23 de novembro de 2020

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Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – A arte é uma das maneiras mais comuns para quem busca expressar seus sentimentos. Por meio dela, é possível transcrever, seja com música, dança ou pintura, o pensamento de um artista. É o caso da jovem artista amazonense, Bianca dos Anjos, 18, que há dois meses foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e usa a pintura surrealista em quadros como refúgio e forma de tratamento.

A artista, natural do município de Itacoatiara (a 270 quilômetros de Manaus), onde ainda é estudante do Ensino Médio, contou à REVISTA CENARIUM que começou a pintar em junho deste ano após ganhar uma caixinha de tinta guache de um amigo. Até então, segundo Bianca, ela não tinha nenhum contato direto ou indireto com a tinta, mal desenhava, mas logo descobriu facilidade para pintura.

Bianca dos Anjos é a nova artista amazonense (Arquivo Pessoal)

A jovem revelou que começou a vender quadros como uma de brincadeira, pois ela queria mais dinheiro para comprar tinta. No princípio, vendia pequenas telas pintadas em capa de caderno com preço simbólico de R$ 5. Há dois meses, no entanto, recebeu o diagnóstico para TPB e precisou iniciar um tratamento no Centro de Atenção Psicossocial, em Itacoatiara.

Diagnóstico

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), o Transtorno da Personalidade Borderline é caracterizado como uma instabilidade e impulsividade. A psicoterapeuta Tallyne Silva, 24, especialista em terapia Cognitivo Comportamental, salienta que o TPB é um transtorno grave e que os índices de suicídio são elevados. Por isso, o mais importante é que a pessoa busque ajuda profissional.

Segundo a psicóloga, pacientes com o transtorno costumam apresentar instabilidade nos relacionamentos, que na maioria das vezes são extremamente intensos, mas que podem terminar rapidamente.

“O paciente com TPB apresenta reações emocionais intensas que o levam a oscilar entre amar muito ou odiar muito, de forma repentina”, explanou a especialista.

Psicóloga Tallyne Silva, 24, especialista em terapia Cognitiva Comportamental (Arquivo Pessoal)

Conforme a psicóloga, por ser muito impulsivo, o paciente busca atividades que na maioria das vezes podem ser autodestrutivas, mas que são gratificantes a curto prazo. No entanto, ela reforça que a pessoa com TPB é extremamente inteligente, mas o grau de comprometimento pode acabar o prejudicando.

Tallyne Silva frisou, ainda, que paciente com TPB tem uma impulsividade acentuada e usar algo que goste de fazer (como a pintura), pode ajudá-lo a lidar com a instabilidade e impulsividade.

“O tratamento padrão ouro para o TPB é a medicação com a Terapia Comportamental Dialética (DBT). É a abordagem com mais evidência científica para esse transtorno. O tratamento visa regular as emoções do paciente, psicoeducação em relação ao transtorno e como lidar com algo que faz parte de si, diminuindo a intensidade dessa impulsividade”, finalizou.

Segurança e concentração

Com a terapia, Bianca revelou que recebeu incentivo para voltar a pintar para vender e, com material melhor e mais técnica, ela conta que se sente mais segura para dizer que quer e vai trabalhar com isso.

“Agora uso a arte como terapia. Três vezes na semana vou ao Caps (Centro de Atenção Psicossocial) da minha cidade e tenho levado isso como tratamento. Eles têm um projeto incrível que explora esse lado mais artista de cada pessoa e, desde que comecei, meu professor de artes tem me ajudado muito a aperfeiçoar, aprender coisas novas e a treinar bastante”, contou.

Para Bianca, a arte permite que ela se distraia e mude pensamentos ruins, além de deixá-la mais concentrada. A estudante disse que leva em média de duas a cinco horas pintando, mas um quadro complexo pode levar dias para ser finalizado. A jovem explicou que as pinturas em quadros autorais são pura expressão de sentimentos e ideias, nos quais ela diz que consegue colocar o que sente.

“Passo horas pintando e nem percebo. Eu não sei bem qual a minha inspiração, ela normalmente vem na hora, pessoas, lugares, cada coisa que faça despertar uma ideia para um quadro pode ser uma inspiração. Como todo artista, tenho vontade do reconhecimento, não pelo dinheiro, mas pela possibilidade de expressão, de mostrar ao mundo quem sou eu e como penso, tudo isso por meio da arte, as consequências desse reconhecimento seria bônus e eu me sentiria realizada”, destacou.

