Em isolamento, famílias encontram o lado bom que mora na adversidade

Nícolas Marreco – Da Revista Cenarium

“Tudo escuro e sem sentido, tudo da terra foi pro mar. Desesperar nem no dilúvio, ventania é o que faz voar. Com giz eu fiz dois riscos, uma ponte a me libertar”. O trecho de “Noite dos Jangadeiros”, de Jorge Vercillo talvez nunca tenha feito tanto sentido. Durante a pandemia, a despeito das más notícias em todos os cantos, é possível viver bem e feliz.

É o que indica o relato da terapeuta Kelly de Oliveira, de 41 anos. Ela, que atende pelo nome Bia de Santa Maria há oito anos, contou que já estava preparada para o tempo de confinamento. Por ser envolvida nas questões espirituais, as reações para preservar a saúde mental de toda a família, inclusive, vieram mais rápidas.

“Já venho nessa busca pela espiritualidade, e vinha recebendo recados falando muito da palavra preparação; mudanças planetárias, da energia do planeta. A minha formação como terapeuta e todas as buscas e estudos me possibilitaram estar isolada e bem comigo mesmo, sem entrar nessa ‘vibe’ de pirar”, detalhou.

Ela e o esposo são músicos e aproveitaram o tempo para organizar as produções. Bia disse que decidiu desenvolver esse dom, como terapia também. Na rotina com o filho pequeno, também fez um pacto de positividade: sempre que os três se reúnem, é proibido falar de coisas ruins.

Em família: o pacto de falar somente em coisas boas quando os três estão juntos ajuda a fazer a manutenção da harmonia no lar. (Arquivo Pessoal)

“Combinamos de usar a TV só para assistir filmes e coisas parecidas, não estamos acompanhando o noticiário. O que é necessário saber, entramos na internet. E muita música, meditação… Hoje conseguimos registrar as obras [autorais]. Talvez, estejamos nos equipando melhor agora até para se fazer as lives”, completou.

Apesar da reviravolta, ela afirmou: “2020 tem sido prazeroso, um ano feliz. E quando vem o incômodo, recomendo a meditação”. A carga de autoconhecimento, necessária para a quietude, é desafiadora de pôr em prática, ela admitiu. Outra ação para melhorar o humor é o cultivo de plantas, o cuidar em si de uma vida.

“Tenho compreensão de que a gente não precisa se cobrar tanto para a nossa rotina ser acumulante; estamos num processo de transição. Isso não tira a importância de organização, não abri mão de fazer minha agenda no final do dia. De alguma forma, deixa o cérebro aterrado. Comecei a fazer um jardim, começo a olhar ao redor e observar o que posso melhorar na minha rua”, concluiu.

Velhas práticas

A autonomia alimentar, com as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), tem tido espaço na quarentena da Bia. Além do manjericão, do alecrim e do boldo, por exemplo, ela já plantou couve e os tomateiros estão crescendo. Quem também voltou para hábitos antigos foi a estudante Laís Delgado, de 18 anos. A prática de bordados, ensinada pela avó, tomou protagonismo na rotina doméstica não só pela distração, mas um jeito inusitado de ganhar dinheiro.

A jornada de microempreendedora veio como escape à ociosidade. Nos poucos meses de confinamento, dois negócios já surgiram da vontade do tempo livre. (Arquivo Pessoal)

Depois de receber quase 15 pedidos de encomenda numa foto de tiara feita à mão no Instagram, ela viu que cabia uma linha de produção. Junto com a mãe, também divide o negócio Doce Escrita, que vende brownies, tortas e itens de papelaria. “Pensava em abrir um negócio desde o ano passado com a minha mãe, para ela ter um trabalho em casa, já que ela cuida do meu avô”, falou.

O resultado foi de lucrar em um dia R$ 300, que já ajuda enquanto o auxílio emergencial não é deferido pelo governo. De hobbies a vendas informais, a quarentena também serviu para explorar outra perspectiva para o futuro. Na espera pela vaga da lista de espera em Medicina, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ela decidiu se animar e estudar de novo para um eventual vestibular.

“Montei um cronograma, com uma rotina diferente todos os dias. Coisas básicas de limpeza na casa. E também tenho aulas online de ballet. Comecei as vendas por uma paixão de consumo; coisas diferentes de papelaria que não se encontram em Manaus. Já as tiaras surgiram porque queria comprar uma mas o preço era absurdo. Pensei em fazer as minhas”, continuou.

Pequenas frases coladas em vários pontos da casa também ajudam a estudante e a família a estarem inspirados em coisas boas para si e para a convivência. (Arquivo Pessoal)

Na terceira semana de vendas, ela e a prima já contaram 40 pedidos. A prima, inclusive, pediu para entrar para controlar a ansiedade. Laís espalhou recados motivacionais pela casa para se lembrar de certas verdades. “É uma forma de eu acordar e lembrar daquilo, não ficar ociosa, e me sentir motivada”, concluiu.

Reinvenção pessoal

A psicóloga Michele Ribeiro explicou que a pandemia obrigou as pessoas a se reinventarem como pais, profissionais, amigos e mesmo como ser humano. A quebra de rotina pode proporcionar aumento de estresse mental, ela explica, contudo, o cenário de incertezas também abre oportunidades para o autoconhecimento, fortalecer os vínculos familiares e o aprimoramento profissional.

“Agora é o momento onde faz-se necessário respirar fundo e enfocar somente naquilo em que se pode lidar. É hora de ler aquele livro que tanto se quis, mas nunca teve tempo, fazer refeições com a família e viver de verdade esses momentos muitas vezes tirados pela correria”, contou. Também vale montar uma rotina de obrigações respeitando as pausas.

A especialista finaliza afirmando que a melhoria de saúde mental sempre ocorre pela fala. “É muito importante que conversemos com nossos amigos, mesmo que seja por chamada de vídeo. Em casos mais sérios, buscar os diversos profissionais que fazem escuta emergencial online. Para promover saúde mental, é necessário um compromisso com seu bem-estar”, terminou.

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