Professora do Amapá exclui alunos: ‘não quero esquerdista no meu laboratório’

A professora pediu desculpas pela atitude, disse que se excedeu nas palavras, e que sua profissão não serve a preferências políticas (Reprodução)
Com informações da Folhapress

BRASÍLIA – No dia em que protestos golpistas ocuparam ruas em grandes cidades do Brasil, a professora universitária Sheylla Susan anunciou a exclusão da sua orientação estudantes que ela designa como “esquerdistas”. “Ou estão comigo, ou estão contra mim”, afirmou ela no grupo de WhatsApp do laboratório de farmacologia que dirige na Universidade Federal do Amapá (Unifap), na manhã da quarta-feira, 2.

“Não quero esquerdista no meu laboratório”, disse, conforme as reproduções de mensagens aos quais a Folha teve acesso. “Se tiver mais algum esquerdista, que faça o favor de pedir desligamento”, escreveu a apoiadora de Jair Bolsonaro (PL).

Mensagens da professora bolsonarista que exluiu estudantes "esquerdistas" do seu laboratório de pós-graduação
Mensagens da professora bolsonarista que exluiu estudantes “esquerdistas” do seu laboratório de pós-graduação (Reprodução)

Procurada pela Folha, a professora pediu desculpas pela atitude, disse que se excedeu nas palavras e que sua profissão não serve a preferências políticas.

PUBLICIDADE

“No calor das eleições, acabei me excedendo nas palavras”, afirmou. “Peço desculpas pelo ocorrido. As eleições passam e a educação fica”, afirmou.

Na mensagem, Susan se dirigiu, especificamente, a dois estudantes, a quem pediu para buscarem outro professor para auxiliar nas pesquisas, e disse que entregaria à universidade uma “carta de desistência”.

Um deles é Debora Arraes, 35, que está no terceiro ano do doutorado, na área de farmacognosia (que estuda princípios ativos naturais, animais e vegetais).

Bióloga e ecóloga, ela também é professora da Universidade Estadual do Amapá, e seu doutorado, vinculado à rede de pós-graduação Bionorte, tem como foco a pesquisa de venenos de sapos. Para isso, ela usa o laboratório dirigido pela professora.

“Eu sou do doutorado, mas no grupo do laboratório que ela mandou as mensagens estão também alunos de iniciação científica, do PET [Programa de Educação Tutorial], mestrado e também de outros programas de pós-graduação”, disse Arraes à reportagem. Segundo ela, ninguém mais se manifestou no grupo desde então.

Ela afirma que se sentiu vítima de perseguição política e que a professora já a havia tratado com rispidez, mas nunca nesse nível.

Nas suas redes sociais, Sheylla Susan já teve publicações retiradas do ar por infringirem a política de fake news. Comparou o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao ditador nazista Adolf Hitler e postou uma imagem de uma seringa médica mesclada a uma munição de arma de fogo para criticar informações sobre a pandemia.

Postagem da professora Sheylla Susan, no Instagram
Postagem da professora Sheylla Susan no Instagram (Reprodução)

A postagem diz “eu confio na ciência, mas acontece que”, citando em seguida “censura”, “condicionamento social” e “instauração de pânico” — ecoando argumentos de bolsonaristas contra medidas de contenção da Covid-19.

A foto de perfil da pesquisadora, no WhatsApp, diz: “estou com Bolsonaro” e tem uma imagem do presidente.

Em nota nas redes sociais, a Universidade Federal do Amapá caracterizou o caso como “assédio”, disse repudiar a conduta e afirmou que “serão adotadas as providências necessárias” após a apuração dos fatos.

A rede Bionorte disse que realizou a “instalação de comissão de sindicância para apuração dos fatos”, que é “totalmente contrária a qualquer tipo de discriminação” e que tomará “medidas cabíveis” sobre o caso.

A aluna Arraes também recebeu apoio público do sindicato de servidores, de diretores da instituição, da Universidade Estadual do Amapá — onde é professora — e diz que a Bionorte, pela qual cursa o doutorado, também tem lhe prestado o amparo necessário. Também afirma que recebeu mensagens de diversos professores e pesquisadores.

Manifestantes se reúnem em frente ao Tiro de Guerra de Maringá, contestando o resultado das eleições presidenciais e pedindo intervenção federal
Manifestantes se reúnem em frente ao Tiro de Guerra de Maringá, no Paraná (Gilmar Ferreira/Diário de Maringá)

Natural do Pará, ela atualmente vive em Macapá, com o marido e dois filhos. Seguiu carreira acadêmica em universidades públicas e com auxílio de programas do governo federal.

“Me senti tolhida, ofendida, violentada, desrespeitada. Principalmente, porque sou uma pessoa preta, de família pobre. A trajetória da minha vida caminha junto com a expansão e a melhoria das universidades públicas”, diz ela.

Agora, Arraes ainda pensa em como seguir com sua pesquisa, que já teve um primeiro artigo acadêmico submetido à revisão e tem um segundo em produção.

“O laboratório é essencial para a minha pesquisa. Agora, pretendo buscar novas parcerias, ver onde posso trabalhar com isso. Não tenho certeza sobre o que vai acontecer”, afirma.

PUBLICIDADE

O que você achou deste conteúdo?

Compartilhe:

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.