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Com informações da assessoria

BELÉM (PA) – Para se plantar e colher dentro de normas ambientais, é preciso algumas certificações. O presidente da Amazonbai, Amiraldo Enuns de Lima Picanço, explica a importância dessas certificações para o reconhecimento do compromisso da cooperativa com o desenvolvimento sustentável e os impactos ambientais e sociais da comercialização do produto de seus cooperados.

De acordo com Picanço, Amazonbai possui o único açaizal certificado e a primeira certificação de cadeia de custódia FSC® (Forest Stewardship Council ® A000541 – Conselho de Manejo Florestal) do mundo para o produto açaí.Além disso, a Amazonbai também possui garantia de proteção de serviços ecossistêmicos locais, sendo a primeira organização do Brasil a cumprir os Procedimentos FSC® de Serviços Ecossistêmicos para conservação dos estoques de carbono florestal e da diversidade de espécies.

O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) atua, há mais de 25 anos, com a certificação socioambiental que estimula melhorias ambientais, sociais e econômicas no setor florestal. A certificação reconhece que a atuação responsável contribui para a conservação dos recursos naturais, proporciona condições dignas e justas para os trabalhadores e promove boas relações com a comunidade próxima à área, à propriedade ou ao empreendimento certificado. Entre os benefícios alcançados pelos certificados, independente do porte, os que se destacam são: diferenciação dos produtos, participação em mercados mais exigentes, ganhos em gestão e em reputação institucional.

Para Leonardo Martin Sobral, gerente florestal do Imaflora, as certificações são um olhar mais atento para a cadeia do açaí, tanto na perspectiva dos cuidados que devem ser adotados para realizar o manejo do produto, quanto no cuidado com a floresta remanescente. “As certificações avaliam como a atividade impacta os ecossistemas e o modo de vida das populações tradicionais para que eles sejam mantidos. É um conjunto de
critérios que olha para as áreas social, ambiental e econômica para garantir a sustentabilidade na produção”, pontua.

O açaí da Amazonbai é oriundo de açaizais nativos produzidos a partir do manejo de mínimo impacto. “Nós acreditamos que esse é um modelo de desenvolvimento para nossa região, principalmente para a cadeia produtiva do açaí, porque nós temos histórico aqui e nos estados do Pará e Amazonas de áreas nativas que estão sendo transformadas em monocultura de açaí. Isso é um risco para o desenvolvimento e conservação da nossa Amazônia, pois descaracteriza o ambiente”, comenta Amiraldo.

Homem carrega cacho com fruto amazônico. (Divulgação/ Amazonbai)

A preocupação do presidente da Amazonbai está fundamentada cientificamente: a retirada de outras espécies florestais para ampliação da área de açaizais, ocasionando uma área de monocultura, ou até mesmo a exploração tradicional, em que não há manejo sustentável, causa desequilíbrio.

Estudo publicado em 2019 pela Embrapa Amazônia Oriental e Embrapa Amapá, aponta que, em áreas em que não há manejo responsável, as plantas de açaí e de outras espécies espontâneas se distribuem na área de maneira irregular, favorecendo a competição por espaço, luz e nutrientes, o que prejudica o crescimento da palmeira e o desempenho produtivo. Quando há ampliação de açaizais na área em detrimento de outras espécies, também há impactos negativos na diversidade florestal, com risco de comprometer a produção de frutos de açaí, tanto pela ausência de outras espécies que são responsáveis pela reciclagem dos nutrientes que alimentam os açaizeiros, quanto pela ausência de polinizadores.

Alta demanda de mercado e os desafios para Amazônia

Com a acelerada expansão da demanda por açaí é preciso estar atento às configurações do cultivo do fruto. É o que defende Bruno Simionato Castro, coordenador de certificação do Imaflora: “é fundamental apoiar a cadeia do açaí de extrativismo, em virtude de suas configurações tradicionais e de fomento ao desenvolvimento sustentável de famílias amazônidas. Sabemos que existe um movimento de discussão do plantio de açaí para uma produção de escala, como por exemplo a utilização de áreas degradadas e sistemas groflorestais. Trata-se de um outro processo que precisa ser acompanhado de perto, mas sem perder de vista a importância de se desenvolver o extrativismo”, defende.

Geová Alves, presidente da Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique (ACTB), destaca o comprometimento dos cooperados da Amazonbai como elemento positivo para o desenvolvimento da região e o fortalecimento do açaí como principal produto comercializado. “É um trabalho de conscientização que ocorre há mais de 20 anos. Primeiro com a coleta do palmito e agora com o açaí. Por exemplo, nós não coletamos todo o potencial de açaí da floresta, grande parte da safra fica por lá e vai alimentar os pássaros, vai permitir que a as espécies se renovem, que haja regeneração natural por conta de um volume muito grande de sementes de outras espécies que são polinizadas”.

A Embrapa desenvolve projetos de pesquisa e extensão com os produtores da Amazônia, com destaque para os estados do Pará, Amazonas e Amapá. A recomendação da instituição é aplicar as tecnologias que buscam a
adequada distribuição de árvores, açaizeiros e outras palmeiras em toda área a
ser manejada. Esse ordenamento reduz a competição por água, luz e

nutrientes e proporciona dentre outros benefícios, o aumento da produtividade de frutos de açaí, a manutenção ou aumento da biodiversidade do ambiente, além da diminuição do esforço e do risco de acidentes na coleta de cachos com frutos, já que os apanhadores de frutos, conhecidos como peconheiros, escalarão estipes mais robustos e de menor porte.

Do ponto de vista econômico, a ampliação do mercado é positiva, pois gera renda para as famílias e movimenta a economia local. Contudo, argumenta Amiraldo, é preciso estar atento aos desafios sociais e ambientais. “É preciso fomentar políticas públicas que deem conta de suprir as necessidades dos povos das florestas. E, também, para que esse crescimento não ocasione problemas irreversíveis”, diz o presidente da Amazonbai.

Entre os pontos levantados por Amiraldo estão a necessidade de garantir que as técnicas de manejo e produção de açaí favoreçam a manutenção dos ecossistemas de várzea, inclusive com sua diversidade de fauna e flora. A Embrapa elenca ações para garantir que a demanda não ocasione problemas, entre elas: o cultivo de açaí em áreas de terra firme precisa superar o desafio da monocultura, por meio de técnicas de manejo mais agroecológicas e menos dependentes de pesticidas e inseticidas; o desenvolvimento de equipamentos e tecnologias visando a melhoria das técnicas de coleta do fruto, de forma a diminuir os riscos para os coletores e também a dependência de mão de obra jovem na atividade.

Promove ainda iniciativas de utilização adequada do resíduo do açaí, em especial dos caroços; regularização fundiária das áreas ocupadas por populações tradicionais, como forma de garantia da permanência dessas populações na atividade produtiva do açaí; o fomento ao cooperativismo voltado tanto para a industrialização do produto pelas próprias comunidades quanto para a comercialização do mesmo, in natura ou beneficiado, é uma estratégia capaz de evitar o domínio desse processo por grandes empresas, melhorar a geração de renda para as comunidades extrativistas uma vez que as torna mais independentes da relação com intermediários e aumentar sua capacidade de inserção no mercado.