8 de março de 2021

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Eu tive a minha vida restaurada e posso dizer que é uma vida de superação”. É com essas palavras que Luiza* define os 31 anos de luta que trava todos os dias contra o alcoolismo. Hoje com 59 anos, ela contou à REVISTA CENARIUM que sua vida mudou a partir do momento em que conheceu o grupo Alcoólicos Anônimos (AA). Em 2021, a organização completa 50 anos restaurando vidas no Amazonas.

O grupo iniciou seu trabalho de apoio a dependentes do álcool no dia 15 de abril de 1971 e sua história se cruza com longas trajetórias como a de Luiza, que descobriu a dependência com apenas 28 anos de idade. Na época, ela conheceu um grupo do A.A. que se reunia na Igreja de São Sebastião, no Centro da cidade. Foi quando percebeu que não bebia porque queria. “Eu descobri que tudo que estava acontecendo comigo é porque eu estava doente, de uma doença diferente e que eu não conhecia”, recordou.

Jovem, Luiza* sabia que precisava dar passos em direção a sua recuperação. E como metodologia, ela adotou uma sugestão que faz parte da terapia de tratamento empregada pelo A.A. “Eu atendi a sugestão que o alcoólicos anônimos usam, que diz para evitar dar o primeiro gole na bebida por 24 horas. Então eu comecei a participar das reuniões e estou até hoje”, contou.

Grupos ativos

Luiza é um dos membros do A.A. no Amazonas, que tem cerca de 1.300 membros divididos em 66 grupos ativos em Manaus e 21 grupos em municípios do interior do Estado.  De acordo com Gledson*, atual diretor-presidente do A.A no Amazonas, há apenas um requisito para quem estiver buscando apoio na recuperação da doença e deseja fazer parte de um grupo da Irmandade.

“Para ser membro de A.A., o único requisito é o desejo de parar de beber. Primeiramente a pessoa tem que reconhecer o problema que está passando, pois somente ela pode dizer se é ou não alcoólico. Caso queira ajuda, pode procurar o Alcoólicos Anônimos”, afirmou o administrador, que também é membro do grupo há 16 anos.

A organização dos grupos é um dos métodos de tratamento de dependência alcoólica. Nas reuniões, que acontecem até duas vezes por semana, os membros ajudam-se mutuamente, compartilhando entre si experiências sobre o sofrimento e a recuperação do alcoolismo. Conforme as orientações do diretor-presidente do A.A., basta a pessoa se dirigir até um dos locais onde os membros se reúnem.

“O grupo funciona de uma a duas vezes na semana, são reuniões de vivências de vida antes e depois do A.A. A pessoa só precisa ir ao local, no dia e horário indicado em nossos informativos, e participar da reunião de recuperação”, informou Gledson.

Atualmente, as reuniões do A.A. em Manaus estão acontecendo de forma online devido à pandemia do coronavírus. Para dúvidas e informações, basta entrar em contato pelos seguintes números:  (92) 3232-4545, 3234-5109 ou 993382652 (WhatsApp).

Princípios do A.A.

O Alcoólicos Anônimos é reconhecido por seus membros como “Irmandade” e baseia sua missão em três pilares: Recuperação, que é individual – já que cada pessoa tem o seu grau de alcoolismo – e baseada em doze passos que devem guiar o membro ao seu objetivo; Unidade, com o objetivo de os membros manterem-se unidos em um propósito de recuperação; e Serviço, que significa servir a Irmandade a qual o propósito é ajudar as pessoas que desconhecem o alcoolismo como doença.

A organização não está ligada a nenhuma seita, religião, movimento político, organização ou instituição. É presente em vários países e reúne homens e mulheres que compartilham entre si suas experiências, forças e esperanças a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo.

O Alcoólicos Anônimos tem 86 anos de existência no mundo. Surgiu em 1935 em Akron, Ohio, nos Estados Unidos, e tem como marco a publicação do livro “Alcoólicos Anônimos”, em 1939. Atualmente o A.A. está presente em 186 países, contando com aproximadamente 120 mil grupos. No Brasil, a organização celebra, neste ano, 74 anos de existência.

Doença não é contagiosa

De acordo com a terapeuta e psicanalista Samiza Soares, o alcoolismo é a incapacidade de controlar a ingestão de álcool devido à dependência física e emocional. É uma doença crônica caracterizada pelo consumo incontrolável de álcool, condicionado pela dependência.

“É um dos problemas mais graves de saúde pública e, no entanto, poucos ainda associam o hábito de beber a uma doença. Por ser uma substância lícita, em que a fronteira entre o aceitável e o excesso às vezes é tênue, acaba facilitando a travessia da fronteira entre hábito e vício. Para piorar, justamente por não ser ilegal, muitas vezes o problema começa em casa. E com o aval dos pais, no caso dos menores”, destacou Samiza.

A psicanalista ainda reforçou características do excesso de álcool e suas consequências, que podem vir de um momento de abuso em que a pessoa bebe demais, mas não constantemente, ou aparecer naqueles que tomam um pouco além da conta, sem ficar completamente bêbados, mas dependem de alguns goles todos os dias, religiosamente.

“Só um médico pode fazer o diagnóstico com precisão. As consequências vão desde a embriaguez, que é uma intoxicação capaz de gerar alterações motoras na fala e até coma, até o delirium tremens, um estado de confusão mental, alucinações e convulsões se não bebe”, reforçou a psicanalista.

*Os nomes fictícios foram utilizados para preservar o anonimato das fontes