7 de agosto de 2020

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Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium

MANAUS – Mesmo com a pandemia do novo Coronavírus sem data prevista para acabar em diversos países e no Brasil, muitas pessoas ainda negam o estado atual dos impactos da doenças na sociedade e as mudanças provocadas pelo surgimento da Covid-19.

De acordo com dados do Ministério da Saúde (MS), divulgados nessa quinta-feira, 2, o Brasil contabilizou mais de 1,2 mil óbitos, totalizando 61.884 vidas perdidas. A previsão do MS é que o País atinja, nesta sexta-feira, 3, a marca de 1,5 milhão de infectados pela doença.

Embora no início da pandemia as pessoas tenham ficado em estado de choque com a aproximação da enfermidade, esse medo foi perdendo força e, atualmente, muitos se arriscam nas ruas sem utilizar máscaras e não estão atentos à importância das medidas preventivas após a flexibilização do comércio, em diversas cidades brasileiras e no mundo.

A equipe da REVISTA CENARIUM percorreu, nesta sexta, 3, o Porto da Manaus Moderna, na Zona Centro-Sul da cidade e flagrou diversas irregularidades, mesmo o Estado do Amazonas registrando 1.246 novos casos de Covid-19, no último balanço do boletim epidemiológico divulgado pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

Na área de atracação das canoas, no Centro de Manaus, que tradicionalmente vende peixes diretamente ao consumidor final, a imagem mostra pessoas aglomeradas, em desrespeito ao distanciamento social, e sem máscaras, além, de, comerciantes desobedecendo os protocolos de segurança sanitária.

Ao longo da orla do Porto não foi detectado nenhuma fiscalização de órgãos responsáveis.

A consumidora Janete Gonzaga, de 35 anos, que comprava peixes, no momento desta reportagem, estava sem máscaras e questionada sobre o motivo, ela disse não ter medo do contágio.

“Não uso máscaras porque não consegui me adaptar. Mas não tenho medo de pegar Coronavírus. Algumas pessoas da minha família pegaram Covid-19. Porém, nenhuma apresentou sintomas graves da doença”.

Já o vendedor de peixes, Marco Antônio dos Santos, de 52 anos, é averso aos protocolos de segurança e prevenção da doença. “Trabalho aqui há 10 anos e nunca nada aconteceu. Não é uma ‘gripezinha’ que vai me fazer parar”.

Um estudo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) alerta para o risco de um novo pico de contaminação pela Covid-19 nos meses de julho e agosto em decorrência, principalmente, com a reabertura gradual do comércio, na cidade.

Os pesquisadores estimam que Manaus pode alcançar o número de 200 mil casos simultâneos da doença, caso a flexibilização do comércio não essencial seja mantida. Ainda segundo o estudo, a cidade poderá registrar mais de 3 mil mortes causadas pela doença com a redução do distanciamento social. 

Especialistas explicam essa negação

Para a pós-doutora em neurociência pela Universidade de Chicago e professora convidada da Casa do Saber, Claudia Feitosa-Santana, a negação é natural do ser humano. Mas insistir nela pode ser mortal.

“Insistir nessa negação pode ser mortal. Mas é exatamente isso, que estamos vendo agora no Brasil. Quando as pessoas não escutam as autoridades de saúde ou os cientistas elas são incapazes de reconhecer a sua própria limitação. E essa negação pode levar a mais de 1 milhão de mortes. O ideal era estamos todos unidos no combate ao Coronavírus. No entanto, estamos em uma guerra entre nós e essa guerra é muito mais mortal. 

Segundo a neurocientista, essa negação não é algo novo. “Foi a negação que gerou o acidente de Brumadinho, em Minas Gerais, foi a negação coletiva que gerou o colapso bancário de 2008, levando a uma recessão econômica mundial. Portanto, essa negação é extremamente perigosa, ela é o que em neurociência chamamos de cegueira ética e leva a tragédias”. 

Claudia Feitosa-Santana relatou também, que o Brasil está vivendo um dilema mais moral do que econômico.

“O Brasil gasta fortunas para salvar acidentados, mesmo que alcoolizados, para tratar pessoas com doenças graves e incuráveis e porque na questão do Coronavírus, simplesmente ignora a existência do vírus?. Olhando pela literatura científica, é muito claro: todo o político, médico, empresário que continua negando o problema e que defende o isolamento vertical deveria ser responsabilizado por todas as mortes em decorrência da Covid-19”, finaliza.

A neurocientista salientou ainda que a ciência é a única, junto com o bom senso da sociedade, que pode fazer com que o Brasil possa reduzir o número de mortes e infectados pela Covid-19.

(Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Já a psicóloga Neyla Siqueira é enfática sobre esse comportamento de negação aos protocolos de segurança e prevenção para controlar a propagação do vírus. 

“Esse processo de negação tem a ver com o luto e as com perdas. É um processo natural, reconhecermos isso, inclusive, como a primeira fase do luto. Porém, quando se trata de proporções muito maiores, o negacionismo tem impacto direto no coletivo, com a recusa de fatos e evidências, que acaba por colocar todo mundo em risco”, explicou a psicóloga. 

Neyla Siqueira disse também que, na psicologia social, essa negação de mudança de rotina gera conflito e faz a pessoa entender que sua rotina do pré-pandemia foi anulada e o novo gera ansiedade e incertezas. 

Balando da Covid-19 após flexibilização do comércio  

Segundo dados do MS, em apenas 14 dias foram registrados mais de 500 mil novos casos da doença no País. A Covid-19 já chegou a 90,1% dos municípios (5.021) e o percentual de cidades com mortos é de 45,8%, segundo dados do Ministério da Saúde. Em meio à onda de flexibilização do isolamento e explosão de casos de Covid-19 no Brasil, o número de mortes diárias voltou a subir. Nessa quinta-feira, 2, o Ministério da Saúde contabilizou mais 1.252 óbitos, totalizando 61.884 vidas perdidas no País.

Apesar de o Brasil se manter em segundo lugar no ranking de mortes, é também o País com mais pessoas curadas da doença. São 852.816 recuperados, número 46,5% superior à quantidade de pacientes sob acompanhamento médico. Atualmente, o registro de pessoas curadas representa mais da metade do total de casos acumulados (57%), segundo dados do Ministério da Saúde.

Outros estados

Metade das unidades federativas do País já possui mais de 1 mil mortes pelo novo Coronavírus. Depois de São Paulo, o segundo Estado mais afetado em números absolutos é o Rio de Janeiro, que possui 116.823 casos e 10.332 óbitos. Em terceiro está o Ceará, com 6.284 registros. Nesta quinta-feira, 3, o Pará bateu mais de 5 mil perdas, com 5.004. O próximo a atingir a marca será Pernambuco, que já tem 4.968 mortes.

Os outros oito estados com ao menos mil óbitos são: Amazonas (2.862), Maranhão (2.119), Bahia (1.947), Espírito Santo (1.728), Rio Grande do Norte (1.103), Alagoas (1.091), Minas Gerais (1.059) e Paraíba (1.044).

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