23 de novembro de 2020

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Mencius Melo – Da Revista Cenarium

MANAUS – Trata-se de uma foto plasticamente impecável. ‘Curumins’, como se chama menino no interior da Amazônia, pulam da popa de um barco rumo às águas do rio Urariá, em Nova Olinda do Norte (distante 134 quilômetros de Manaus). O registro é do fotógrafo da REVISTA CENARIUM, Ricardo Oliveira.

Na cena, as acrobacias ganham contorno de capoeira ou de dança contemporânea. O profissional conta o momento do registro. “Na espera de um embarque eu notei que os meninos estavam lavando o barco e fazendo brincadeiras no rio e isso é bem comum no meio da tarde, as brincadeiras de lavagem de embarcação”, comentou.

De acordo com Ricardo Oliveira, o registro é um resumo do que é ser criança na enorme planície que o mundo conhece como Amazônia. “A mensagem é de uma crônica visual dessa Amazônia. Um respeito dos meninos ribeirinhos com o entorno”, observou. “A Amazônia e o espírito infantil”, resumiu o repórter fotográfico.

Futuro livro

Mesmo com potencial para concorrer, Ricardo Oliveira diz que não pretende inscrevê-la para concursos nacionais ou internacionais. “Não pretendo escrever a fotografia em concurso, mas talvez num futuro livro de imagens que pretendo lançar”, explicou. “Na Amazônia não existe lugar comum. Tudo é tão intenso e renovador”, descreveu.

Para o ambientalista Carlos Durigan, a imagem reflete a relação dos seres humanos que habitam a floresta e a conhecem bem. “Vejo estes meninos brincando no rio com uma postura de quem o conhece bem. Sabem que com ele podem contar e até onde podem ir. Assim voam sobre suas águas, nelas se banham e delas se fartam”, declarou.

Já a antropóloga Fabiane Vinente vê a relação ‘homem e natureza’, para decifrar a imagem. “É uma foto muito característica da região amazônica, da relação das crianças com a floresta e com o rio, principalmente com o rio, isso mostra uma liberdade que o nosso modo não pode mais experimentar nas grandes cidades”, observou a Fabiane.

O corpo e o ambiente

A cientista faz uma comparação. “Lembro do trabalho de campo que fui realizar em uma escola indígena no interior do Amazonas e percebi que na hora do recreio existia uma calmaria incomum para mim, acostumada com o barulho e corre-corre das crianças das escolas da cidade, aí percebi que as crianças indígenas liberavam a energia no final da tarde, porque elas iam nadar no rio”, recordou.

“Nossas crianças urbanas vivem em espaços reduzidos, já não se pode brincar nas ruas como antigamente, temos crianças cada vez mais ligadas ao computador, talvez por isso, na hora do recreio, elas correm, gritam, pulam e liberam muita energia, porque nossas crianças da cidade grande, não são mais criadas nessas redes de relação”, lamentou.

A cientista ponderou. “Essa relação das crianças com o ambiente é uma escola natural sobre a relação homem e natureza. Elas vivem ali e aprendem que não precisam vender aquela água, que não precisam vender as madeiras da floresta, não existe esse pragmatismo porque aquele espaço tem outro significado para esses pessoas”, finalizou.

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