-Sul de Manaus.

A dor de não poder chegar perto ou mesmo velar os mortos é uma marca que ficará dos tempos em que o novo coronavírus se espalhou pelo planeta. O que resta à população que não sucumbiu é manter as regras de isolamento até a chegada de uma possível cura.