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24 de outubro de 2021
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Paula Litaiff – Da Revista Cenarium

MANAUS – Sem vacina contra a Covid-19 e diante da maior crise sanitária em Manaus (AM) com a chegada de uma variação do novo coronavírus em dezembro de 2020 (cepa P.1), a única forma, cientificamente comprovada, de conter o vírus era o isolamento social, à época. Sem dados técnicos, aliados amazonenses do presidente Jair Bolsonaro e o senador Eduardo Braga (MDB/AM) foram contrários ao Governo do Amazonas e trabalharam ativamente pela abertura do comércio.

A pandemia fez superlotar os hospitais públicos e particulares em Manaus, gerando uma grave crise de oxigênio no início deste ano. O saldo de mortos por Covid-19, na capital, foi de 4.430 mortes, entre 1o. de janeiro e 2 de março, 1.050 a mais do que no primeiro ápice da pandemia em 2020, no mesmo período. “Quem foi contra o lockdown não tem o direito de deitar a cabeça em um travesseiro e dormir. São cúmplices de assassinato”, apontou o presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, senador Omar Aziz (PSD/AM).

Os números de mortes por Covid-19 em Manaus estão registrados no site da Fundação de Vigilância Sanitária (FVS/AM). O Amazonas tem 13.249 mortes por Covid-19. Desses, 9.121 são em Manaus e 4.125 nos outros 61 municípios. Há dois dias, pela primeira vez em sete meses, a capital amazonense não registra óbitos pela doença.

Hoje, a CPI da Covid atua para investigar autoridades, em todo o Brasil, que se omitiram ou defenderam medidas não científicas, que podem ter influenciado diretamente nos óbitos por Covid-19. O Brasil registra mais de 500 mil mortes pelo novo coronavírus. A maior causa das mortes pelo novo vírus, especificamente, em Manaus, foi levantada pelo presidente da CPI da Covid, pela primeira vez, nesta semana.

“(…) Temos que ter cuidado com as palavras, com os números, porque foram vidas que foram perdidas por causa de não termos uma política sanitária no Brasil. Então, eu responsabilizo essas mortes, que tiveram no Amazonas, àqueles que foram contra o lockdown”, declarou Omar Aziz.

Charlatanismo em discurso

Omar relembrou que, na época (dezembro de 2020), houve quem celebrasse a flexibilização comercial. “(Muita gente) festejando, porque reabriu o comércio, reabriu tudo, mas tenha certeza que cada pessoa que foi para rua, que cada pessoa que postou no Facebook, no Twitter comemorando, a mesma coisa que aconteceu no Rio e em Manaus, o governador foi obrigado a retroceder”, disse o presidente da CPI da Covid.

No discurso na comissão, o senador do Amazonas fala sobre consciência. “Todas essas pessoas não têm o direito de deitar num travesseiro e dormir tranquilamente. São cúmplices de assassinato do povo amazonense”, declarou, e voltando ao deputado federal Osmar Terra (MDB/RS), aliado de Jair Bolsonaro, comentou sobre defesas sanitárias sem fundamento científico.

“Fora isso, deputado Osmar Terra, com os pitaqueiros, eu digo pitaqueiro, Vossa Excelência é medico e sabe que médico pode prescrever remédio, porque ele tem o direito de prescrever, eu não sou contra. Agora, pitaqueiro, charlatão, isso não. E é isso que está acontecendo no Brasil, o senhor não quer enxergar isso, é difícil, inclusive aqui. Se o senhor não quer enxergar isso, é difícil…”, observou Aziz.

‘Dicas’ sanitárias de Braga

Neste mês, o senador do Amazonas, Eduardo Braga, criticou, durante sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito, as ações do Governo do Amazonas para conter o crescimento no contágio pelo novo coronavírus em dezembro do ano passado.

Braga esqueceu-se que, no dia 26 de dezembro, após o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), decretar o fechamento das atividades não essenciais no Estado, ele estava entre políticos com mandato eletivo do Amazonas que criticaram a decisão. O senador do MDB é possível adversário de Lima nas eleições de 2022.

Em mensagem publicada em sua página no Facebook, no dia 26 de dezembro, Braga afirmou que não era “hora de fechar o comércio sob pena de prejudicar o empreendedor e principalmente o trabalhador. O momento é de responsabilidade de todos, de redobrar os cuidados com a saúde adotando medidas de prevenção como o uso de máscaras, distanciamento e álcool gel”.

No mesmo dia 26 dezembro, insuflada por empresários e políticos locais e da base aliada do governo federal, a população de Manaus foi às ruas para protestar contra a medida. Por conta do risco de colapso social, o governo suspendeu o decreto. Nesse dia, a taxa de ocupação dos leitos de UTI na rede pública estadual era de 92,93% e de leitos clínicos 80%.

O Governo do Amazonas decretou, no dia 23 de dezembro, o fechamento das atividades não essenciais por 15 dias, com base em orientações da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, que entraria em vigor no período de 26 de dezembro de 2020 a 10 de janeiro de 2021.

Com base no decreto, estariam proibidas nesse período, por exemplo, reuniões comemorativas, inclusive de Ano-Novo, nos espaços públicos, clubes e condomínios. Também não estaria permitido o funcionamento de todas as boates, casas de shows, flutuantes, casas de eventos e de recepções, salões de festas, inclusive os privados, parques de diversão, circos, bares, entre outros.

Bolsonaro e o lockdown

O presidente Jair Bolsonaro sempre foi contrário ao lockdown e precisou da interferência do Judiciário brasileiro (Supremo Tribunal Federal) para que os gestores de cada Estado tivessem autonomia para decidir sobre as restrições de isolamento social, segundo o entendimento de cada administração.

Em abril deste ano, no momento em que o Brasil estava perto de alcançar os 400 mil mortos por Covid-19 e o Amazonas ultrapassar 12 mil óbitos pela doença, Bolsonaro, visitou Manaus, e criticou a prática do lockdown como medida para conter a disseminação do coronavírus, citando questões ideológicas e partidárias.

“O Brasil começou a sair das garras da nefasta esquerda brasileira, esses que atrasam qualquer lugar do mundo começaram a ficar para trás. Imaginem essa pandemia com Haddad [Fernando Haddad] presidente da República, estaríamos em lockdown nacional, graças a Deus isso não aconteceu”, declarou Bolsonaro.

Seguindo a “ideia” do presidente, aliados de Bolsonaro, em Manaus, foram contrários ao isolamento social desde dezembro do ano passado, mesmo com alertas da Fundação de Vigilância Sanitária e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Entre eles, o deputado estadual do Amazonas, Delegado Péricles (PSC), que colocou em debate a decisão judicial que mandou fechar o comércio não essencial na capital amazonense.

(Instagram)
Flávio Bolsonaro e o deputado estadual do Amazonas, Delegado Péricles: consenso político sobre Covid (Instagram)