Surrealismo

O direcionamento artístico escolhido por Bianca foi o Surrealismo, que é corrente artística e literária nascida na década de 1920, em Paris, e criada pelo escritor, poeta e teórico francês André Breton. O movimento se caracteriza pela expressão do pensamento de maneira espontânea e automática.

Em dicionários, o surrealismo é traduzido como a prevalência absoluta do sonho, do instinto e desejo e tem como expoente o pintor espanhol Salvador Dalí. “Gosto de trabalhar o surrealismo, a fuga da realidade, no caso, as ideias. Acho que me permite mostrar mais de quem eu sou, porém pretendo aprender outras maneiras e também gosto bastante de variar o estilo pra não me sentir presa a uma só coisa.

Pinturas traduzidas em versos

Bianca conta ainda que, após pintar, escreve sobre cada tela. “Escrevo sobre cada tela e o que ela representa para mim, mas acredito que cada um deva ter sua interpretação e sentimento sobre a mesma”, salientou.

Confira:

(Arquivo Pessoal/Bianca dos Anjos)

Liberdade, vida e morte, tudo muito ameaçado, ou foi, em alguma época onde, principalmente mulheres, eram alvo de perseguição; a inteligência de cada uma assustava, eram vistas por olhos amedrontados.
Grandes demais para serem entendidas.
Bruxas. Queimadas. Enforcadas. Perseguidas. torturadas.
Entre a vida e a morte, não a delas mas a de alguns, o entendimento básico sobre ciência e natureza fazia com que fossem vistas como ameaça, nocivas.
Inteligência, força, a imposição e a certeza do potencial, isso ainda assusta.
Bruxas, mulheres, humanas.” (Texto por Bianca dos Anjos)

(Arquivo Pessoal/Bianca dos Anjos)

“Somos, por vezes, feito gatos -sozinhos e sorrateiros- percebendo que os pretos são os mais perseguidos, diferentes e malignos? Conversa fiada que nos larga na solidão onde poucos nos acolhem. A noite com luar, tão cheio e sublime, para mostrar a ti e a todos que nem toda escuridão é apenas medo. Árvore florida que mostra a beleza onde, para muitos, não há; árvore seca e um simples balanço, mostrando que pode sim haver vida e alegria onde só parecia restar morte. O gato, você e eu admiramos da janela a imensidão do universo e o tamanho da insignificância de quem ousa parar para olhar, aprender e entender. Dizem que a ignorância é uma dádiva, o saber é um peso, talvez o quadro não seja mais tão belo, talvez agora tenha uma carga maior pra tu que observas. Contudo, espero que lembres que há flores, há luz, há vida e que a escuridão nem sempre é somente escuridão”.(Texto por Bianca dos Anjos)

Incentivo e gratidão

Em meio a um momento conturbado no qual o mundo está vivendo, com a pandemia do novo Coronavírus, a amazonense contou também que a direção da Escola Estadual Deputado Vital de Mendonça, onde estuda, foi fundamental para que ela continuasse pintando.

“A direção me encaminhou para começar o tratamento e a diretora (Meyre Rattes) sempre mostrou muito apoio, foi o que me motivou a continuar”, pontuou a jovem. Como forma de incentivo, Bianca deixa uma mensagem para os demais desenhistas, pintores e artistas.

“Eu diria pra quem desenha, pinta, ou que faz qualquer tipo de arte (escrever, esculpir, dançar, cantar): pratiquem, não desistam, nada é dom, tudo é esforço, não se comparem, não se frustrem, não deixem pessoas te darem rótulos, preços, coisas que você não quer no seu trabalho. Sua arte é o mais puro que você pode mostrar de si, mesmo que seja difícil, cansativo, caro, que você ache que o outro faz melhor, continua, acredite que todo seu esforço vai valer a pena”.

Veja algumas obras de Bianca dos Anjos:

(Arquivo Pessoal/Bianca dos Anjos)
(Arquivo Pessoal/Bianca dos Anjos)
(Arquivo Pessoal/Bianca dos Anjos)

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